DO CHÃO DE FÁBRICA PARA O TOPO DA EMPRESA
*Marcelo Braga

Houve um tempo em que o gerente de fábrica tinha como função colocar a fábrica para rodar. Para isto, o estereótipo de chefe durão funcionava bem e era uma realidade. Este profissional tinha um perfil tecnicista. A fábrica era, muitas vezes, algo distante do mundo corporativo, mesmo sendo o coração da empresa. Hoje, uma série de fatores estimula uma mudança expressiva na indústria como um todo e, principalmente, na função do gerente ou diretor de uma fábrica. São aspectos macroeconômicos, como a globalização aumentando a competitividade entre as indústrias e impulsionando padrões de qualidade e de produtividade em todo o mundo; o consumidor cada vez mais exigente que percebeu há tempos a exercer seus direitos; o arrocho dos juros; os ambientalistas; evolução tecnológica. Diante deste cenário, o antigo chefe do chão de fábrica precisou se sofisticar para encarar novos desafios.

Hoje, a fábrica absorveu os valores corporativos da matriz administrativa. O chefe de fábrica – que normalmente é um engenheiro, mas pode ter vindo de outras carreiras – passou a ser um líder importante no organograma da empresa. Além de tecnocrata, ele precisa ter conhecimentos gerenciais, como gestão de pessoas, capacidade de comunicação, conceitos financeiros, enfim, ser um executivo com uma visão global do negócio e não um foco apenas na fábrica. São estes profissionais que as empresas multinacionais e, mais recentemente, as nacionais estão de olho e dão valor, independentemente do setor industrial. As indústrias – automobilística, química & petroquímica, papel & celulose, bens de consumo, tecnologia, farmacêutica, eletroeletrônica, entre outras – buscam executivos que trazem resultados financeiros e sociais, aumentando o reconhecimento da marca e minimizando qualquer tipo de ameaça. Afinal, é na fábrica que a empresa pulsa e qualquer descompasso é um risco.

Além de liderar equipes de 100 a 1000 ou 2000 pessoas, ele precisa ter a interface com toda a empresa A carreira deste profissional pode seguir um rumo vertical ou mesmo horizontal, uma vez que ele pode ser designado a assumir novas fábricas em diferentes estados ou países, ou também outros desafios em áreas comerciais, logística, compras, entre outras. Não é à toa também que, em muitas empresas, este executivo recebe bônus superior ao de outras áreas, atrelado resultados específicos de produtividade, aspectos ambientais, comunicação interna etc.

O executivo do chão de fábrica deve ter um perfil diferenciado. Além de ser muito bem formado e dominar pelo menos mais um idioma, ele precisa ter uma atitude de líder, caráter empreendedor, facilidade em ter um bom relacionamento interpessoal e em se adaptar com pessoas de culturas distintas. Somado a estes aspectos pessoais e educacionais, está o aspecto técnico evidentemente. O profissional deve ter um conhecimento profundo sobre o processo industrial e buscar práticas de produção enxuta (lean manufacturing), logística e operação, que atendam a necessidade do cliente final – seja ele um cliente intermediário (uma empresa, no business to business), seja em consumidor final. Não podemos esquecer também que possuir um MBA ou um curso de especialização em gestão empresarial e/ou ligado à preservação do meio ambiente e, para cargos mais altos na indústria global, uma experiência internacional, são também aspectos de suma importância. O executivo do chão de fábrica está cada vez mais valorizado e próximo do topo da empresa.

*Marcelo Braga é Vice-Presidente & sócio da FESA Global Recruiters, empresa de recrutamento de executivos e associada à IIC Partners

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