A INDÚSTRIA AUTOMOTIVA ESTÁ VIRANDO
COMMODITIE
Marcelo Braga*
A indústria automotiva sempre foi reconhecida
por ser pioneira em inovação, seja esta ligada a produtos
de alta tecnologia, seja ligada à criação de novos
conceitos de fabricação, como lean manufacturing, aspectos
de comercialização como a implantação de global
sourcing, novos processos e conceitos de supply chain, entre muitos outros.
Para isto, sempre contou com profissionais altamente qualificados, tendo
raramente enfrentado dificuldades na atração de profissionais
recém-formados ou até mesmo em níveis executivos.
No entanto, automóveis estão cada vez mais
se tornando commodities, especialmente os veículos populares, que
tem um peso maior nos mercados emergentes. O reflexo disto tem sido visto
todos os dias nas páginas dos jornais pelas crises que gigantes
multinacionais têm enfrentado em todo o mundo, como é o caso
de grandes montadoras como General Motors, Ford, Volkswagen e ainda de
fabricantes de autopeças como Dana, Delphi, Collins & Aikman,
entre outras.
As conseqüências no mercado brasileiro têm
sido ainda mais trágicas. Como é sabido, na metade da década
de 90 o setor se preparava para produzir 2 milhões de veículos
no mercado brasileiro. Toda a cadeia fez altíssimos investimentos
para atingir este patamar, tanto em investimento em capacidade de produção,
como também na atração de novos profissionais e no
desenvolvimento da equipe da época. A indústria inteira
estava muito preparada para atingir este objetivo. Nunca havia tido tanta
modernização no parque industrial automotivo como na ocasião.
No entanto, crises mundiais e a desconfiança do mercado local fizeram
com que nossa produção não conseguisse atingir este
objetivo, gerando um caos em todo setor. Após a desvalorização
do Real, o cenário ficou ainda mais turbulento, porém novamente
o lado de pioneirismo da indústria ajudou a salvar o setor. Inúmeras
iniciativas de nacionalização de componentes tomaram conta
do mercado. Estas ações foram vistas em todas as montadoras
e tiveram reflexo positivo em toda a cadeia, conseguindo aumentar o conteúdo
local e dar uma sobrevida ao setor, que já apresentava sinais de
fraqueza.
Com a recuperação da confiança no
mercado local e o aumento do consumo interno, o cenário mostrava-se
cada vez melhor. Além disto, com o dólar nas alturas, o
Brasil passou a ser um grande player na exportação de veículos,
batendo recordes de produção e conseguindo ultrapassar com
folga a sonhada barreira dos 2 milhões de veículos. Parecia
que o sonho da consolidação do mercado local automotivo
seria atingido. Já tínhamos mais de uma dezena de montadoras
instaladas no Brasil - é fato que algumas haviam desistido no meio
de todas estas dificuldades, mas as que permaneceram demonstravam bons
resultados. Os new commers apresentam resultados extraordinários,
como é o caso da Renault, Toyota, Honda e Peugeot, além
da Ford que conseguiu uma recuperação extraordinária
no mercado.
Não bastasse ter atingido este sonho, o mercado
brasileiro passava a receber investimentos para se tornar uma plataforma
mundial de desenvolvimento de novos projetos, com reflexos positivos na
criação de muitos empregos. No entanto, outra crise chegou.
Com a queda do dólar, os contratos de exportação
não estão sendo renovados, ou, então, quando são
renovados não apresentam o retorno esperado, gerando prejuízo
para as empresas. Novamente queda no consumo interno. Projetos que eram
discutidos com os órgãos governamentais ainda no meio da
década de 90, como a renovação da frota, inspeção
veicular, redução de impostos, continuam em trâmite
no Congresso, sem grandes expectativas que um dia terão resolução.
Mas a grande pergunta é: como ficam os profissionais
deste setor com tantos “ups and downs”? Ao longo de toda esta
turbulência e adrenalina e com grande drive para redução
de custos, foram poucas as empresas que se arriscaram a implementar programas
agressivos de desenvolvimento de pessoas ou até mesmo a contratar
novos talentos nos diversos níveis de entrada das organizações.
A maior parte das empresas optou por tentar manter o quadro de profissionais
da forma que pode ou no máximo contratar recém-formados,
acreditando que o tão conhecido “on the job training”
seria suficiente para capacitá-los para um crescimento profissional
e até mesmo prepará-los para serem brilhantes executivos
no futuro. Obviamente sabiam que era muito difícil e que poucos
conseguiriam superar estas dificuldades. No entanto, era a única
possibilidade, diante de todas as dificuldades financeiras vividas.
Todas estas questões tiveram um impacto direto
na remuneração dos executivos deste setor, principalmente
nos bônus. Este fato fez com que outros setores passassem a buscar
executivos no mercado automotivo, enfraquecendo ainda mais o nível
destes profissionais. Antigamente, era praticamente impossível
imaginar executivos deixando a indústria automotiva para outros
setores industriais. Não somente pelo pacote de benefícios
e remuneração que era excelente, mas também pelo
glamour e motivação que a indústria gerava.
Atualmente existe uma clara motivação de
executivos deste setor em deixar a indústria. Muitos deles estão
preocupados com seu futuro profissional, terão ou não emprego
no curto e médio prazo? Eles buscam empresas que continuem investindo
em sua capacitação profissional, para que não possam
ficar desatualizados com o mercado.
Sem ter novos talentos entrando nas organizações,
sem buscar um desenvolvimento adequado para os profissionais existentes
e ainda perdendo seus melhores talentos para outros setores, por quanto
tempo mais esta indústria de tanto orgulho para o povo brasileiro
terá condições de continuar inovando e conquistando
novos mercados?