
A virada do mercado está
mais adiante
As exportações continuam a dar um mínimo de sustentação
à indústria. Devem crescer 20% sobre o recorde do ano passado.
Não o suficiente para diminuir significativamente a capacidade
ociosa de 40%, nominalmente duas vezes superior à média
mundial. Há um agravante: como a capacidade instalada de veículos
leves se divide por 15 grandes marcas, mais dois pequenos produtores,
a média de montagem por fábrica está em 90.000 unidades/ano.
Longe, portanto, das 150.000 unidades anuais que garantiriam escala competitiva.
O País também deve estar preparado para
importar mais. O presidente da Anfavea, Rogelio Golfarb, usou a boa metáfora
da luta de boxe. Quem sobe ao ringue do mercado internacional, dá
e recebe socos. Não pode apenas querer exportar. Nocautes estão
cada vez mais difíceis. Problema maior é como desatar o
nó do mercado interno para sustentação crescente
das exportações. Existe uma meta até 2007: mercado
interno de 2 milhões de unidades (150 mil importadas), exportações
de 650 mil, produção total de 2,5 milhões. Nenhuma
maravilha, pois o mercado interno mal igualaria os números com
uma década de atraso, mas o aproveitamento da capacidade instalada
melhoraria bem.
O seminário teve seu lado de muro de lamentações.
As concessionárias queixaram-se da guerra do fim de mês para
ver qual marca emplaca mais carros: o comprador vai adiando a decisão
de compra. Essa estratégia de nocautear pelo aprofundamento dos
descontos parece, agora, estar chegando ao fim. Os fornecedores de peças
sustentam que exportações e mercado de reposição
estão longe de compensar os prejuízos das entregas às
linhas de montagem. As fábricas elegeram fornecedores de matérias-primas,
aço em especial, como os vilões. Só houve um consenso:
as trombadas políticas em Brasília levam a uma retração
psicológica do mercado, apesar da evolução dos indicadores
econômicos do País.
Os céticos acreditam que somente o financiamento
mais barato e abundante na faixa de 48 meses atrairia consumidores de
renda menor. Esbarra, entretanto, na mínima intenção
de investidores em alongar prazos de aplicação por razão
de incertezas políticas. Resta a diminuição permanente
da carga tributária, sem prejuízo da arrecadação
vital para o equilíbrio das finanças públicas.
Uma proposta interessante foi apresentada por Cledorvino
Belini, superintendente da Fiat. Ele defende o modelo tributário
europeu, concentrando mais impostos na utilização do que
na aquisição do automóvel. O governo manteria receitas,
o comprador teria um carro acessível, porém trataria de
usá-lo de forma racional. Como idéia, o ovo está
(quase) em pé. Dependeria de acertos entre os três níveis
de governo.
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