ANÁLISE

RH E VIDA CORPORATIVA

Tio Toninho, meu primeiro líder


AR 1150, nunca me esquecerei da placa desse carro. Um fuscão branco, 1973. As iniciais do proprietário, Antônio Ramos, o tio Toninho, a quem dedico esse texto. O número era o da casa dele numa rua conhecida em Santana, bairro da zona norte de São Paulo, onde morava.

O ano era 1967. Minha família mudava-se de Porto Alegre para São Paulo em busca de melhores oportunidades profissionais para meus pais. Minha mãe, segundo seus relatos, comprava todas as semanas o exemplar de domingo do Estado de S.Paulo na Praça da Alfândega em Porto Alegre, buscando por uma oportunidade de trabalho. Encontrou uma vaga de secretária na Willys Overland do Brasil, na área de engenharia. Meu pai encontrou uma posição de vendedor de medicamentos na Johnson & Johnson.


AR 1150, nunca me esquecerei da placa desse carro. Um fuscão branco, 1973. As iniciais do proprietário, Antônio Ramos, o tio Toninho, a quem dedico esse texto. O número era o da casa dele numa rua conhecida em Santana, bairro da zona norte de São Paulo, onde morava.

O ano era 1967. Minha família mudava-se de Porto Alegre para São Paulo em busca de melhores oportunidades profissionais para meus pais. Minha mãe, segundo seus relatos, comprava todas as semanas o exemplar de domingo do Estado de S.Paulo na Praça da Alfândega em Porto Alegre, buscando por uma oportunidade de trabalho. Encontrou uma vaga de secretária na Willys Overland do Brasil, na área de engenharia. Meu pai encontrou uma posição de vendedor de medicamentos na Johnson & Johnson.

Final de 1967, viemos todos! Pai, mãe, eu, com seis anos, minha irmã, com 1 aninho e minha avó. Fomos para casa dos meus padrinhos que já viviam em São Paulo há algum tempo. Meu tio era militar da aeronáutica e acabava de ser transferido de Curitiba para São Paulo onde trabalhou por um ano até ser transferido para São José dos Campos, onde formou-se engenheiro pelo ITA (o primeiro da família!). A vida era dura.

Meus pais, na raça e na coragem, gastaram suas últimas economias na viagem e estavam batalhando para adaptarem-se aos novos empregos. Eu e minha irmã ficávamos durante o dia com minha avó que, com seu talento de relações públicas, fazia amizades com vizinhos, buscava informar-se sobre as escolas da região e pesquisava as redondezas para encontrar uma casa para morarmos. Foi assim que ela conheceu Antônio Ramos, o tio Toninho. Na época com seus 55 anos, esse português de Trás-dos-Montes, vivia dos aluguéis de suas propriedades. Apesar de não nos conhecer, confiou na minha avó e nos alugou uma de suas casas sem fiador. Mal sabia ele que seu ato de fé na minha família mudaria a nossa história.

Com o passar do tempo, o conhecemos melhor. Casado com a dona Rosa, uma filha de imigrantes italianos, tio Toninho veio para o Brasil na década de 30 para tentar a sorte. Chegou e foi trabalhar na Light, assentando paralelepípedos e trilhos de bonde. Depois foi cobrador dos mesmos, época em que conheceu a tia Rosa e se casou. Como presente ganhou um terreno que dava frente para duas ruas em Santana e logo tratou de fazer suas casas. Talvez pela dificuldade que passou ao chegar ao Brasil, tenha simpatizado com o que minha avó lhe contou sobre nós. Tio Toninho e tia Rosa resolveram nos “apadrinhar”. Não no sentido financeiro, mas com suporte paralelo na educação e carinho. Nos dias em que a comida era escassa, nos convidava para almoçar em sua casa. Consigo me lembrar do perfume do molho de macarrão que a tia Rosa preparava! E quase sempre nos servia guaraná e soda-limonada. Um luxo! Mais que isso, tio Toninho fazia questão de me mostrar como as coisas funcionavam. Tive sorte e acompanhei a construção de uma de suas casas, desde o início. Ia ao colégio pela manhã e depois de fazer a lição ele me mostrava o progresso do dia. Como se fosse hoje, lembro-me quando fomos ao telhado e ele me explicou como funcionava a caixa d’água!

Quando completei 12 anos ele me deu um presente. Fomos a uma loja de auto-peças e ele comprou quatro rolamentos novos. Perguntei para o que serviam e ele me explicou que faríamos um carrinho de rolimã. Juntos construímos a prancha, os eixos e ele me ensinou a ajustar as madeiras no torno que tinha na oficina no fundo do quintal, onde ficavam as hortaliças, temperos e uma jabuticabeira enorme! Pintamos o carrinho de vermelho e depois disso o padre da igreja não teve mais sossego em suas missas, pois o ruído dos rolimãs no cimento da ladeira era ensurdecedor.

Tio Toninho, apesar de ter carro, sempre se cuidou fisicamente e preferia fazer tudo a pé. Ia da casa em Santana até o mercado da Cantareira buscar seu bacalhau (uma caminhadinha de uns 12 quilômetros). Também ia ao banco na Voluntários da Pátria e aproveitava para conversar com todos os amigos. Um “expert” em network!

Comprava todos os dias dois jornais O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo e foi a primeira pessoa que conheci que lia os editoriais. Explicava-me que gostava de ouvir e avaliar a opinião da direita e da esquerda. Falava sobre política, esportes, e sempre dava um jeitinho para sobre Portugal e de como tudo era melhor e mais bonito. Recitava os poemas de Camões e passagens bíblicas que sabia de cabeça. Hoje compreendo que me falava sobre o Portugal de seus sonhos, mas na época ficava meio passado, achando que ele estava se gabando.

Passaram-se os anos e eu me formei engenheiro eletricista. Trabalhei na Ford por 20 anos dos quais, 10 no exterior. Numa de minhas visitas ao Brasil, levei minhas filhas para conhecerem o tio Toninho e lhe levei meu notebook para que ele pudesse experimentar ao vivo a Internet, ver notícias em tempo real de sua querida terra. Lembro-me de seu espanto e alegria.

Depois falei às minhas filhas sobre a influência que ele teve em minha carreira e me lembrei do meu carrinho de rolimã. Comentei a elas que ele me presenteou e que me ensinou a construí-lo. Numa das maiores surpresas de minha vida ele me levou até sua oficina e tirou de dentro de um barril, meu carrinho vermelho de 30 anos que ele havia guardado. Minhas filhas puderam dar uma voltinha no meu primeiro veículo.

Tio Toninho faleceu alguns anos depois e felizmente pude revê-lo mais vezes para agradecer por tudo o que fez por mim e minha família. Com imensa gratidão e saudades penso nele toda vez que passo por onde ele morava em Santana. O vejo como se fosse hoje, com suas calças de pregas, sua camisa curta com camiseta por baixo, e o molho de chaves de suas casas penduradas no cinto, com um sorriso enorme, saudando a todos que conhecia. Deixou a casa onde morava para a empregada que cuidou dele e da esposa na velhice. O restante do patrimônio ficou para a Igreja Católica.

Antônio Ramos não teve filhos, mas muitas pessoas foram abençoadas pela liderança e compaixão dessa pessoa especial e inesquecível. Um grande líder que marcou minha vida para sempre.

Ivan Carlos Witt é sócio-presidente da Steer Recursos Humanos, empresa que fundou em 2002. Ocupava antes o cargo de diretor de compras para a América do Sul da Ford Motor Company, onde trabalhou por 20 anos. Atuou 10 anos no exterior (México, Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e Alemanha) em cargos de liderança nas áreas de recursos humanos, manufatura, logística e compras. Engenheiro eletricista, atua hoje como headhunter, conduz treinamentos corporativos e desenvolve o Programa Horizontes de aconselhamento profissional para líderes. iwitt@steer.com.br

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