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Opinião | Stefan Ketter |

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<B>Stefan Ketter</b>

06/12/2017

Rota 2030: uma política para reindustrializar o Brasil

Marco regulatório é mais do que um simples regime automotivo

A indústria automotiva brasileira começa a sentir os primeiros sinais de recuperação depois de quedas sucessivas e sem precedentes de vendas desde o desempenho recorde de 3,6 milhões de veículos vendidos em 2012. As projeções indicam que o setor vai encerrar este ano com 2,2 milhões de unidades comercializadas no mercado interno, contabilizando uma recuperação da ordem de 10% em relação ao ano anterior. As exportações devem crescer mais de 40% sobre 2016, o que alavancará a produção em 25% em relação ao ano precedente.

Apesar da reação, o mercado interno ainda estará 40% abaixo de seu grande momento em 2012. Na prática, o setor retrocedeu uma década e voltou aos níveis de vendas de 2007. Evidentemente não é possível atravessar incólume uma turbulência desta magnitude. Muito se aprende e se transforma em processos assim.

A primeira constatação a destacar é que a indústria automotiva, o setor industrial mais importante da economia brasileira, precisa tornar-se mais forte, para absorver os impactos deste e de eventuais futuros momentos desfavoráveis da conjuntura econômica interna. Para isto, é imperativo consolidar uma indústria local com padrões mundiais de competitividade. O Brasil precisa fabricar produtos que sejam desejados e que atendam às normas e regras dos outros grandes mercados mundiais. E os veículos nacionais devem ser acessíveis e homologáveis nos principais mercados globais em termos de segurança veicular e de eficiência energética.

Quando se fala de competitividade, é importante ter clareza de que os fatores que a condicionam são tanto internos quanto externos à indústria. No âmbito interno, os últimos anos, apesar da retração de mercado, foram de intenso investimento em novos projetos industriais e na adoção de novas tecnologias, em processo estimulado pelo Inovar-Auto. O setor investiu mais de R$40 bilhões, dos quais mais de R$5 bilhões por ano em pesquisa, desenvolvimento e engenharia. Novas fábricas de automóveis e motores foram construídas, outras plantas foram modernizadas, novos processos e tecnologias foram incorporados.

A indústria deu um salto em termos de competitividade. Posso assegurar que o Polo Automotivo Jeep, que inauguramos em 2015 em Pernambuco, é a mais moderna planta industrial da FCA no mundo. Incorporou em sua concepção e operação as melhores práticas acumuladas ao longo de anos pelos grupos Fiat e Chrysler. Também já foi capaz de gerar aprimoramentos de processos e inovações, tornando-se referência para plantas que começamos a construir mais recentemente na China e nos Estados Unidos.

Este é um exemplo que ilustra o esforço recente que a indústria empreendeu em um dos mercados mais disputados do mundo, em que estão instalados mais de 20 fabricantes e disponíveis as principais marcas globais. No entanto, no âmbito externo à indústria os investimentos em infraestrutura e logística, fatores críticos da competividade sistêmica, não evoluíram com a mesma qualidade e velocidade. O ambiente de negócios, baseado em previsibilidade de longo prazo, regras claras e segurança jurídica, também não registrou melhoria significativa.

Quero dizer com isto que há muito a ser feito para que os produtos brasileiros – não apenas os automóveis, mas quase todos os frutos da indústria – sejam competitivos no mercado internacional. É preciso identificar com precisão quais são nossas debilidades e enfrenta-las de um modo planejado. É necessário, em suma, contar com uma política industrial que alinhe e oriente múltiplos esforços públicos e privados.

OS BONS RESULTADOS DO INOVAR-AUTO

O Inovar-Auto, mesmo com seus pontos críticos, cumpriu o papel de ser uma política industrial para o setor automotivo e hoje os veículos oferecidos ao mercado consomem R$ 7 bilhões a menos de combustível por ano, tendo reduzido suas emissões de CO2 em mais de 1 milhão de toneladas anuais. É um ganho significativo para o país e a sociedade, propiciado pelo incremento da eficiência energética resultante de uma política clara, que teve vigência de 2013 até agora.

A transformação da indústria verificada nos últimos cinco anos justifica, a meu juízo, a necessidade de um novo marco regulatório que promova e estabeleça as regras para a indústria automotiva brasileira até 2030. Este marco está agora em discussão entre governo e a cadeia automotiva, incluindo aí montadoras, fornecedores de autopeças, sindicatos e demais players deste que é o maior setor industrial brasileiro. O nome dado a este esforço é Rota 2030, que expressa o objetivo estratégico de estabelecer políticas e metas setoriais para os próximos 13 anos, que serão cruciais para a indústria automotiva no Brasil e no mundo, considerando-se a velocidade e envergadura das transformações globais da indústria da mobilidade.

Esse novo marco regulatório é baseado em princípios como visão e planejamento de longo prazo, previsibilidade e segurança jurídica. Tem como pilares novos patamares de eficiência energética, segurança veicular, fortalecimento da cadeia produtiva (fornecedores), estabelecimentos de novos acordos de livre comércio, promoção de tecnologias inovadoras e valorização da matriz energética limpa, com estímulo à propulsão baseada no etanol eficiente, em elétricos e híbridos.

Esta agenda é fundamental para que a indústria automotiva brasileira se alinhe, sobretudo em termos de eficiência energética e segurança veicular, com os parâmetros dos principais mercados do mundo. Significa tornar os veículos brasileiros competitivos e homologáveis nos principais mercados, dotando o Brasil da possibilidade de consolidar-se como uma plataforma eficiente de exportação. Este movimento é estratégico para montadoras e fabricantes de autopeças, cuja capacidade instalada de produção é muito superior aos níveis atuais de demanda do mercado interno. A possibilidade de acessar grandes mercados no exterior pode elevar a produção nacional a um patamar que a torne mais competitiva.

Além disto, a adoção de uma política orientadora de investimentos em busca de maior eficiência energética é coerente com o compromisso internacional que o Brasil assumiu de reduzir suas emissões de CO2. Nossos estudos mostram que a intensificação do emprego do etanol – incluindo o etanol de segunda geração – pode reduzir o nível de emissões do veículo nacional a padrões tão baixos como os previstos nas rígidas legislações europeia e norte-americana.

O Rota 2030, em função de seus reflexos e desdobramentos, tem potencial para ser mais do que um regime automotivo. Tem envergadura para ser uma verdadeira política industrial que estimule a reindustrialização do Brasil em bases mais eficientes e competitivas do que jamais foi alcançado.

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Stefan Ketter é presidente da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) para a América Latina

Comentários

  • Gilson Paula Lopes de Souza

    Análise assertiva e inspiradora para uma decisão aprovatória pelo governo, que não deve restringir-se, ao meu ver, apenas pelo viés fiscal do programa.

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