ANÁLISE

RH E VIDA CORPORATIVA

É preciso valorizar o diálogo e a transparência


Pressões sobre a indústria podem sufocar crescimento


Outro dia um cliente estava reclamando que não conseguia atrair mão de obra especializada para seu negócio, pagando R$ 24 por hora. Claro que para ele, esse custo seria bem maior, graças à carga tributária brasileira. O problema é a percepção do trabalhador. Hoje em dia uma manicure cobra 20 reais por 30 minutos de trabalho. Uma outra cliente estava indignada porque no seu condomínio de escritórios, ao solicitar uma linha telefônica e internet, soube que a ligação do seu escritório ao ponto no quadro geral do empreendimento teria que ser feita pela empresa de manutenção do condomínio, ninguém mais estava autorizado. Valor do serviço, R$ 480 para passarem um fio telefônico.

Meia hora de estacionamento na Berrini? R$ 15. No Anhembi para ir ver uma exposição? R$ 35. Uma caipirinha num bar da moda? R$ 24. Pois é, por isso que quando alguém fica sabendo de um emprego de R$ 24 a hora, em que é necessário ser especializado, faltam candidatos. Essas distorções estão chegando a um nível inquietante.

Na indústria automobilística, para fazer frente aos contínuos aumentos de preço, os sindicatos lutam por reajustes acima da inflação. A pergunta é como explicar às matrizes, o porquê de os custos seguirem subindo nessa proporção? A idade do nosso parque tecnológico e o constante aumento do custo da mão de obra num país que taxa absolutamente tudo em níveis insuportáveis fazem com que corramos o risco de ficar fora do jogo. O mercado interno está dando sinais de saturação. Por causa da inflação, o crédito está ficando mais caro, logo, as vendas cairão. Fala-se no cadastro positivo, mas num país onde os bancos lucram bilhões quebrando recordes ano após ano, quem se interessa em implementá-los? Cartões de crédito são verdadeiros achaques.

Tudo é caro, continua subindo e os trabalhadores querem que seus salários também acompanhem. Infelizmente isso não se sustenta. Logo as montadoras concluirão que é preciso trocar a mão de obra por robôs, sistemas automatizados. Melhora-se a produtividade com equipamentos modernos e elimina-se postos de trabalho. Não há volta. As demissões irão ocorrer. Fábricas obsoletas não são competitivas. Num mercado que exige lançamentos simultâneos com os do exterior, como investir em desenvolvimento, com uma pressão tão grande nos custos? Não há solução simples. O Brasil necessita engatar uma segunda, e tornar-se um país competitivo.

Precisamos cobrar uma postura transparente do governo. Não há como crescer sem reformas, sem enxugar a máquina pública. Taxar o trabalho nas proporções de hoje sufocam o progresso. Também será preciso dialogar com os colaboradores e contar a história sem rodeios. Para competir será preciso operar fábricas modernas e cortes serão realidade. Nós consumidores temos de entender que ao cedermos à pressão de aumento dos serviços, estamos trabalhando contra as nossas vagas. Está na hora de assumirmos também a responsabilidade e dizer não aos abusos. O governo, que já cobra imposto de tudo, agora sobretaxa também as compras com cartão no exterior e obriga quem viaja a pagar caro aqui. A galinha dos ovos de ouro está com o saco cheio.

Comentários: 2
 

Leandro Soares
10/04/2014 | 14h06
Muito boa sua colocação sobre este assunto. Vivencio isso no meu trabalho. Percebi que quase nunca somos competitivos em nível global, sempre estamos com os maiores preços. Como você mesmo disse, linhas automatizadas são mais produtivas e consequentemente um custo menor no produto. Sabemos que isso não muda de uma hora para outra, mas temos que correr contra o tempo. O nosso país tem muitas mentes brilhantes e capazes de reverter esta situação. Agora temos que "executar". Parabéns pelo artigo.

Irene Garcia
22/04/2014 | 14h05
Adorei!

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