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Com novas tecnologias, ZF quer atrair outros clientes

Estratégia | 02/07/2018 | 18h40

Com novas tecnologias, ZF quer atrair outros clientes

Empresa testa modelos de negócio e explora oportunidades

GIOVANNA RIATO, AB | De Friedrichshafen, Alemanha

Imagine uma empresa focada no desenvolvimento de soluções de realidade virtual, na geração e uso de dados de seus produtos, com planos de produzir um veículo elétrico e semiautônomo de passageiros em 2019. Poderia se tratar de Google, Amazon ou uma startup israelense, mas o caso é bem diferente: as iniciativas são todas da ZF, fundada há mais de 100 anos na alemã Friedrichshafen – 60 deles com presença no Brasil, o primeiro país do mundo a receber operações da companhia fora da Alemanha.

No começo o foco estava em produzir componentes mecânicos. Agora a meta é buscar transformação não apenas internamente, para acompanhar a quarta revolução industrial, mas também externamente, levando a mudança para os clientes. A companhia, que sempre teve as montadoras de veículos como principais clientes, começa a olhar para novos espaços e oportunidades, a desenvolver soluções que podem ser vendidas a terminais de carga ou empresas de entregas.

“Quando falamos de caminhões e ônibus, olhamos cada vez mais para a cadeia logística, em soluções para aumentar a eficiência em vários processos”, disse Fredrik Staedtler, chefe da divisão de veículos comerciais da ZF.

O executivo falou durante o Technology Day, evento anual que reúne a imprensa para conferir as novidades da companhia. Até 2017 o encontro era chamado de Press Day. A mudança sutil no nome é mais um sinal do empenho da companhia em se reposicionar. A ZF aplica € 1,3 bilhão de seu faturamento anual de € 38 bilhões em pesquisa e desenvolvimento de soluções completamente novas. O valor salta para € 2,23 bilhões quando se incluem melhorias incrementais.

Nos últimos três anos a organização comprou a TRW, companhia global sediada nos Estados Unidos que complementou o portfólio com soluções de segurança e automação. Desde então, a empresa alemã firmou dezenas de parcerias com empresas automotivas e não-automotivas, se aproximou de outros fornecedores da indústria e de startups de tecnologia. Neste Technology Day foi possível ver com clareza o resultado de tanta movimentação.

COLETIVIDADE


Peter Lake, membro do conselho de administração da companhia com responsabilidade pela área de vendas (que vai deixar o cargo para se aposentar em setembro deste ano), é defensor do trabalho colaborativo. “A coletividade é algo bem importante para nós. Em parceria, desenvolvemos produtos capazes de interagir uns com os outros. Podemos usar big data para entender a performance do produto no mercado, investir em manutenção preditiva, oferecer soluções, prever demandas, aprender sobre a qualidade do produto e melhorá-lo”, diz.

“Ver, pensar e agir.” O atual slogan da ZF resume o tipo de tecnologia em que a empresa trabalha para oferecer ao mercado. Os novos desenvolvimentos levam esta filosofia para além dos veículos. Um dos exemplos é a Innovation Van, modelo elétrico destinado à entrega de encomendas na casa das pessoas – tecnologia que poderia ser usada pelos correios, por exemplo. Além de rodar com propulsão mais limpa, o veículo funciona de forma autônoma com uma coleira virtual, que faz com que ele siga o entregador quando este não está a bordo.

Desta forma, o profissional pode descer em uma rua onde há várias entregas para fazer sem precisar entrar e sair do veículo uma série de vezes. No conceito apresentado pela ZF, o entregador usa um óculos de realidade virtual que, além de mantê-lo conectado com a van, mostra o endereço das entregas e avisa, automaticamente, o cliente que o entregador está chegando. Se a pessoa não estiver em casa, o sistema reorganiza o cronograma automaticamente, resolvendo o desafio desta última etapa logística. Estima-se que hoje as empresas de entrega precisam retornar à casa dos clientes para realizar a entrega porque em 30% a 50% das vezes os consumidores não estão em casa para receber seus pacotes.

“Estamos ajustando a solução, mas ainda não temos um modelo de negócio para ela. A próxima etapa dos testes do óculos de realidade virtual será no ambiente fabril. Em paralelo, vamos conversar com empresas de logística, entender a necessidade delas e oferecer a solução”, diz Gerhard Gumpoltsberger, líder de inovação da ZF.

CENTRO DE CARGA AUTÔNOMO



Com terminal de carga e descarga autônomo, companhia pretende reduzir acidentes e custos

Outra solução que a ZF apresentou no Technology Day foi um terminal de carga autônomo em que, além dos veículos, as docas são equipadas com câmeras e sensores. Com inteligência artificial tudo se comunica para que os caminhões circulem sem motorista e façam todas as manobras complicadas para a entrega e a retirada do frete. “Cerca de 70% dos acidentes acontecem neste momento. Por isso é tão importante ter menos pessoas envolvidas”, observa Alexander Benerjee, especialista da companhia.

No caso da solução, além de fornecer tecnologia para os clientes tradicionais da indústria automotiva, a ZF teria como público as empresas com terminais de carga, mais um novo mercado para a organização. “Estamos estudando modelos para oferecer a cada companhia”, diz Benerjee, esclarecendo que tudo depende da estrutura que cada empresa já tem. Ele não dá números, mas aponta que, apesar de o sistema ser caro, é capaz de levar redução de custos para as empresas, que reduzirão acidentes e não precisarão de tantos motoristas trabalhando 24 horas por dia.

NOVOS MODELOS DE MOBILIDADE


A ZF também aposta em soluções para o transporte de pessoas. Uma delas é o e.GO Mover, veículo elétrico capaz de levar até 15 passageiros. O modelo é semiautônomo e, portanto, precisa de um condutor, mas tem potencial para ser completamente automatizado nos próximos anos. Com ar futurista, a novidade será produzida e vendida na Europa a partir de 2019 em parceria com a e.GO, startup alemã de mobilidade com quem a ZF mantém cooperação.

O veículo chegará ao mercado por salgados € 90 mil, já totalmente equipados para a operação. Está planejada a produção de 10 mil unidades que rodarão em rotas gerenciados por frotistas e operadores de mobilidade. Com a novidade, na prática, a ZF vai de fornecedora a concorrente de montadoras no segmento, com mais uma experimentação.

A companhia também apresentou o conceito Snap, um tanto mais futurista. Trata-se de uma plataforma elétrica e autônoma que pode ser compartilhada com diferentes cabines e funções. É possível, por exemplo, pensar em um veículo dormitório e, trocando a cabine, transformá-lo em uma sala de reunião móvel.


Depois de um ano de desenvolvimento, ZF e Faurecia apresentaram conceito de cockpit para carros semiautônomos

A ZF aproveitou o evento ainda para mostrar o Trandsetting Cockpit, o resultado de sua parceria com a Faurecia para desenvolver interiores para carros autônomos. A ideia é que as pessoas possam rodar com carros equipados apenas com um grande painel digital e uma alavanca de controle, que permite acelerar e frear modelos semiautônomos. Todos os outros comandos são dados na tela sensível ao toque. A tecnologia, apontam as companhias, está completamente pronta para o mercado. Faltam apenas montadoras dispostas a usá-la e países dispostos a atualizar a legislação para aceitar veículos sem volante ou pedais de freio e aceleração.



Tags: ZF, tecnologia, mobilidade.

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