
A DEMOCRACIA
DO VEÍCULO MULTICOMBUSTÍVEL
José F. Penteado*

Foi-se o tempo em que o consumidor era totalmente dependente da política
energética imposta pelo governo e empresas do setor, responsáveis
pela produção, distribuição e comercialização
dos combustíveis veiculares. Desde 2003, os veículos multicombustíveis
são uma realidade no Brasil, e isso trouxe mais do que liberdade
para o motorista na hora de abastecer o veículo. Trouxe um poder
que até então ele não tinha: o de influir ativamente
na regulação dos preços de mercado, pelo exercício
do direito de escolher o seu combustivel.
Com a opção de escolha nas mãos, ele pode abastecer
o carro com gasolina ou álcool, em qualquer proporção,
ou ainda gás natural veicular (GNV), e isso faz com que utilize
sempre o combustível mais apropriado, principalmente sob o ponto
de vista econômico. Não conheço ninguém que
prefira gastar R$ 0,25/km, com gasolina, a R$ 0,18/km com álcool
(numeros simbólicos, para um veiculo fazendo 10 km/l a gasolina
e 7 km/l a alcool, com preços de gasolina a R$2,50/litro e álcool
a R$ 1,25/litro). Havendo a alternativa do GNV ele pode gastar ainda menos
por quilômetro rodado. Isso garante o sucesso dos veículos
multicombustíveis no mercado e, por esta razão, toda a indústria
automotiva está empenhada no aperfeiçoamento desta tecnologia.
Tecnologia esta, vale lembrar, desenvolvida e dominada no Brasil, por
engenheiros brasileiros, deste a produção de álcool combustível
aos sistemas flexíveis de motores. Claro que já havia tecnologia
de multicombustiveis desenvolvidas no exterior, porém de alto custo
devido aos sensores usados para determinação da mistura álcool-gasolina.
Os sistemas brasileiros tiveram o mérito de simplificar tudo isso
usando sinais já existentes no sistema de alimentação
e o software adequado. Em resumo, tecnologia simples e efetiva para o consumidor,
por um custo muito baixo, graças à criatividade de nossos
engenheiros.
É
nesse sentido que o Brasil tem atraído os olhares da comunidade
de engenharia internacional, e está se consolidando como centro
de excelência no desenvolvimento de veículos. Podemos dizer
com orgulho que a industria automotiva brasileira (montadoras, sistemistas
e fornecedores de componentes) está na linha de frente do desenvolvimento
de veiculos para os mercados emergentes.
Mas, voltando ao tema democracia, é importante ressaltar que com
o veículo multicombustível, o consumidor nunca mais ficará refém
de uma única fonte energética, como aconteceu na década
de 80 com os inúmeros proprietários de carro à álcool,
que chegaram a 95% das vendas. Os que acreditaram na tecnologia anos antes,
e atenderam ao slogan ‘Carro à álcool, você ainda
vai ter um”, ficaram a ver navios com o desabastecimento de álcool
e os preços que não mais compensavam. Com os motores flex,
isso acabou.
Os próximos passos serão, portanto, o desenvolvimento de
motores mais eficientes e econômicos, com taxas de compressão
maiores, e também uma evolução na tecnologia dos combustíveis
e lubrificantes, principalmente para atender às novas exigências
das normas de emissões de gases que estão se tornando cada
vez mais restritivas. A questão da evolução dos combustíveis
e lubrificantes diante das novas fases do Proconve será amplamente
debatida com diversos setores envolvidos na sua produção
e uso durante os painéis de Veículos de Passeio do Congresso
SAE BRASIL 2005, que acontece de 22 a 24 de novembro, em São Paulo.
*José F. Penteado é diretor do
Comitê de Veículos de Passeio do
XIV Congresso e Exposição Internacionais
de Tecnologia da Mobilidade SAE BRASIL
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