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Opinião | Alexandre Ayres |

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Alexandre Ayres

16/03/2020

Sobre a Covid-19, os cisnes negros e surpresas inevitáveis

Os efeitos do coronavírus no Brasil serão grandes. Precisamos manter a calma e agir para mitigar riscos e consequências

Na teoria da elaboração de cenários, um evento de baixa probabilidade de ocorrência, mas alto impacto, como é o caso da pandemia global da Covid-19, é chamado de “cisne negro”. As causas da ocorrência de um evento desses podem variar, mas entre as consequências mais comuns estão o espanto e a perplexidade que eles geram na sociedade.

Nosso cisne negro chegou e estamos abobalhados com tantos acontecimentos repentinos e improváveis à nossa volta. É difícil de absorver, mas a disseminação da Covid-19 vai mudar nossa vida por um bom tempo. Os impactos já começaram e serão ainda mais intensos nos próximos dias.

Um segundo conceito na teoria dos cenários é a “surpresa inevitável”, caracterizada por situações previsíveis, impulsionadas por forças e movimentos claros, que estão em curso, mas que podem gerar resultados e consequências desconhecidas.

A curva de escalada da Covid-19 indica que o Brasil está cerca de 20 dias atrás da Itália em número de casos. Lá a quarentena nacional foi decretada no dia 8 de março, cerca de duas semanas após o país alcançar 150 casos positivos para o novo coronavírus, ou seja, um patamar semelhante ao que o Brasil apresenta neste momento.

Se o que ocorreu lá se repetir de forma semelhante aqui, a quarentena no Brasil será decretada por volta de sexta-feira, 27. Será então a nossa surpresa inevitável!

Em uma perspectiva otimista, se conseguirmos retardar a disseminação do vírus em relação ao padrão da Itália, a decretação da quarentena no Brasil deverá ocorrer cerca de dez dias mais tarde, ou seja, por volta de terça-feira, dia 4 de abril.

Nos países onde foi decretada, a quarentena pode ser resumida da seguinte forma: “Fique em Casa!” As medidas incluem a restrição da circulação de pessoas, o fechamento do comércio não essencial ao abastecimento básico da população e a proibição das aglomerações públicas, inclusive cerimônias religiosas como funerais e casamentos.

Observando-se o protocolo adotado pelos países do Hemisfério Norte, as medidas restritivas vêm sendo decretadas de forma gradual. Desta forma, podemos esperar com elevada probabilidade, nos próximos dias, a decretação de estado de emergência de alguns Governos Estaduais, impondo medidas restritivas nas áreas mais afetadas pela disseminação do vírus no Brasil.

São Paulo e Rio de Janeiro, devido à alta concentração de casos, deverão ser os primeiros a anunciar essa medida. Em seguida, deverá ser decretada a quarentena nacional pelo Governo Federal, estabelecendo restrições gerais por algumas semanas, com o objetivo de combater o avanço do vírus.

Há grande chance de adoção de algumas medidas no Brasil:


• fechamento das fronteiras e redução da circulação de pessoas entre cidades;

• restrição de funcionamento de atividades comerciais não essenciais, como escolas, restaurantes, bares e outros. Nos países que adotaram essa medida, apenas farmácias, supermercados e bancos, por exemplo, tiveram autorização para funcionar. Serviços de entrega de comida também puderam continuar a trabalhar.

• redução do funcionamento de meios de transporte coletivo como ônibus, metrô ou aviões.

• As empresas de serviço deverão exigir que seus funcionários trabalhem de casa, com exceção daquelas companhias que necessitam da presença física dos trabalhadores.

O isolamento social gerado por medidas como essas provoca forte impacto negativo nos negócios. Como exemplo, segundo o The Guardian, as vendas domésticas de automóveis na China caíram 92% na primeira semana de fevereiro de 2020, por causa das medidas para contenção da Covid-19. A maioria das concessionárias permaneceu fechada, por precaução, e as poucas que funcionaram tiveram muito pouco tráfego de clientes.

As lojas no Brasil, portanto, deverão fechar suas portas em breve... As próximas semanas serão muito duras para todos nós.

Um terceiro conceito na teoria dos cenários indica que ao conseguir visualizar a trajetória do futuro, devemos atuar no presente para construir o melhor futuro possível, mitigando ou nos protegendo de acontecimentos desfavoráveis e inevitáveis.

Os efeitos deste cisne negro na nossa rotina e na economia brasileira serão grandes. Precisamos manter a calma e agir, nos próximos dias, para mitigar os riscos e os efeitos causados por esta surpresa inevitável em nossas vidas e nossos negócios.

Alexandre Ayres é Diretor da Neocom Informação Aplicada, Professor na Fundação Getúlio Vargas e especialista em estudos de mercado e cenários de futuro.

Comentários

  • CassioPagliarini

    Parabénspelo artigo.

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