Automotive Business
Siga-nos em:
AB Inteligência

Opinião | Pedro Kutney |

Ver todas as opiniões
Pedro Kutney

24/03/2020

Vírus sufoca crescimento, cura será lenta e dolorosa

Maior parte da indústria automotiva já está parada. Mas o pior pode ser o que vem depois

Ao fim da primeira semana de março, após um primeiro bimestre fraco, os fabricantes de veículos no Brasil se preparavam para o esperado crescimento das vendas. A única preocupação demonstrada com a pandemia de coronavírus era a possibilidade da interrupção momentânea de fornecimento de peças importadas da China, onde a epidemia começou, o que eventualmente poderia paralisar algumas poucas linhas de produção e provocar falta de alguns modelos. Bastou apenas mais uma semana de contaminação galopante da Covid-19 para o cenário mudar drasticamente de otimismo moderado para tragédia anunciada.




Além de insuficiência respiratória em algumas pessoas que infecta, o vírus já sufocou o crescimento econômico do mundo e do País para muito além de seu período de infecção. A cura da recessão que vem logo a seguir será lenta e dolorosa.



Com certa dose de otimismo para não entregar os pontos, o governo reverteu a projeção de expansão do PIB brasileiro de 2% para zero. Especialistas já apontam para quedas de 0,7% a 1%. A indústria automotiva seguirá à reboque da crise.

O problema não é mais a provável falta de peças importadas – é possível até que elas sobrem agora. A doença está entre nós e, para mitigar sua disseminação seguindo orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde, é necessário evitar aglomerações e com isso a partir desta semana quase toda a produção de motores e veículos leves e pesados foi suspensa no Brasil, em decisões que atingem mais de 30 fábricas e algo como 120 mil empregados diretos. Eles deverão continuar parados, em média, até o meio de abril – isso por enquanto, se o quadro da pandemia não se agravar. Ainda que a Covid-19 não representasse riscos aos funcionários, a parada de linhas seria necessária porque em breve não haverá mais para quem produzir, pela simples falta de consumidores.

A paralisação deve se estender para toda a cadeia do setor, tanto para trás, nos fornecedores de autopeças onde trabalham algo como 250 mil pessoas, e para frente, na rede de distribuição que emprega 328 mil funcionários em 7,1 mil concessionárias no País. Pode-se multiplicar algumas vezes o número de afetados ao se considerar a vasta teia de consumo que depende desses empregos.

O fato é que o estrago na indústria já está feito, é grande e tende a crescer. As primeiras estimativas da consultoria Bright apontam para perda de produção em torno de 130 mil unidades a menos do tinha sido projetado para 2020, o que significa que este ano devem ser fabricados 2,67 milhões de veículos no Brasil, em queda de 4% sobre 2019, revertendo a expectativa de crescimento em torno de 9%, interrompendo o ciclo de expansão que vinha sendo repetido desde 2017.

Contudo, o quadro pode ser bem pior, as suspensões de atividades podem ser estendidas se os efeitos da pandemia não passarem até o fim do próximo mês, assim como é de se esperar queda avassaladora da demanda provocada pelo isolamento das pessoas, aumento de desemprego e falta geral de dinheiro e confiança no mercado. Afinal, quem em gozo de perfeito juízo pensa em comprar um carro ou caminhão no Brasil hoje? A crise, portanto, será tão longa quanto for a persistência de uma resposta negativa a esta pergunta.

O DESENHO DO DESASTRE



Olhando em perspectiva, sem produção nem receitas as empresas demitem ou deixam de pagar seus funcionários, que por sua vez param de comprar. Alguns analistas já avaliam que o nível de desemprego no Brasil, hoje em torno de 11%, pode avançar para 30% com a perda total de atividade dos atuais subempregados, quase 30 milhões de pessoas.

A evolução dessa tragédia está diretamente ligada a quanto tempo a Covid-19 vai continuar a afetar a produção e o mercado. A maioria aposta que abril será o pico do contágio no Brasil, mas ninguém consegue determinar esse período com precisão, nem o tamanho exato do legado deletério do período de contaminação e paralisação da produção. Na dúvida, muitos já falam em início da recuperação só no último trimestre do ano – sem tempo, portanto, para recuperar o que foi perdido.

Para piorar, a atual administração federal do País age aquém da gravidade da crise, tenta impor medidas descabidas ou insuficientes para conter o avanço do vírus e da pobreza que ele gera. A preocupação mais visível parece ser desobrigar os empregadores a gastar com seus empregados, como se não fossem precisar deles nunca mais. O setor público e seus funcionários mais bem pagos, incluindo presidente, ministros, secretários, senadores, deputados, sequer cogitam em contribuir com parte de seus altos salários e verbas públicas para o esforço de salvar a economia nacional. Poucos lembram que já passou da hora de taxar fortunas construídas ao longo de décadas no Brasil tão desigual.

Enquanto isso, a maior parte do mundo civilizado dá alguns bons exemplos de políticas anticíclicas para preservar empregos e renda. As duas maiores economias da União Europeia, França e Alemanha, já anunciaram reduções e diferimentos de bilhões de euros em impostos, vão assumir parte do pagamento de salários para conter a esperada onda de desemprego. Tudo para garantir o futuro depois que esta crise passar. Ou, como dizem líderes melhor preparados, após “esta guerra” passar. E passará, mas não sem pesadas baixas – por isso este é o momento de se preparar para o pior, fazendo o melhor.

Comentários

  • SILVIOBARTOLETTI

    Querocompartilhar com você em tudo que disse, principalmente quando se refere a nossa classe politica completamente preservada em todos os seus direitos, algumas empresas não sabem se voltarão a operar, não se consegue arcar com todos os compromissos sociais com menos de 50% do faturamento, medidas se é que existem demoram para chegar no bolso das empresas, politicos se aquietam diante da gravidade do problema e ficam se protegendo cada vez mais, simplesmente vergonhoso, torcer para que nada dê certo para depois dizer " eu não falei". Exemplos de Alemanha , França e outros países tem que ser divulgados para que cheguem ao conhecimento dessa corja politica. Para finalizar gostaria muito que as montadoras retomassem a produção mesmo que seja parcial e gradativa.

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

ABTV

AB Inteligência