QUAL O MELHOR COMBUSTÍVEL PARA O TRANSPORTE COLETIVO
URBANO NO BRASIL?
Por Luso Ventura, diretor do
Comitê de Comissões Técnicas
da SAE Brasil e da Netz Automotiva
A utilização do gás natural como combustível
para ônibus urbanos apresenta importantes pontos positivos quando
comparada a outros combustíveis alternativos. O gás vem
sendo impulsionado como novo vetor energético no Brasil em vista
do aumento das reservas nacionais, especialmente na bacia de Santos,
sem esquecer o contrato de fornecimento do gás boliviano, que
a Petrobras já fala em ampliar.
No entanto, a utilização de GNV em táxis não
representa, seguramente, a melhor alternativa. As desvantagens técnicas
e operacionais são inúmeras em termos de consumo, desempenho
e, principalmente, quanto às emissões gasosas. A causa
está nos kits de adaptação utilizados, que não
permitem o aproveitamento das características do gás combustível.
Sem contar o peso morto do sistema de armazenamento, não previsto
no projeto original, e a redução do volume do compartimento
de bagagem, que pode chegar a quase 50%.
O baixo preço do gás quando comparado com o dos combustíveis
líquidos é que tem justificado seu crescimento na frota
de táxis. O custo/km com GNV é cerca de 60% menor do que
com gasolina e 40%, se usando álcool.
Vivemos um momento oportuno para rever o uso do gás natural
nesta aplicação. Recentes modificações na
regulação das térmicas, promovidas pela Agencia
Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), obrigando a todas as usinas
provarem que terão gás suficiente para operar em plena
capacidade e a crise na Bolívia, que por pura casualidade não
trouxe uma interrupção no fornecimento de GNV e deixou
os taxistas extremamente inseguros quanto à continuidade de abastecimento,
são motivos suficientes para esta revisão.
Os motores a gás de última geração, como
os desenvolvidos para uso em ônibus, são extremamente eficientes
devido à tecnologia de combustão com mistura pobre e de
controles eletrônicos da combustão. Têm potencial
para atender imediatamente os limites de emissões gasosas previstos
para 2009, nas futuras etapas da legislação brasileira.
A competência tecnológica da engenharia nacional, aliada à capacidade
de produção de veículos e motores a gás natural
para aplicação em ônibus urbanos, além de
fornecedores de componentes bastante desenvolvidos, faz do Brasil um
importante fornecedor mundial de motores a gás para veículos
comerciais com tecnologia de ponta. Mas, não usamos esta tecnologia,
apesar de os motores fabricados aqui terem recebido prêmios de
reconhecimento internacional pelas baixas emissões gasosas.
Na DaimlerChrysler do Brasil, a competência adquirida por seus
engenheiros e técnicos foi de grande valia, tanto que se transformou
no centro de competência da organização para o desenvolvimento
e produção de motores a gás natural, exportando
para países da Europa e Austrália. Outros fabricantes estabelecidos
no Brasil têm motores a gás no portfolio e poderiam iniciar
rapidamente o fornecimento. É o caso da Cummins, fabricante de
motores que equipam caminhões e ônibus da Volkswagen, e
também a Iveco, que inicia a produção de chassis
para ônibus urbanos no Brasil e fornece veículos a gás
natural na Itália.
Certamente algumas adequações de comportamento ou culturais
serão necessárias com o uso do gás natural nos ônibus
urbanos. Quanto à segurança, o GNV exige cuidados pouco
diferentes daqueles quando se usa a gasolina e o diesel, ambos inflamáveis.
Os motores a GNV são do ciclo Otto, possuem velas de ignição
e sistema elétrico específico, comuns nos automóveis
a gasolina e álcool, porem incomuns nas oficinas de ônibus.
Por mais semelhantes que sejam em relação aos motores dos
automóveis, os motores a gás em ônibus exigem um
programa completo de treinamento de mecânicos para tirá-los
da cultura do diesel. Exige, igualmente, novas ferramentas de reparo
e diagnóstico de falhas.
O gás natural é armazenado sob alta pressão até 200
bar, o que exige dos operadores do veículo e das equipes das garagens
uma vigilância constante quanto a vazamento e um treinamento para
sua detecção e reparo. Um ônibus a gás tem
entre 6 e 10 reservatórios para serem abastecidos. Para completar
a pressão e o volume dos tanques o tempo de enchimento é maior
que o necessário para o diesel.
Os motoristas têm o costume de ouvir o motor e diagnosticar possíveis
falhas pelo ruído. Os motores Otto são mais silenciosos
que os de diesel, qualidade que por si só seria mais uma justificativa
para emprego do ônibus a gás nos grandes centros urbanos,
de inestimável valor para a melhoria da qualidade de vida da população.
Também quanto ao uso dos freios existe a cultura do uso do sistema
de freio-motor, presente nos motores diesel. Os motores Otto não
possuem esse controle de freio-motor e assim o comportamento ao dirigir
deve ser um pouco modificado, o que os motoristas costumam fazer de modo
instintivo. Terão, assim, de reaprender a usar o motor como freio
exclusivamente por meio da redução de marchas.
Mas voltando aos táxis, evidentemente, poderiam receber um motor
com a mesma tecnologia utilizada nos motores pesados a gás natural.
Não haveria perda de potência, o consumo seria menor e a
emissão de CO2, o gás causador do efeito estufa, estaria
reduzida. As desvantagens seriam o custo do motor, provavelmente ainda
maior que o de um motor diesel, e os custos e o tempo de desenvolvimento,
uma vez que tais motores não estão disponíveis.
Assim, a alternativa ideal para os táxis é o motor diesel. É mais
durável, tem melhor desempenho, consome menos e emite menos poluentes
graças às novas tecnologias de injeção e
de combustão. O Brasil produz automóveis a diesel para
exportação. Está aí um tema a ser desenvolvido.
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