ANÁLISE

Mercado

A indústria automotiva em 2013 – a incerteza continua


Um outro ano começou para a indústria automotiva brasileira e é mais uma vez tempo de pensar “o que o ano de 2013 nos trará?”. Pode parecer uma tarefa fácil, mas infelizmente não é. E por quê? Bom, deixe-me tentar explicar.


No papel, o ano de 2012 parece ter sido fabuloso para a indústria automotiva brasileira. Com uma incrível contagem final (os números exatos ainda não haviam sido divulgados no momento em que este artigo é escrito), as vendas de veículos particulares e comerciais leves devem chegar à marca de 3,7 milhões de unidades, que representa um crescimento de 4,5% em relação a 2011. Parece fantástico, não é mesmo? Bem, em princípio sim, mas uma análise recente da Roland Berger estima que cerca de 75% deste crescimento foi estimulado pela redução recente do IPI e é, portanto, um efeito único, que não pode se repetir em 2013.

No que diz respeito à produção de veículos, a perspectiva é menos positiva. A produção de automóveis em 2012 mal chega as 3,3 milhões de unidades, uma redução de 2%, o que quer dizer quase 100 mil unidades a menos que em 2011. São muitas as razões por trás desta estagnação, mas dois fatores são as causas mais aparentes: primeiro, um excedente na produção em 2011 culminou em um estoque significante de veículos, e que acabou por ser resolvido somente durante os três primeiros meses da redução do IPI (a saber, entre Junho e Agosto). Em segundo lugar, a falta de competitividade da indústria automotiva brasileira, combinada às importantes restrições de importação e à piora da situação econômica nos mercados-alvo, derrubou o volume das exportações do Brasil, em aproximadamente 20%, de 500 para cerca de 400 mil unidades.

Então, como este cenário de luz e sombra afeta o ano de 2013? Estou seguro que a incerteza e ambivalência do mercado automotivo brasileiro continuarão a crescer. As previsões para 2013 estão variando significativamente, dependendo a quem se pergunta. A ANFAVEA, como a maior autoridade da indústria, está projetando um crescimento contínuo e muito positivo da ordem de 4,5%. Este número parece especialmente otimista, dado o avanço nas vendas causado pela redução do IPI em 2012. Já os fabricantes líderes brasileiros são mais conservadores, esperando um ligeiro crescimento nas vendas de apenas 2%. Já os analistas mais experientes chegam a estimar uma queda superior a 4%. Minha opinião pessoal: muito provavelmente a indústria estagnará em 2013, com um primeiro semestre fraco e segundo semestre mais forte.

Para o consumidor, isso não é de todo mau. Imagine um mercado estagnado, com um crescente número de participantes – com metas de vendas ambiciosas – tudo leva a crer no aumento dos descontos e nas iniciativas de marketing para conquistar o consumidor. Combine isto ao grande número de lançamentos recentes e ao forte pipeline de 2013, apoiado pela pressão dos fabricantes para garantir crescimento. Baseado nas metas de venda e de crescimento de mercado já anunciadas, os fabricantes estão planejando crescer, combinados, 32% nos próximos dois anos. Junte a isto a apatia do mercado e o fogo está aceso.

Mas, competição interna de lado, os preços dos carros em 2013 irão, com toda a probabilidade, permanecer bem atrativos ao consumidor. Motivo um, a redução do IPI acabou de ser estendida até Junho de 2013, com encerramento gradual, implicando impostos mais baixos para os veículos. Motivo dois, à medida que mais marcas estão sendo habilitadas dentro do Inovar-Auto, elas podem utilizar os benefícios fiscais no preço dos carros. Isto é verdade, em especial, para as marcas de luxo e Premium, uma vez que muitos fabricantes estão utilizando suas novas cotas para promover os preços de veículos de alto padrão. Mas isto também é verdade para os novos entrantes, especialmente os chineses, já que estes poderão oferecer seus modelos com o IPI mais baixo do que nos anos anteriores, ao mesmo tempo em que desenvolvem suas linhas de montagem.

Em terceiro lugar, falando ainda sobre linhas de montagem, 2013 e os anos que virão provavelmente trarão diversas montadoras ao Brasil. De um lado temos as muitas marcas chinesas que estiveram estudando, durante anos, a instalação de uma planta no Brasil e que, finalmente, têm a certeza e segurança do Novo Regime Automotivo para fazê-lo. Do outro, vemos muitas tentativas de marcas já estabelecidas de instalar uma unidade de produção/montagem no Brasil, focadas em modelos de alto padrão e de nicho, e isto inclui ambos: marcas Premium e as tradicionais de volume.

Ou seja, o ano de 2013 pode não ser muito bom para a indústria automotiva, com a estagnação do mercado e a concorrência crescente. Mas para o consumidor será um novo e bom ano para comprar um carro. Os preços permanecerão atrativos – embora ainda mais altos que em muitos outros países –, mas as opções continuarão a crescer e se tornar cada vez mais próximas dos padrões globais.

Stephan Keese é sócio responsável para o segmento automotivo da Roland Berger Strategy Consultants

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