A hora na verdade no preço dos combustíveis

Em meio a esse tiroteio fica o consumidor perplexo. Para aumentar a confusão, o álcool sofreu um aumento de mais de 20%, com reflexos na gasolina que contém 25% de álcool. Como carros a álcool novos só tiveram produção residual, a partir de 1995, poucos atentavam às variações sazonais de preço do combustível vegetal. Isso se dá pelas diferenças de produção entre safra e entressafra. Quando cai muito de preço, as pessoas de boa fé se sentem tentadas a fazer mistura por contra própria de álcool e gasolina. Apesar de significar prejuízo ao motor em médio e longo prazo.

Com o advento do motor flex no ano passado o consumo voltou a subir. E apareceram os espertalhões prometendo a adaptação a custo baixo que traz desperdício de combustível e poluição. Ao mesmo tempo, ocorreu uma procura do álcool brasileiro no exterior: as exportações aumentaram de 8% para 14% da produção total, entre 2003 e 2004. Essa conjugação de fatores enxugou o excesso de combustível que deprimia os preços.

Reside aí a grande vantagem do motor flex. O brasileiro aprendeu rápido o conceito de preço relativo. Importa hoje saber que até 70% do preço da gasolina é vantajoso abastecer com álcool. Há cidades em que o alternativo nunca será competitivo e aí se usa o combustível fóssil. Foi assim que nasceu essa solução nos EUA, onde só existe álcool em poucos postos. Flexibilidade do abastecimento e fabricação de um único tipo de motor são importantes. E ficará mais evidente com o aumento da produção e investimentos em tecnologia.

No fundo, não é bom que o álcool caia muito no pico da safra. Se custar menos de 50% que a gasolina, estimula as misturas espúrias e as falsas conversões para flex. As exportações são o melhor pulmão para que o mercado funcione a contento. Para tanto 31 novas usinas estão em construção no País, o que dará para atender sem conflitos os mercados interno e externo. Na faixa de 60 a 65% do preço da gasolina, nos 12 meses do ano, o álcool garante ótima economia ao motorista no custo/quilômetro e dificulta a vida dos espertos de boa ou má fé.

Ao mesmo tempo ninguém pode se despreocupar com o preço da gasolina pela repercussão na taxa de inflação. Mais de 16 milhões de veículos (80% da frota brasileira) a utilizam sem alternativa e qualquer reajuste dói no bolso. O que falta é transparência nas decisões de governo sobre formação de preço. O México é um grande exportador de petróleo e aumentou a gasolina em quase 10% em um ano. Desconsiderar a volatilidade e as confusões no exterior em relação ao óleo, só porque estamos perto da auto-suficiência, é dar um tiro no pé (Fernando Calmon, Alta Roda, 25 de novembro).

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