Quando penso no futuro do transporte de cargas e passageiros
no Brasil e no mundo, a imagem que me vem à cabeça é de veículos
conduzidos com o mínimo de interferência humana, controlados
por diversos sistemas, como os de navegação por satélite
e segurança ativa que, aos poucos, a indústria da mobilidade
começa a definir os modelos mais apropriados para o mercado. Nesse
meu modo de pensar, a interação entre homem e máquina
aumentaria, mas de uma forma diferente do que existe hoje; ao invés
de o motorista se preocupar com o trânsito, cuidaria da máquina
e de seu bom funcionamento.
As tecnologias estão em desenvolvimento nas indústrias
e centros de pesquisas espalhados pelo mundo, sendo que algumas delas
já podem ser apreciadas como protótipos em alguns eventos
internacionais, como é o caso do Congresso e Exposição
Internacionais de Tecnologia da Mobilidade SAE BRASIL, que acontece em
novembro, em São Paulo. Entre elas, as tecnologias relacionadas à telemetria
terão amplo espaço nos fóruns programados, que abordarão
o suporte à operação e à manutenção,
assim como a gestão remota de frotas.
Imagino como será, então, o manual do proprietário
para o motorista do futuro. Provavelmente não vai ser mais impresso
em papel, tipo livro. No máximo, um guia rápido, de bolso,
com um resumo das principais funções existentes no console
computadorizado, que permitirá, entre outras ações,
atualizações de softwares ‘on line’ e em tempo
real. Mas isso ainda está longe demais da realidade atual. Mesmo
porque um dos maiores desafios para a implantação das novidades
tecnológicas não é de ordem técnica, mas
cultural.
Um dos objetivos da SAE BRASIL ao promover debates como
os painéis
sobre caminhões e ônibus do Congresso é, justamente,
conscientizar o transportador da importância e vantagens em investir
em novas tecnologias, como os sistemas de telemática e os motores
eletrônicos, que ganharão cada vez mais mercado nos próximos
anos, justificados por questões de segurança e logística
(telemática) e ambientais (motores).
A aplicação da telemática pode ir desde operações
simples, como a localização do veículo, já em
uso atualmente, até futuramente a navegação na Internet
e lazer (música e filmes). No Brasil, a principal aplicação
está voltada para segurança, contra roubos de carga. A
logística é o principal propulsor da telemática
em países da Europa e Estados Unidos e já está chegando
com força no Brasil. Há, no entanto, uma infinidade de
aplicações para telemática como comunicação
motorista-base, telemetria, mudança de parâmetros do motor
de acordo com a rota utilizada (mudança de potência para
otimização de consumo), solicitação de serviço
de assistência na rodovia (breakdown), envio e recebimento de e-mails,
navegação na Internet, filmes, música, informações
em tempo real das condições das estradas e roteirização.
A infra-estrutura de telecomunicações para o tráfego
das informações será fundamental, pois tudo passará via
satélite ou telefonia celular, sendo que alguns sistemas mais
modernos já começam a ser desenvolvidos com tecnologia
híbrida (duas ou mais tecnologias - celular, satélite,
rádio, hot-spot, wi-lan).
Na Alemanha, por exemplo, os pedágios passarão a ser cobrados
através de telemática a partir deste ano. Os usuários
das rodovias terão um equipamento em seus veículos e serão
tarifados por quilômetro rodado em determinado tipo de estrada,
pagando apenas por aquilo que efetivamente utilizarem. No Brasil já temos
várias aplicações de telemática, principalmente
na área de segurança e, recentemente, logística.
Aperfeiçoamentos serão introduzidos ao longo dos próximos
anos.
Já na questão ambiental, duas tecnologias estão
em desenvolvimento: o SCR (Selective Catalytic Reduction), e o EGR (Exhaust
Gas Recirculation). O SCR baseia-se no pós-tratamento dos gases
em combinação com uréia para reduzir a emissão
de poluentes. Traz como ponto negativo a necessidade de um abastecimento
adicional do reservatório para uréia. É, no entanto,
um sistema adequado para motores Euro IV. No EGR, parte dos gases de
escape retorna ao sistema de admissão do motor, sofrendo uma segunda "queima".
Com isto, não necessita de reservatório de uréia,
uma vez que não a utiliza, mas tem como ponto negativo um aumento
no consumo de combustível. Com o aperfeiçoamento do sistema
acredita-se que será possível atingir os mesmos níveis
de consumo do sistema SCR. Este sistema será utilizado principalmente
para atingir os níveis de emissão definidos pelo EPA US-07,
a ser implementado principalmente nos Estados Unidos da América. É indicado
também para países emergentes que adotem Euro IV, devido à dificuldade
na logística de abastecimento da uréia (exemplo: América
do Sul).
Futuro – Para os próximos 10 anos podemos esperar um grande
avanço das tecnologias ‘by wire’, como o steer e o
brake-by-wire (esterçamento e frenagem por comando eletromecânico,
respectivamente). Ambos têm como principal vantagem a eliminação
de fluidos e permitem maior flexibilidade na configuração
do veículo. Algumas aplicações by-wire já fazem
parte dos veículos atuais, como o acelerador eletrônico,
que substitui o cabo por sensores e um pequeno motor elétrico.
Em prazos mais curtos, entre cinco a 10 anos, podemos
pensar em novos sistemas de segurança ativa, como o drowsiness alert (alerta para
sonolência ao volante), que consiste em uma câmera para registrar
os movimentos dos olhos do motorista, detectar sinais de fadiga e avisá-lo
sobre isto. Ao detectar cansaço ou distração, o
sistema emite um som e avisa no display que uma pausa deverá ser
realizada. Outros dispositivos são o apoio para mudança
de faixa e o ESP - Electronic Stability Program (programa eletrônico
de estabilidade). O primeiro é uma câmera que monitora se
o motorista sai da faixa de rodagem por meio de detecção
da faixa branca na lateral da rodovia. Obviamente, uma rodovia em ótimas
condições é requerida, uma vez que a pintura da
faixa lateral deverá estar bem visível. Já o ESP
utiliza sensores que detectam eventuais instabilidades do veículo,
prestes a derrapar ou capotar, e corrige a estabilidade atuando nos freios
de maneira independente em cada roda.
É importante ressaltar que muitas dessas tecnologias estão
em desenvolvimento, ou já foram desenvolvidas e aguardam o momento
certo para ganharem o mercado. Até lá, muitas delas passarão
por alterações, melhorias e adaptações para
atender as mais diferentes exigências dos consumidores.
*Mauro Gil é diretor do Comitê de Caminhões e Ônibus
do XV Congresso e Exposição Internacionais de Tecnologia
da Mobilidade SAE BRASIL
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