A indústria automobilística brasileira
completará meio século em novembro do próximo
ano. O caminho percorrido - longo e cheio de percalços - demonstra
hoje um setor maduro, ainda com severas dificuldades no mercado interno,
mas atuando muito firme nas exportações. Entre os vários
aspectos em evolução, certamente se destaca a qualidade
em todas as suas nuances, tangíveis e intangíveis. Quem
acompanhou de perto a história da indústria sabe que
o começo foi bem difícil, inclusive para superar a desconfiança
dos compradores.
Na década 1960-70, o sistema de qualidade era
rudimentar baseado apenas em inspeção nas linhas de montagem
e simples verificação de especificações
técnicas. A amostragem elementar e as respostas de campo chegando
de forma lenta e imprecisa tornavam as correções demoradas.
O controle da qualidade começou na década seguinte, com
normas adequadas, avaliação dos fornecedores e adoção
de novos métodos e ferramentas específicas. Entre 1980
e 1990 chegou-se à qualidade assegurada graças às
normas escrita pelos grandes fabricantes, além da internacionalização
da série ISO 9000, e o processo japonês de melhoria contínua
(kaizen). Marcou também o início das pesquisas de satisfação
do cliente.
O histórico acima foi levantado pelo Instituto
da Qualidade Automotiva (IQA) para marcar seus 10 anos de fundação.
Trata-se de um organismo sem fins lucrativos, organizado pela cadeia
setorial: fábricas de veículos, de autopeças,
distribuidores e oficinas de reparação. As certificações
são feitas em convênios com institutos especializados
do Brasil (Inmetro), Alemanha (TÜV-MS) e França (Utac).
Para a entidade, já adentramos na era da gestão de qualidade
com uso seletivo de ferramentas de estatísticas, auditorias
de processo, planejamento avançado e normas complementares ambientais,
de segurança e de responsabilidade social.
Agora também é possível encontrar
selos do IQA em pneus, catalisadores, aditivos e acessórios
como capacetes. Resta ao consumidor final atentar e até exigir
essa certificação - que vai além da simples garantia
formal - em itens de segurança: rodas, freios e faróis,
entre outros.
No sentido amplo da qualidade, é interessante
analisar projeto do carro de € 3 mil (preço de custo) que
a Volkswagen do Brasil estuda a pedido da matriz alemã. O público
poderia comprá-lo por cerca de € 4 mil (mais impostos)
ou R$ 12 mil, 40% abaixo do mais barato modelo brasileiro (com impostos).
Visa-se a um veículo muito simples para um País de parca
motorização, a Índia, acostumado a prosaicos triciclos.
O grande desafio circunscreve-se em preservar a robustez
construtiva e, ao mesmo tempo, evitar a sensação desagradável
de um produto sem qualidade. Será impossível o uso de
recursos caros no acabamento. Ainda assim, economizando em partes não-visíveis,
pesquisando novos materiais e utilizando bastante criatividade a engenharia
brasileira reúne condições de vencer mais esse
desafio, sem depreciar o produto ou a qualidade percebida. E, quem
sabe, vendê-lo também aqui numa versão mais equipada
(Fernando Calmon, Alta Roda, 21 de junho).
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