
EM
SINTONIA COM OS AVANÇOS DO MERCADO
A evolução da reposição automotiva independente
Antonio Carlos Bento de Souza*
DISTRIBUIÇÃO
– É AÍ QUE A BRIGA PEGA FOGO
A Andap – Associação Nacional dos Distribuidores de
Autopeças tem-se empenhado em avaliar as mudanças na cadeia
de distribuição automotiva para compreender como o setor
que representa está sendo afetado. Em especial, a entidade está
atenta às relações sempre difíceis entre o
atacado (distribuidores) e os varejistas.
As transformações no setor de distribuição
tornaram-se mais significativas em meados dos anos 90, quando a abertura
às importações de veículos trouxe inúmeras
marcas de veículos para o mercado brasileiro e atraiu rapidamente
mais de uma dezena de novas fábricas.
A introdução de inúmeros modelos
importados e o lançamento de uma linha nacional renovada (automóveis,
comerciais leves, caminhões e ônibus) deu início a
uma revolução no segmento de distribuição
de autopeças e de reparação – e isso não
aconteceu apenas em razão da diversificação de sistemas
e componentes e da sofisticação das tecnologias automotivas.
O cliente final, proprietário do veículo,
armou-se do Código de Defesa do Consumidor e tornou-se mais exigente,
a ponto de provocar uma reação dos fornecedores de peças
e serviços: acabar com o amadorismo. Distribuidores, varejistas
e aplicadores começaram a investir – em maior ou menor grau
- em tecnologia, recursos e capacitação de pessoal.
Como acontece em todo mercado em transformação,
surgiram oportunidades e desafios para o setor, que passou a buscar novas
estratégias em gestão de operações para enfrentar
as flutuações na demanda de peças e serviços.
Essas e outras questões fundamentais para o setor
de distribuição, que estão em debate na Andap, aparecem
resumidas na edição de abril da revista Aftermarket, produzida
pela Editora Novo Meio. No centro da análise estão as relações
entre distribuidores (atacadistas) e o varejo.
Entre os ingredientes da sopa de complicações
para o distribuidor estão a necessidade de estoques crescentes
para atender o variado cardápio de solicitações,
a obrigatoriedade de sacrificar as margens de lucros quando a situação
aperta e as novas tecnologias indispensáveis na área de
gestão de estoques e vendas, trazendo softwares e computadores
aos quais o pessoal em geral não tem familiaridade.
Entre os distribuidores essas ferramentas já aparecem
com freqüência, mas para o varejo o atraso é visível
e compreensível.
Segundo a Andap, a estrutura administrativa para manter
o negócio da distribuição exige mais investimentos
e uma nova organização. Os custos subiram em todos os itens,
desde telefonia e correio até os gastos com pessoal qualificado
e financiamento da venda. Isso sem falar nas questões de garantia,
com exigência crescente pela Nota Fiscal, um item raro em negócios
com tradição familiar.
Enquanto os vendedores do distribuidor já se entendem
com o computador, o mesmo não acontece com varejistas e aplicadores.
Assim, os avanços da comunicação, especialmente via
Internet, não podem se generalizar ao longo da cadeia.
As coisas no setor se complicam um pouco mais quando se
trata de definir fronteiras entre os negócios do distribuidor e
do varejista, aí envolvidos os entendimentos diretos com montadoras,
aplicadores, centros automotivos e os demais players da teia de negócios.
Enquanto atacado e varejo disputam espaço, competidores
poderosos ou inovadores avançam sobre o setor: os departamentos
de aftermarket das montadoras e suas concessionárias, os centros
automotivos, os produtores de remanufaturados e os informais.
Lembra-se de quando as concessionárias ficavam
quietinhas em seu lugar, limitando-se a consertar os carros que chegavam
a suas oficinas? Hoje é diferente. Elas já descobriram que
precisam correr atrás dos proprietários desses carros (disputando
muitas vezes o mesmo espaço do reparador) e buscar alternativas
na venda de peças (disputando com o distribuidor e com o varejista
de autopeças).
Nesse ambiente de extrema competição, cada
segmento trata das próprias dificuldades. Enquanto enfrentam zonas
de atrito com o varejista, os distribuidores precisam gerenciar seu cash
flow – os recursos que utilizam para girar os negócios. De
um lado compram das fábricas praticamente à vista, mas têm
de financiar os clientes no varejo e investir em estoques cada vez maiores
e mais diversificados.
O varejista, apertado entre o distribuidor e seus clientes
aplicadores, ainda procura fórmulas para se renovar e fôlego
para investir em capacitação. Ao mesmo tempo, tem o desafio
de abastecer um cliente também com pouco fôlego: o pequeno
reparador.
E o reparador? As coisas estão difíceis
também nessa fronteira. É preciso disputar espaço
com concessionárias e centros automotivos pela prestação
de serviços. É preciso também correr atrás
de informação (junto às montadoras e fabricantes
de sistemas) sobre centenas de modelos que chegam ao mercado com novas
soluções e componentes. E quem tem recursos, nessa área,
para ainda investir em sistemas informatizados de diagnóstico?
Quem não investe está fadado a não sobreviver.
Como é fácil perceber, as equações
a serem resolvidas na cadeia de distribuição têm mais
incógnitas do que soluções.
voltar