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Opinião | Mari Martins |

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Mari Martins

30/08/2018

Somos humanos e temos vieses que impactam as nossas decisões

Entenda como detectar julgamentos e tomar atitudes conscientes

Enumeramos abaixo uma série de comentários comuns. Você já escutou algum deles?
- “Você dirige como um homem.”
- “Eu preciso me comportar como um homem para ser respeitada.”
- “Você é super competente e forte. Para ser homem só precisa...”
- “Por que você quer ser diretora? Você já foi tão longe. Não está bom? Olha onde você chegou, poucas mulheres chegaram aí.”
- “Eu quero engravidar, mas isso atrapalhará a minha carreira.”

Essas ideias que passam vez ou outra pelas nossas mentes ou de outras pessoas nasceram de interpretações generalizadas e podem ser categorizadas como vieses inconscientes.

Vamos entender como eles são formados?

“Se você é humano, você tem vieses”, afirma Howard J. Ross, fundador da Cook Ross, uma consultoria especializada em diversidade. Ross¹ defende a ideia de que somos rotineiramente influenciados por vieses inconscientes que direcionam nossas ações. Não só somos movidos por estes vieses, como também, dificilmente, percebemos que somos afetados por eles. Com isso, não só a presença dos vieses, como a sua negação são a força motriz que direciona diversos resultados equivocados.

Renee Navarro, vice-reitor do departamento de Diversidade e Extensão da Universidade da Califórnia, explica que o viés inconsciente se refere a atitudes ou estereótipos que afetam nossa compreensão, ações e decisões sem que a gente se dê conta disso. “Um grande número de pesquisas demonstra como processos mentais inconscientes, automaticamente ativados e difusos se manifestam em uma variedade de contextos. O impacto do viés inconsciente é significativo”, diz Renne.

Um dos lugares mais comuns onde esses vieses podem ser encontrados são os papéis sociais ocupados pelas mulheres no trabalho. Um estudo de Abele e Wojciszke afirma que as pessoas tendem a procurar em um líder certas características como direcionamento para tarefas, foco em objetivos, que são mais associadas ao masculino, do que as características que aparecem com mais frequência no feminino, mais focado nas relações e no espírito colaborativo. Para chegar nesta conclusão, pesquisadores analisaram mais de 4 mil avaliações da Academia Naval Americana, onde algumas características foram atribuídas a homens e mulheres. Eles descobriram que, embora homens e mulheres recebessem números semelhantes de atributos descritivos positivos, as mulheres ganharam mais atributos negativos preditivos do que os homens. Esses atributos individuais eram predominantemente femininos (temperamental, fofoqueira, frívola). Os autores discutem que, embora as características mais associadas ao feminino sejam reconhecidas como importantes, os avaliadores institucionais ainda tendem a considerar mais os traços mais comuns associados ao masculino para cargos de liderança e performance.

O artigo discute que, por causa desses vieses, mesmo vivendo em uma era que trabalha tanto com a inclusão, ainda somos muito influenciados pelos papéis e rótulos dos gêneros. Portanto, a mesma características que pode ser atribuídas a mulheres como algo negativo, como “chefona”, muitas vezes também é associada ao homem, mas com uma conotação positiva (“ele é muito chefão”). A conclusão dos pesquisadores é de que a percepção diferente de homens e mulheres direcionada por estes vieses inconscientes afeta a validação das competências femininas e, consequentemente, o reconhecimento da capacidade de liderança das mulheres.

Mas, por que possuímos esses vieses? Qual é a explicação para a existência de um mecanismo que pode ser tão problemático? Daniel Kahneman explica que a cognição humana é resultado da interação entre dois sistemas cerebrais principais. O sistema 1 é inconsciente e composto por um mecanismo mais antigo que controla os pensamentos de forma bem rápida. Ele é responsável pelas reações imediatas a um estímulo e, por este motivo, se envolve mais em julgamentos imediatos e simplificações. Este mecanismo tem uma vantagem evolutiva, já que simplificar informações e fazer julgamentos rápidos permitiu ao homem identificar situações potencialmente perigosas e evitá-las, assim como simplificar a interação entre as pessoas. Faz parte do comportamento humano lidar com cada situação nas suas particularidades.

Já o Sistema 2, mais recente, é consciente e responsável por funções mais complexas, como a própria avaliação de nossas reações, justificativas e análise das opções. O Sistema 2 pode controlar o Sistema 1, ao nos envolvermos em situações de estresse, onde podemos ter reações emocionais imediatas. Ele nos informa qual é o risco dessa situação e nos apresenta opções, melhorando nossa capacidade de tomar decisões.

O que fazer ao saber disso?

- Tenha consciência de que temos vários vieses inconscientes e que eles estão norteando a nossa percepção, assim como nossos comportamentos;

- Identificar os vieses. Parece difícil, mas não é tanto. É um exercício simples, mas que não estamos acostumados a fazer. É preciso parar e observar o que passou pela mente em determinados eventos;

- Desafie as ideias generalizadas; - Tome decisões a partir do funcionamento do sistema 2.

Por exemplo, eu sei que um dos principais vieses que eu tenho é achar que todo mundo consegue aprender e se desenvolver igualmente. Em uma situação precisava contratar uma pessoa para ser coordenadora financeira e um dos pré-requisitos da vaga era ter conhecimento avançado de excel. Entrevistei uma candidata que se encaixava perfeitamente, mas só conhecia o excel como usuária. Em frações de segundo passou pela minha cabeça que eu deveria contratá-la, já que “aprender excel é fácil e ela faria isso facilmente” (um viés). No fim das contas, a própria candidata recusou a vaga, me salvando da armadilha do meu próprio viés inconsciente.

Imagina quantas decisões acertadas podemos tomar ao trazermos os nossos vieses para o consciente?

Afinal, “se você é humano você tem viés inconsciente.”

Mari Martins é empresária na área de desenvolvimento humano na Duomo Educação Corporativa. É diretora, coach e facilitadora de treinamentos em médias e grandes empresas.

Este artigo foi publicado originalmente no site do projeto Presença Feminina no Setor Automotivo, iniciativa que visa gerar conhecimento e estimular a participação da mulher nesta indústria.

Comentários

  • LisandroGaertner

    Mari, Beloartigo. Porém precisamos lutar também contra as estruturas sociais e organizacionais que reforçam e recompensam esses vieses inconscientes. Eles podem ser acionados quase que instintivamente, mas são construídos em boa parte socialmente e só prosperam pois tem ressonância nos grupos dos quais fazemos partes.

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