Fernando Calmon



Fazer bom e barato, de novo desafia a engenharia brasileira

Fernando Calmon, Coluna Alta Roda, 21 de junho

A indústria automobilística brasileira completará meio século em novembro do próximo ano. O caminho percorrido - longo e cheio de percalços - demonstra hoje um setor maduro, ainda com severas dificuldades no mercado interno, mas atuando muito firme nas exportações. Entre os vários aspectos em evolução, certamente se destaca a qualidade em todas as suas nuances, tangíveis e intangíveis. Quem acompanhou de perto a história da indústria sabe que o começo foi bem difícil, inclusive para superar a desconfiança dos compradores.

Na década 1960-70, o sistema de qualidade era rudimentar baseado apenas em inspeção nas linhas de montagem e simples verificação de especificações técnicas. A amostragem elementar e as respostas de campo chegando de forma lenta e imprecisa tornavam as correções demoradas. O controle da qualidade começou na década seguinte, com normas adequadas, avaliação dos fornecedores e adoção de novos métodos e ferramentas específicas. Entre 1980 e 1990 chegou-se à qualidade assegurada graças às normas escrita pelos grandes fabricantes, além da internacionalização da série ISO 9000, e o processo japonês de melhoria contínua (kaizen). Marcou também o início das pesquisas de satisfação do cliente.

O histórico acima foi levantado pelo Instituto da Qualidade Automotiva (IQA) para marcar seus 10 anos de fundação. Trata-se de um organismo sem fins lucrativos, organizado pela cadeia setorial: fábricas de veículos, de autopeças, distribuidores e oficinas de reparação. As certificações são feitas em convênios com institutos especializados do Brasil (Inmetro), Alemanha (TÜV-MS) e França (Utac). Para a entidade, já adentramos na era da gestão de qualidade com uso seletivo de ferramentas de estatísticas, auditorias de processo, planejamento avançado e normas complementares ambientais, de segurança e de responsabilidade social.

Agora também é possível encontrar selos do IQA em pneus, catalisadores, aditivos e acessórios como capacetes. Resta ao consumidor final atentar e até exigir essa certificação - que vai além da simples garantia formal - em itens de segurança: rodas, freios e faróis, entre outros.

No sentido amplo da qualidade, é interessante analisar projeto do carro de € 3 mil (preço de custo) que a Volkswagen do Brasil estuda a pedido da matriz alemã. O público poderia comprá-lo por cerca de € 4 mil (mais impostos) ou R$ 12 mil, 40% abaixo do mais barato modelo brasileiro (com impostos). Visa-se a um veículo muito simples para um País de parca motorização, a Índia, acostumado a prosaicos triciclos.

O grande desafio circunscreve-se em preservar a robustez construtiva e, ao mesmo tempo, evitar a sensação desagradável de um produto sem qualidade. Será impossível o uso de recursos caros no acabamento. Ainda assim, economizando em partes não-visíveis, pesquisando novos materiais e utilizando bastante criatividade a engenharia brasileira reúne condições de vencer mais esse desafio, sem depreciar o produto ou a qualidade percebida. E, quem sabe, vendê-lo também aqui numa versão mais equipada (Fernando Calmon, Alta Roda, 21 de junho).

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