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Opinião | Pedro Kutney |

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Pedro Kutney

14/08/2020

Covid-19 começa a impor suas sequelas à indústria automotiva

Demissões, investimentos cancelados, atraso tecnológico, prorrogação de prazos para atender normas de emissões e segurança: são legados da crise

A pandemia de coronavírus e seus efeitos nefastos sobre a sociedade ainda parecem longe do fim, mas a Covid-19 já começa a mostrar algumas das diversas sequelas que impõe (ou vai impor em breve) à indústria automotiva no Brasil. Demissões, adiamento ou cancelamento de investimentos, atraso tecnológico, prorrogação de prazos para atender normas de emissões e segurança já são alguns dos legados visíveis da crise sem precedentes. Pior: as ações tomadas até agora pelo governo parecem insuficientes e não indicam nenhuma direção para mitigar o enorme tombo da economia. A equipe econômica parece bem mais preocupada com o deus-mercado e inevitáveis furos no teto de gastos do que em reconstruir o País.

Um mês atrás, enquanto garantia que iria usar todos os instrumentos disponíveis para evitar qualquer demissão na empresa, Pablo Di Si, presidente da Volkswagen América Latina, resumiu o sentimento do setor em relação à falta de políticas públicas para estimular a indústria, evitar cortes e criar uma agenda de desenvolvimento para tornar o País relevante no cenário global: “O governo tem a visão de não apoiar diretamente nenhum setor industrial do País. Eu respeito isso, mas essa política terá consequências. Precisamos de uma estratégia para os próximos 10 a 20 anos. Se nada for feito, o setor não sobrevive”, alertou.

A associação dos fabricantes, a Anfavea, não se animou com os recentes crescimentos mensais das vendas em julho e julho, segue com sua projeção de retração de 40% nas vendas deste ano, algo em torno de apenas 1,6 milhão de veículos, volume muito abaixo do necessário para sustentar a indústria em seu tamanho atual, com capacidade para produzir cerca de 4,5 milhões de unidades/ano.

Para piorar, a entidade entende que, no cenário mais otimista, só em 2025 o mercado brasileiro volta ao mesmo nível de 2019, perto de 3 milhões – o que também já não era considerado suficiente.

DEMISSÕES COMEÇARAM E TENDEM A AUMENTAR



Sem uma visão positiva sobre o futuro, as demissões ou os preparativos para isso já começaram e tendem a aumentar. Algumas empresas sequer quiseram esperar o fim do período máximo de flexibilização de contratos, com uso de instrumentos como reduções de jornada e salários ou afastamento temporário (layoff).

Nissan e Renault já fecharam turnos e demitiram 398 e 747 pessoas, respectivamente – no segundo caso os cortes foram anulados em troca da abertura de um programa de demissão voluntária (PDV) que tem o mesmo objetivo de reduzir o quadro de funcionários.

De acordo com números divulgados pela Anfavea, a indústria desligou 1.484 empregados somente em julho e 6.148 foram demitidos nos últimos 12 meses. Quase todas as fabricantes de veículos estenderam os regimes de layoff e jornada reduzida, com reduções salariais. Outras usaram esses instrumentos e abriram PDVs.

O problema maior virá após novembro, quando chegam ao fim os prazos máximos de afastamento e, se nada mudar no horizonte, a tendência é de uma escalada nas demissões nas montadoras e, por consequência, em seus fornecedores.

INVESTIMENTOS E LANÇAMENTOS ADIADOS OU CANCELADOS



A Anfavea estima que o faturamento dos fabricantes associados, em torno de R$ 200 bilhões/ano, por força da crise econômica será reduzido em 30% a 40% este anos, equivalente a perdas de R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões, que só deverão ser recuperadas lentamente ao longo dos próximos anos. Desta vez, as matrizes no exterior, também afetadas pela pandemia, não poderão socorrer suas subsidiárias. Sem recursos, investimentos e lançamentos terão de ser forçosamente adiados ou até cancelados.

É verdade que mesmo após a instalação da pandemia no País a indústria continuou a fazer lançamentos importantes de novos veículos. Mas estes e os que ainda vão acontecer até o fim deste ano e no próximo já estavam programados e, no máximo, sofreram pequenos ajustes ou precisaram ser adiados em poucos meses à frente. O problema é o que vem depois disso, especialmente a partir de 2022. Sem dinheiro para investir agora, parece óbvio que muitos projetos vão ter de ser paralisados, congelados, postergados ou até cancelados.

Exemplo de como a crise já afetou planos futuros de investimento é o SUV Territory, importado da China e lançado este mês pela Ford no Brasil, conforme planos anunciados há mais de um ano. Existia a expectativa que o modelo pudesse ser produzido na Argentina, mas a Ford foi clara em dizer que o cenário atual engavetou qualquer projeto nesse sentido.

ATRASO TECNOLÓGICO À FRENTE



Sob o argumento de que não há recursos em caixa para desenvolver e adaptar tecnologias de redução de emissões de poluentes exigidas para atender as próximas fases da legislação brasileira estabelecida pelo Proconve L7 (veículos leves) e P8 (pesados), que deveriam entrar em vigor a partir de 2022/23, a Anfavea admitiu que já pediu ao governo o adiamento das próximas etapas do programa em dois a três anos. A entidade calcula que seriam necessários investimentos de R$ 12 bilhões para começar a produzir veículos nacionais que atendessem às novas normas de emissões.

Também entrou na alça de mira dos fabricantes tentar adiar, por prazo ainda não revelado, a adoção de alguns sistemas de segurança ativa, como frenagem automática de emergência, alerta ou assistência de troca de faixa, e até mesmo o controle eletrônico de estabilidade (ESC) que já é obrigatório para todos os novos produtos e passaria a ser exigido por lei para todos os veículos vendidos no País a partir de 2022.

São dois tipos de atrasos tecnológicos (emissões e segurança) que afetam diretamente a saúde pública e seus custos, já que cada doença respiratória ou acidente evitados salva vidas e ajuda a economizar parte dos bilhões gastos anualmente pelo governo e rede médica privada com atendimentos de emergência, tratamentos e reabilitações.

Ainda que as sequelas dessa crise sejam inevitáveis, já passou da hora de tentar mitigar seus efeitos por meio de políticas públicas de incentivo à recuperação econômica. Ainda há tempo de reduzir as perdas para o setor automotivo, mas em breve pode ser tarde demais.

Comentários

  • LuísGomes

    Pedro,mais uma vez o mercado automotivo nacional segue em mares bem turbulentos. Mesmo apos 60 anos, continua com uma serie de problemas e instabilidades. Todavia, ainda entendo que nosso modelo de industria é totalmente equivocado. Na realidade, somos aqui apenas uma industria de montagens totalmente dependente das matrizes no exterior e incentivos governamentais locais. Nosso produto não tem valor agregado e sequer melhorado. Basta comparar nosso segmento com os mercados da Europa ou mesmo asiático. Não somos precursores de nada. Enquanto formos meros fabricantes, sem inclusão de valores, viveremos desta forma.

  • MarcosEdson Nava

    CaroPedro, como você mesmo mencionou neste brilhante artigo:"Dois tipos de atrasos tecnológicos (emissões e segurança) que afetam diretamente a saúde pública e seus custos". Acho que o nosso governo é omisso em dois pontos: 1.Não fomenta o desenvolvimento industrial com políticas estruturantes de médio e longo prazo. 2.Negligência em não exigir das montadoras que nossos veículos sejam menos poluentes e mais seguros.

  • MarcioLuiz Lopes

    Boanoite para todos. Como qualquer empresa multinacional a matriz estará sempre na frente, tanto no gerenciamento dos recursos e investimentos, como no desenvolvimento de tecnologias. Para termos um cenário favorável precisamos retomar o ressurgimento das montadoras nacionais. Desde a saudosa Gurgel até a Engesa, com certeza mais modernizadas; empresas que tinham o setor de desenvolvimento e tecnologia sempre atuantes. É inaceitável que um país com este tamanho e população fique na dependência de montadoras estrangeiras. Certamente em uma crise mundial como estamos todas as montadoras irão optar em investir seus recursos nas matrizes, uma questão de sobrevivência tecnológica e as subsidiárias ficarão naufragando à deriva até que seja dada um rumo que pode não ser bom independente de qualquer incentivo do governo. Porque somos simplesmente linhas de montagem e podemos ser transferidos para qualquer lugar ou país. Precisamos sim de mais incentivos para retomada de desenvolvimento tecnológico nacional e nacionalização de componentes, não banalização dos produtos nacionais e super valorização dos importados. Talvez tenhamos um menor impacto se algumas ações deste tipo forem tomadas.

  • Roberto

    Éfato que o governo pode arrecadar mais desonerando/ incentivando setores e impulsionando o consumo. Mas sinto que não seja o caso, como foi a redução do IPI por crise de 2008. O consumidor tem mudado de perfil. Parece estranho o que vou falar, mas repare em novos lançamentos de prédios de São Paulo e outras capitais, apartamentos pequenos e sem vaga de garagem. Essa nova geração de adultos não quer ter um carro...no máximo quer usar um carro e de preferência com motorista/ uber...tanto carro como habitação estão muito caros (aos olhos dos novos adultos) para justificar alocar sua renda/ patrimônio nisso e bancar a depreciação (no caso do carro). E o comentário do Luis Gomes acima expressa muito o que percebo também. No Brasil, com pouquíssimas excessões, relacionadas à projetos pontuais, somos meros fabricantes de tecnologias desfasadas. Basta ver que os melhores veículos vendidos no Brasil ou são importados ou tem alto % de componentes importados, principalmente os relativos eletrônica embarcada e sistemas de segurança. Enquanto não desenvolvermos tecnologia, estamos fadados a enfrentar crises sem nenhum tipo de arma, uma vez que apenas o nosso volume de produção era a nossa força para justificar produção local. Por fim, estamos perdendo uma grande oportunidade futura que seria desenvolver sistemas híbridos a etanol, de baixo custo, proprios para o Brasil, e também pegar o bonde da eletrificação. Essa mudança na matriz da mobilidade é uma oportunidade de encostarmos no progresso tecnológico. Felizmente temos algumas empresas que são verdadeiras guerreiras no desenvolvimento desta tecnologia, mas infelizmente não temos um governo que priorize a sustentabilidade e auto-suficiência tecnológica...alias, não temos e nunca tivemos

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