ANÁLISE

RH E VIDA CORPORATIVA

Monareta Black Tiger


O ano era 1973, tinha 12 anos. Sonhava com minha primeira bicicleta.

Era algo distante para mim, vivíamos tempos financeiramente desafiadores na família. Mas minha mãe disse que seria possível. Se não tirasse nenhuma nota vermelha, no meu aniversário, a tão sonhada Monareta Black Tiger, preta, com pára-lamas prateados, seria minha.

Não conseguia deixar de pensar na bicicleta, via o anúncio nas revistas e imaginava o que seria tê-la. Nos passeios que fazíamos na Eletroradiobras, visitava a sessão de bicicletas e sentava-me numa para fantasiar como seria quando pudesse usá-la diariamente.


O ano era 1973, tinha 12 anos. Sonhava com minha primeira bicicleta.

Era algo distante para mim, vivíamos tempos financeiramente desafiadores na família. Mas minha mãe disse que seria possível. Se não tirasse nenhuma nota vermelha, no meu aniversário, a tão sonhada Monareta Black Tiger, preta, com pára-lamas prateados, seria minha.

Não conseguia deixar de pensar na bicicleta, via o anúncio nas revistas e imaginava o que seria tê-la. Nos passeios que fazíamos na Eletroradiobras, visitava a sessão de bicicletas e sentava-me numa para fantasiar como seria quando pudesse usá-la diariamente.

Até hoje lembro-me do cheiro dela, mistura de borracha dos pneus, plástico do banco onde se lia "Monark, a melhor bicicleta do mundo" e da graxa da corrente . Tirar uma nota vermelha era algo que nunca acontecera na minha vida. Claro que tirava umas fininhas, mas era um estudante dedicado, prestava atenção na aula, e era comportado. Tudo indicava que minha monareta chegaria em breve.

A época das provas iniciou-se, no meu querido CEDOM, Colégio Estadual Doutor Otávio Mendes, na rua Voluntários da Pátria, em Santana, um bairro gostoso na zona norte de São Paulo. A matéria era desenho. A professora era dona Maria Botelho, uma senhora mal humorada, de seus sessenta e poucos anos, cabelos tingidos de anil e sapatos de camurça com sola fina de borracha, sempre com lenço de seda no pescoço e brincos de pérolas amareladas.

Surpreendo-me de como me lembro tão bem dela e seu compasso de madeira, onde se acoplava um giz na ponta.

Mas aí o inusitado. Não é que ela resolveu inovar e testar nossas habilidades artísticas? Colocou um vaso e uma maça sobre um banco e nos pediu que desenhássemos a cena. Isso seria a prova. Tudo o que estudei, naquele instante, deixou de ser relevante. O resultado foi um desastre!

Entreguei a prova sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Em poucos dias o pesadelo se concretizou. Recebi de volta aquela folha surrada de tanto apagar e refazer, com um esboço de vaso sofrível e uma maça, que hoje ousaria dizer ser impressionista, com a nota em vermelho no canto da folha: 3,5.

Um ponto e meio me separou eternamente do meu sonho. Minha mãe, mulher de palavra, e talvez aliviada por não ter que se preocupar com o perigo que uma bicicleta na rua movimentada representava, manteve o que disse, e ganhei outro presente, que honestamente não me lembro.

Pode ser que Maria Botelho tenha sido um anjo-da-guarda, mas descobri naquele distante 1972, aos 11 anos, que a vida não é justa, que contratempos acontecem, e que não estamos sempre no controle da situação. Comprei minha primeira bicicleta aos 26 anos quando morava no México. Tenho ela até hoje: é uma Regina, de corrida, azul e branca, 15 marchas, mas que nunca possuiu, nem de longe, o encanto da minha Monareta Black Tiger, a melhor bicicleta que quase tive.

Ivan Carlos Witt é sócio-presidente da Steer Recursos Humanos, empresa que fundou em 2002. Ocupava antes o cargo de diretor de compras para a América do Sul da Ford Motor Company, onde trabalhou por 20 anos. Atuou 10 anos no exterior (México, Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e Alemanha) em cargos de liderança nas áreas de recursos humanos, manufatura, logística e compras. Engenheiro eletricista, atua hoje como headhunter, conduz treinamentos corporativos e desenvolve o Programa Horizontes de aconselhamento profissional para líderes. iwitt@steer.com.br


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