
BIOENERGIA:
DO BRASIL PARA O MUNDO
Nilton Nunes Toledo*
Além
de ser o pioneiro na produção da bioenergia para uso em
transporte automotivo, até recentemente, o Brasil era o único
país a possuir um programa para a substituição dos
combustíveis fósseis - o Pro-álcool.
A produção
de biodiesel, uma realidade na Europa e nos Estados Unidos, deve constituir,
no Brasil, uma meta mais ambiciosa, tanto em termos de defesa do meio
ambiente, quanto da geração de empregos no campo, portanto,
de cunho social.
Produzimos,
com eficiência, plantas oleaginosas cujos frutos, reagindo com o
álcool, dão origem ao tipo de combustível próprio
para os motores de auto-combustão. Já dominamos plenamente
a tecnologia para a transformação dos óleos vegetais
em rica fonte de energia, matéria-prima para o biodiesel.
Dentre as
oleaginosas disponíveis, a soja é a campeã, em termos
de custo e de volume de produção, por permitir uma forma
de agricultura mecanizável, podendo assim ocupar grandes áreas
e abrindo campo para altos investimentos.
Os benefícios,
que o Brasil vem obtendo com isso, têm sido muitos em termos de
fortalecimento da agricultura e da agroindústria, com a geração
de empregos e desenvolvimento tecnológico.
Observa-se,
hoje, o empenho do governo federal para o incentivo ao uso do óleo
de mamona. Esse empenho se justifica pelo fato da mamona crescer espontaneamente,
nas áreas rurais de todo o País. Assim, se os preços
forem compensadores, os agricultores terão condições
de colher, secar, peneirar e ensacar manualmente os grãos, sem
a necessidade de grandes investimentos. Suas características químicas
e físicas permitem aplicações como lubrificante de
alto desempenho ou como impermeabilizante (neste caso, após hidrogenação),
mais nobres que biodiesel. Tudo isso justifica o incentivo e até
o subsídio à produção, principalmente, pelos
benefícios sociais.
Outras fontes
de óleo com características semelhantes, sob o ponto de
vista químico, são as palmáceas, como o coco, o babaçu,
o dendê. Entre as palmáceas, o babaçu apresenta maior
potencial, pois, além do óleo, tem como subprodutos o amido,
as fibras e um carvão vegetal de alta qualidade.
Planta nativa
brasileira, o babaçu tem sido criminosamente erradicado, para dar
lugar a pastagens. Assim, há necessidade urgente de um programa
que incentive o melhor aproveitamento desta fonte de bioenergia. Atualmente
existem estudos que mostram as melhores formas de cultivo e de processamento
do babaçu, substituindo os processos atuais, que além de
artesanais, exploram o trabalho escravo e o infantil.
O dendê
é a oleaginosa de maior produtividade entre as palmeiras, por se
desenvolver bem em regiões úmidas. O problema que se tem
com essa cultura é a agressão sofrida por pragas, o que
exige o uso de agrotóxicos. Faz-se necessário, assim, um
programa de pesquisas no sentido de debelar este problema, o que permitirá
que o dendê passe a ser uma rica fonte de óleo para uso industrial.
Importante
fonte de energia, ainda pouco explorada no Brasil, é o carvão
vegetal. A matéria substitui, com grande vantagem, o carvão
mineral, na produção de aço com melhor qualidade.
Alem disso, o carvão vegetal exige a plantação de
vastas áreas de florestas de eucaliptos, o que traz vantagens para
o meio ambiente. É pouco divulgado o fato que uma floresta madura
absorve pequena quantidade de CO2, enquanto uma floresta em crescimento
o absorve em altos volumes, gerando quantidade aproximadamente igual de
oxigênio. Assim, as jovens florestas que estão substituindo
pastagens ou terrenos não aráveis contribuem para a redução
do efeito estufa.
Outra vantagem
do eucalipto é que ele deposita, anualmente, cerca de 25 cm de
matéria orgânica no solo, melhorando sua fertilidade. Com
as condições favoráveis de extensão territorial
e de clima, além dos conhecimentos já desenvolvidos, o Brasil
tem condições de liderar o mundo na produção
de carvão vegetal, deixando de depender da importação
de carvão mineral.
Note-se que a economia
de divisas é apenas uma das vantagens, quando se pensa na geração
de oportunidades para melhor aproveitamento da nossa condição
climática e territorial: combinando a produção de
biomassa e mineral, poderemos exportar metais puros e suas ligas, no lugar
dos minerais, o que representa exportar, indiretamente, a produção
agrícola.
* Nilton
Nunes Toledo engenheiro de Produção, mestre em Engenharia
Mecânica, professor doutor do Departamento de Engenharia de Produção
da POLI-USP e em Administração da Produção
da FEA-USP, é especialista em bioenergia.
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