Nestes
15 anos de implantações e certificações
de sistemas muitas verdades foram lançadas e muitas caíram,
devendo-se agora buscar a redução da distância destas
novas verdades
Por Marcos Miklos, instrutor do IQA
Início dos anos 90. Terça-feira pela manhã. Ainda
não são 7 horas e já estamos na fábrica,
aguardando a equipe auditora, um pouco atordoados com as minguadas 3
horas de sono da última noite, somadas a um final de semana que
acumula mais de 30 horas de trabalho. A equipe auditora não nos é conhecida.
Ainda não existe o conceito de pré-auditoria. Será nosso
primeiro contato. Sabemos, entretanto, que um dos auditores é da
Inglaterra e não fala nada de português. Apostamos no efeito
do fuso horário para retirar o vigor do respeitável súdito
da rainha. Os outros dois são brasileiros.
Ainda bem, pois já conhecem nosso jeitinho de ser. As coisas
resolvidas na última hora, a dificuldade de cumprir promessas
e prazos e a inevitável necessidade de ser flexível, o
que eles teimam em chamar de “sistema informal”. Tudo é novo,
e mesmo tendo visitado duas empresas que já passaram por este
processo, nossa apreensão não se reduziu. Os quatro dias
de auditoria passaram rápidos... O problema está justamente
nas noites que os interligam. Tentando prever o que será visto
e fazendo ajustes de última hora, o sono é agora projeto
de médio-prazo.
Para já, somente duas coisas: resolver as não-conformidades
e evitar que sejam apontadas novas. Vem o veredicto final. O auditor
líder (o inglês) surpreende. Ele resolve fazer a reunião
de encerramento nos últimos degraus da escada que liga a área
administrativa ao chão-de-fábrica. Um dos auditores brasileiros
fará a tradução para todos os funcionários,
que a esta hora já estão parados, tão ansiosos quanto
nós. Tivemos sei lá quantas não-conformidades e
dentro de 90 dias eles voltarão (menos o inglês que volta
pra sua casa de campo, a 100 km de Londres) para avaliar a implementação
das ações corretivas. Mais uma surpresa... nem sim, nem
não. Não conseguimos a certificação já... é fato,
mas pelo menos o suplício acabou. E nem tudo está perdido.
São somente mais 90 dias de agonia. Haja coração!
O final da história? Não há nada de espetacular
a contar. Implementamos as ações, verificamos e repetimos
diversas vezes o exercício da auditoria para cada uma delas, os
auditores voltaram e após mais algumas horas de estresse, as não-conformidades
foram encerradas e a empresa recomendada. Ufa! Grandes emoções
ainda estavam reservadas, porém teríamos seis meses de
respiro, antes do próximo evento.
Esta história, embora verídica, não é uma
história tão exclusiva. Ela se assemelha a história
de um grande número de empresas, durante seus primeiros passos
rumo à certificação de seus sistemas. Mas nestes
15 anos, algo mudou. O processo já é conhecido e o suporte é amplo.
Não há mais o medo do novo a ser desbravado. Esta é uma
das facetas: a das empresas que ainda estão chegando e necessitam
passar pelos caminhos que muitos já trilharam; os caminhos da
organização, definição e sistematização
que proporciona o patamar mínimo para que as organizações
possam alçar vôos mais altos. É bem verdade que a
exagerada tendência de se documentar tudo o que se faz e o velho
jargão “escreva o que faz e faça o que escreve” estão
bem amenizados. Concordamos que alguns auditores ainda não compartilham
deste ponto de vista.
Há entretanto uma outra faceta que povoa a mente daqueles que
pensam em Qualidade nas empresas e já passaram pelas fases iniciais
de amadurecimento do Sistema. Os tão temidos processos da organização,
que devem ser definidos, documentados e gerenciados. Neste ponto começa
o desafio do futuro da Qualidade. Temos observado uma sensível
dificuldade de se romper com conceitos do passado, onde a norma passa
a ser mais relevante do que a voz do mercado, acionista, funcionários,
fornecedores e sociedade. Estas barreiras possuem várias moradas
e sintomas. Passamos agora a comentá-las, junto aos desafios por
elas estabelecidos:
• (BARREIRA) Continua presente o foco em procedimentos e registros,
tanto na construção do sistema quanto nas auditorias internas
e externas. Há um desconforto grande quando não há regras
escritas. É o que chamamos de DNA 94, onde o importante era o
elemento formal, independente dos resultados.
•
(DESAFIO) Temos que compreender aonde um elemento documentado é realmente
necessário e útil, trazendo preservação do
conhecimento e previsibilidade da operação, e aonde a flexibilidade
e nível de competência do pessoal envolvido apontam a ausência
de elementos mais formais, o que dará a leveza que a atividade
necessita para atingir seus desafios, com métodos que podem variar
intensamente conforme a situação. É o que chamamos
de DNA 2000.
• (BARREIRA) Existe uma sensível transferência de
responsabilidades da Direção que espera que o pessoal da
Qualidade defina quais são os processos que a norma quer, desvinculando
completamente esta definição de suas responsabilidades
estratégicas.
•
(DESAFIO) Ou os processos da organização são determinados
pela Direção ou não teremos o apoio e direcionamento
necessário e compartilhado para estabelecer um único foco
de trabalho. O desafio é romper com o conceito de que o Sistema
de Gestão da Qualidade e a Gestão do Negócio são
assuntos independentes entre si.
• (BARREIRA) Os processos desenhados não são processos
do negócio, mas aqueles que representam os departamentos da empresa
ou os elementos da norma de referência, sem ampla cobertura dos
elementos críticos para o sucesso da organização.
São colocadas à margem do sistema atividades como gestão
financeira, gestão de riscos, gestão do clima organizacional,
gestão legal, gestão do mercado (clientes, concorrentes,
perspectivas e movimentos). Estranhamente, processos que têm uma
amplitude muito mais limitada ou que se espalham por toda a organização
passam a ser artificialmente documentados, permitindo ampla cobertura
dos itens da norma. Não é incomum encontrar processos como
Qualidade (que na verdade permeia inúmeros outros processos) ou
retro-alimentação (que acaba sendo um apanhado de atividades,
que estariam melhor posicionadas, se devidamente inseridas em cada processo
de maior afinidade).
•
(DESAFIO) A Qualidade tem de romper o preconceito de área burocrática
ligada aos procedimentos, normas e auditorias, e buscar competências
e efetiva inserção no processo estratégico da organização,
onde objetivos do negócio, da qualidade e dos processos se fundem
em um único conjunto de diretrizes. Felizmente muitos já o
vêm fazendo, é claro que com grandes dificuldades, porém
com resultados compensadores.
• (BARREIRA) Os processos desenhados ficam abandonados após
sua implementação inicial. Transformam-se em mais um documento
a ser mantido e apresentado, porém não se insere na gestão
do processo e não há modificações ao longo
do tempo. Preserva-se o desenho com o qual se obteve a certificação.
•
(DESAFIO) Muitos donos de processo ainda não compreenderam as
possibilidades do sistema e o adotaram como ferramenta de gestão.
O desafio é transformar o modelo de processo adotado em uma empresa
de objetivos alinhados e dimensões reduzidas, que se une em torno
da missão e objetivos maiores da organização e os
donos assumem a postura empreendedora e gestora, em contraste com uma
visão operacional e distante.
• (BARREIRA) As auditorias ainda preservam o conceito de avaliação
de conformidade da operação, deixando de avaliar os resultados
e a capacidade de gestão de cada um dos processos. Ainda se utiliza
do texto normativo para justificar exigências que você jamais
aceitaria se fosse sua empresa.
•
(DESAFIO) O nível de capacitação dos auditores necessita
de significativa ampliação, pois a auditoria da gestão
exige um conhecimento muito mais amplo que o texto da norma. Ou o auditor
compreende o cenário técnológico, estratégico,
mercadológico e financeiro aonde a organização e
seus processos estão inseridos ou sua entrevista junto aos gestores
poderá tornar-se um monólogo aonde o auditor passa a ser
conduzido, assumindo o papel de mero expectador.
• (BARREIRA) Os sistemas integrados acabam se resumindo a condensação
de procedimentos que se tornam comuns à Qualidade, Meio Ambiente,
Saúde e Segurança, além da criação
de tabelas de correlação entre os vários requisitos
das normas para facilitar a navegação de auditores.
•
(DESAFIO) A criação de sistemas integrados significa estabelecer
orientação única a quem possa gerar os resultados,
incluindo todas as vertentes significativas. Assim, durante a geração
de um novo equipamento de produção, são considerados
requisitos de produtividade, prazos e custos - porém isto não
pode ocorrer de modo desequilibrado, e para isso neste mesmo momento
se integram os requisitos para a qualidade do produto gerado, impacto
ambiental deste novo equipamento, condições de saúde
e segurança das pessoas que irão operá-lo, além
de outros elementos como especificações de confiabilidade
que afetam a continuidade da operação, padronização,
etc. que cada um sob um certo aspecto impacta nos resultados do negócio.
Em resumo podemos dizer que o conceito de sistema integrado deveria ser
a definição de orientações, sistemas e objetivos
de modo amplo para aqueles que possuem a responsabilidade pelos resultados
e a autoridade pelos recursos correlacionados.
• (BARREIRA) Ao tomar as rédeas do futuro do sistema, é comum
perceber o enorme caminho que ainda se tem por percorrer e as inúmeras
opções equivocadas que foram adotadas no passado. Assim,
encontramos no líder deste novo passo um crítico do passado,
que eventualmente esquece de que as decisões anteriormente tomadas
foram aquelas julgadas como as mais adequadas com base nas condições,
conhecimento e recursos disponíveis naquele momento, e que toda
a evolução da organização ocorreu graças
a estas decisões e trabalho forte de uma série de pessoas
que muitas vezes excederam seu papel, para atingir o desafios que lhes
eram apresentados.
•
(DESAFIO) O futuro nos reserva o estabelecimento de um novo patamar do
Sistema de Gestão da Qualidade e seu papel dentro da estratégia
da organização, porém este desafio não pode
ser conquistado sem respeito absoluto a tudo e todos que nos trouxeram
até este momento.
Como podemos perceber, nestes 15 anos de implantações
e certificações de sistemas muitas verdades foram lançadas
e muitas caíram. Devemos neste momento, buscar a redução
da distância destas novas verdades, trazendo o futuro mais rapidamente
para próximo de nosso presente, atuando como elemento motor deste
ciclo contínuo de evolução das organizações,
transformando-nos em peça fundamental dos muitos ciclos que ainda
estão por vir.
*Marcos Miklos é instrutor oficial de cursos do IQA – Instituto
da Qualidade Automotiva. Atua há 10 anos como auditor líder
ISO9000-QS9000-VDA 6.1-TS 16949 em organismos internacionais de certificação,
realizando também treinamentos customizados e consultoria em Sistemas
de Gestão da Qualidade. E-mail: marcos.miklos@iqa.org.br
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