ANÁLISE

RH E VIDA CORPORATIVA

O dourado caminho do meio


Ele era jovem, com dois anos de sucesso no mercado. Brilhante, com formação de primeira, MBA, falava inglês e espanhol. Sempre a par dos últimos avanços tecnológicos, usava seu laptop e seu BlackBerry com maestria. Circulava nos melhores círculos e tinha um network poderoso. Vestia-se com esmero e caminhava altivo com certeza de um futuro profissional brilhante.

Como um dos grandes potenciais do grupo, seu líder o convidou para uma reunião com o fundador e presidente da empresa. Era um momento marcante para ele. Poderia finalmente conhecer a pessoa que iniciara esse negócio há 30 anos e que agora faturava centenas de milhões de reais.


Ele era jovem, com dois anos de sucesso no mercado. Brilhante, com formação de primeira, MBA, falava inglês e espanhol. Sempre a par dos últimos avanços tecnológicos, usava seu laptop e seu BlackBerry com maestria. Circulava nos melhores círculos e tinha um network poderoso. Vestia-se com esmero e caminhava altivo com certeza de um futuro profissional brilhante.

Como um dos grandes potenciais do grupo, seu líder o convidou para uma reunião com o fundador e presidente da empresa. Era um momento marcante para ele. Poderia finalmente conhecer a pessoa que iniciara esse negócio há 30 anos e que agora faturava centenas de milhões de reais.

A reunião foi marcada para que pudessem discutir a nova unidade de negócios. Ele havia elaborado um projeto detalhado, havia tomado o cuidado de levantar todos os números relevantes, planejou cuidadosamente sua estratégia de apresentação e por fim, num movimento ousado, proporia uma organização mais eficiente e enxuta, calçada na utilização de um sistema de ponta, novidade no mercado.

Pontualmente e impecavelmente vestido, ele compareceu com seu líder a sala do presidente. Confiante, apertou a mão do homem que tanto esperara para conhecer. Surpreendeu-se com a postura um tanto distante e fria com que foi recebido, mas refletiu que assim são as pessoas importantes, que não tem tempo a perder.

Rapidamente abriu seu laptop, e quando ia começar sua apresentação, recebeu sua primeira pergunta. “O que você acha da nossa empresa”? Era a chance que ele esperava para marcar seu território, dizer a que veio. Respondeu que a empresa era um dos melhores lugares para uma pessoa como ele. Acreditava que poderia acrescentar muito com sua visão inédita e agressiva. Que com o uso do novo sistema e de uma organização diferenciada, mas enxuta, traria resultados expressivos em pouco tempo.

A segunda pergunta foi curta e seca: “Qual o problema do sistema e da organização atual”? Sem hesitar, respondeu que o sistema estava ultrapassado e que o desenho da organização atual era inapropriado, com uma tendência centralizadora.

A terceira pergunta foi: “E porque você gostaria de mudar isso”? Respondeu que com o novo sistema e novo desenho organizacional, traria resultados surpreendentes em pouco tempo. Que considerava o presidente um grande empreendedor, mas com o auxílio de sua nova proposta de gestão, iria revolucionar a empresa.

O presidente levantou-se, disse que tinha outro compromisso. A reunião foi encerrada sem que ele tivesse tempo para iniciar sua apresentação em Powerpoint . Seu líder compareceu a sala do presidente na parte da tarde. Ele foi chamado ao RH no final do dia e demitido.

Nessa pequena estória de ficção (muito freqüente na vida corporativa), encontramos dois personagens. O jovem executivo, que com todos os predicados foi pego de surpresa quando tinha, segundo sua visão, tudo em suas mãos. E o presidente, que após anos de trabalho duro já havia visto tudo e que não permitiria que um jovem metido lhe dissesse como administrar sua empresa.

O jovem executivo, cego por seus predicados, só preocupou-se em traçar o plano perfeito. Deveria ter ouvido mais, e antes de iniciar o desenho da nova organização, percebido que, apesar de sua ausência nos 28 anos que a empresa existiu sem suas ideias, saíram do nada e chegaram onde chegaram, e que este tempo deixou marcas na organização.

Esse aprendizado, ou a vivência dos que viveram esses tempos, poderiam acrescentar muito a sua estratégia.

O presidente, numa postura de Deus, e sentindo-se desafiado e porque não, criticado pelo desenho que havia aprovado e usado até então na empresa, deixou de ouvir uma estratégia diferente, que poderia ser até melhor que a atual para posicionar todo o seu grupo para um futuro ainda mais profícuo.

Combinação interessante essa. Jovem brilhante e sem experiência e líder experiente com complexo de Deus. Aos dois faltam as mesmas coisas. Humildade, habilidade para ouvir e postura de aprendiz. O jovem abdica da experiência, ignora fatos relevantes e se arrisca desnecessariamente, criticando modelos que possuem méritos, ou no mínimo, serviram a seu propósito até então. O presidente ao achar que se trata do “de novo”, pode estar abdicando ao novo.

Na vida corporativa, o ideal é trilhar o dourado caminho do meio. Com humildade, admitindo que não sabemos tudo, com habilidade para ouvir posições alheias que ampliarão nossa consciência e com postura de aprendiz para nos desenvolver continuamente em todas dimensões da vida.

Cabe aos dois personagens uma citação de Eric Hoffer:

“Em tempo de mudanças, os aprendizes herdarão a terra, enquanto os sabe-tudo estarão perfeitamente equipados para se desenvolverem num mundo que já terá deixado de existir”


Ivan Carlos Witt é sócio-presidente da Steer Recursos Humanos, empresa que fundou em 2002. Ocupava antes o cargo de diretor de compras para a América do Sul da Ford Motor Company, onde trabalhou por 20 anos. Engenheiro eletricista, atua hoje como headhunter, conduz treinamentos corporativos e desenvolve o Programa Horizontes de aconselhamento profissional para líderes.

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iwitt@steer.com.br

27 de maio de 2010

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