A disputa pelo ranking mundial de produção

O Salão Internacional da América do Norte, conhecido como Salão de Detroit, mostrou menos novidades do que em anos anteriores, mas alguns temas foram discutidos com mais profundidade. Os veículos de propulsão híbrida — motor térmico convencional em conjunto com um motor elétrico — continuam atraindo atenção, como solução intermediária até a chegada dos modelos puramente elétricos alimentados por pilha a hidrogênio em 20 a 30 anos.

Embora Toyota e Honda tenham partido na frente, acompanhas pela DaimlerChrysler, a Ford oferece agora o Escape e a GM apresentou o utilitário esporte (SUV) Graphyte como protótipo. Em Detroit, as duas marcas americanas anunciaram que em 2008 contarão com a segunda geração de híbridos. Pouco se falou, no entanto, que as baterias são muito caras e têm metade da vida útil do carro completo. A substituição em sete a oito anos pode gerar um problema financeiro ao proprietário.

Entre os veículos convencionais, os lançamentos inéditos limitaram-se ao Mercedes ML, que ficou refinado para enfrentar a forte concorrência entre os SUVs; Dodge Charger, relançando a moda dos sedãs americanos de potência bruta; Ford Fusion, equivalente ao Mondeo para o mercado local; reformulação total do Mitsubishi Eclipse e do Kia Rio. Do ponto de vista técnico, destaque para a primeira pickup Honda, a Ridgeline, modelo médio pioneiro na carroceria monobloco de cabine dupla, porta-malas fechado, suspensão independente nas quatro rodas e tração 4x4 a partir das rodas dianteiras. O Cadillac STS-V, de 440 cv, é uma inesperada resposta às séries M e AMG de BMW e Mercedes: não chega lá, mas está perto.

Quanto aos carros conceituais, quase todos sinônimos de lançamentos próximos, impressionaram o superesporte Ford Shelby GR-1, de 600 cv, com sua carroceria de alumínio polido (só para o Salão); o Chrysler Firepower, que herda componentes do Viper, como resposta ao Corvette, este pré-reagindo com a nova série Z de 507 cv; o Lexus LF-A, reflexo do aprendizado da Toyota na F1. Interessantes também o Saturn Aura, espécie de Astra americano, e o Acura RD-X, uma station esportiva.

Dentro do campo da extravagância, o Jeep Hurricane (dois motores, 670 cv, capaz de girar em torno de seu eixo vertical), o Infiniti Kuraza, de seis lugares e seis portas laterais e o chocante Ford SynUS que mais parece um carro-forte, porém com muita diversão eletrônica interna, para isolar os ocupantes do exterior mundo cruel. Apesar das formas estranhas, utiliza a mesma plataforma do Fiesta.

Lançamentos unidos aos shows continuam a marca registrada de Detroit, este ano menos espetaculares. A criatividade da Chrysler sobressaiu com uma carroceria de stock car trocando de “pele” com o Charger. A GM arranjou um sósia perfeito do seu vice-chairman, Bob Lutz, que brincou afirmando agora poder atender a todos os jornalistas.

Apesar do bom humor, coube ao próprio Lutz uma declaração algo bombástica. Admitiu que a GM pode perder mesmo o posto de maior fabricante mundial para a Toyota. Apesar disso, manterá o seu ritmo e tentará não se deixar ultrapassar. A situação de fragilidade dos “Três Grandes Grupos” (pela primeira vez menos de 60% do mercado, em 2004) levou o governo americano a oferecer apoio técnico de cientistas, embora o problema maior seja financeiro. O grande duelo se aproxima (Fernando Calmon, Alta Roda, 26 de janeiro).

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