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Mercado e Negócios | 29/06/2011 | 19h40

Anfavea aponta custos 60% maiores no Brasil

Belini apresenta estudo que entregou ao governo

Pedro Kutney, Automotive Business

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Pedro Kutney, AB

Após mais de um ano de especulações, a Anfavea divulgou nesta quarta-feira, 29, o resumo do estudo de competitividade da indústria automotiva nacional, que aponta custos de produção no Brasil até 60% superiores aos principais produtores emergentes, como China, Índia, Coreia e México. A pesquisa foi encomendada à consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC) e entregue a três ministérios, em Brasília, nas últimas duas semanas. Cledorvino Belini, presidente da entidade, destacou que o documento aponta as principais fraquezas para a produção industrial no País, mas não foram feitos pedidos específicos de medidas para estancar a crescente perda de competitividade da indústria brasileira.

“Apontamos nossas principais deficiências. Acreditamos que o governo saberá quais atitudes tomar a partir desse conhecimento que apresentamos”, disse Belini. O estudo considerou a cadeia automotiva completa (fabricantes de veículos e peças) e comparou os custos de produção do Brasil com outros produtores emergentes. O objetivo, segundo o presidente da Anfavea, é alertar o governo sobre os grandes diferenciais competitivos a favor de outras partes do mundo, que “trazem riscos e possíveis perdas para o futuro do setor automotivo no Brasil”. Foram entregues cópias do documento aos ministros do Desenvolvimento, Fazenda e Ciência e Tecnologia.

Belini garantiu que o estudo foi bem recebido pelo governo e deverá ser considerado na arquitetura do PDC (Programa de Desenvolvimento da Competitividade), que está em gestação nos três ministérios e reunirá medidas para tentar retomar o poder de competição da indústria brasileira no comércio internacional. Um dos principais argumentos para sensibilizar o governo é o saldo da balança comercial do País, que vem caindo rapidamente nos últimos anos e o setor automotivo participou com 60% dessa redução de 2006 a 2010.

O levantamento feito pela PwC mostra que há cinco anos o saldo da balança comercial brasileira era positivo em US$ 46,5 bilhões e no ano passado caiu para US$ 20,2 bilhões. Dessa diferença a menor de US$ 26,3 bilhões, o setor automotivo (veículos e peças) colaborou com US$ 15,6 bilhões, pois o saldo do segmento passou de US$ 9,6 bilhões positivos em 2006 para US$ 6 bilhões negativos em 2010.

O governo já tinha conhecimento de diversos dos números apresentados pela Anfavea, mas Belini avalia que foi importante “demonstrar com clareza” os principais gargalos de competitividade nesse momento em que está sendo formulado um arcabouço de política industrial para o País. “É o momento de decidir o que nós queremos ser”, definiu.

Deficiências

Entre as principais diferenças de custos produtivos apontados pelo estudo da PwC, figura o preço do aço, 40% mais caro no Brasil em relação a México, China e Índia. Água, gás e energia elétrica também são insumos mais caros aqui do que na Europa, México e até na vizinha Argentina.

No País dos juros mais altos do mundo, o custo de capital em empréstimos bancários chega a 45% ao ano, em média, enquanto na Índia fica em 12%, em 7% no México, 5% na China, 4% na Europa e 2% no Japão. O Brasil também é campeão em tempo para administrar a burocracia tributária: 2,6 mil horas, contra 549 no México, 504 na China, 300 na Índia e 187 nos Estados Unidos.

Outro fator negativo é o crescente custo de mão de obra, calculado em 5,3 euros por hora no Brasil (incluindo encargos sociais), quase o dobro dos 2,6 euros no México, 1,3 euro na China e 1,2 na Índia. “Hoje não somos mais um país de baixo custo de mão de obra”, disse Belini. “E esse preço por hora não considera o que chamamos de terceira folha, que são os gastos com transporte, saúde e treinamento que as empresas pagam aqui”, acrescentou. O executivo ponderou, no entanto, que o peso dos salários no custo de produção varia bastante de acordo com a posição de cada empresa na cadeia de suprimentos: “Nas montadoras não é muito elevado, mas é nos fornecedores que ficam mais abaixo e são mais intensivos em mão de obra, como uma fundição, por exemplo.”

Em todas as comparações de custos, o México chamou a atenção: “Ficamos impressionados com a posição do país, que tem muitas semelhanças com o Brasil, mas parece ter feito melhor a lição de casa para competir no mundo globalizado”, avaliou Paulo Petroni, sócio-diretor da PricewaterhouseCoopers, que coordenou o estudo.

Solução: inovação disruptiva

Para Belini, somente ações de “inovação disruptiva” – como já aconteceu com o desenvolvimento dos carros flex no País – serão capazes de fazer a indústria “dar um salto de qualidade” para retomar sua competitividade internacional. “Mas isso não acontece da noite para o dia. Leva tempo”, ponderou. Caso o Brasil comece agora a desatar os nós de competitividade, com fortes políticas de incentivo à pesquisa e desenvolvimento, Belini projeta que os primeiros efeitos benéficos sejam sentidos a partir de 2015 ou 2016.

O presidente da Anfavea citou alguns exemplos de inovações que podem ser assimiladas pela indústria automotiva nacional, como o uso de materiais alternativos, onde incluiu o sisal na composição de plásticos ou os bioplásticos de cana-de-açúcar. “Existem muitas oportunidade de desenvolvimento tecnológico que hoje sempre chegam de fora, mas que devemos fazer aqui. Existem condições para isso, pois temos o setor automotivo mais antigo e com a engenharia mais desenvolvida em comparação com todos os demais países emergentes”, defendeu.

“Não podemos mais ficar chorando pelo câmbio, a realidade é essa e não deve mudar. O que precisamos é criar uma política industrial para virar o jogo e a inovação tecnológica tem papel fundamental nisso. São necessários mais incentivos para pesquisa e desenvolvimento, porque se não evoluirmos vamos entregar nosso mercado para os importados”, analisou Belini, lembrando que, de 2005 até maio de 2011, as importações de veículos no mercado nacional cresceram 115%, enquanto a produção das montadoras instaladas aqui avançou menos da metade desse porcentual, 45%.

Apesar das dificuldades atuais, a PwC projeta um cenário otimista: mercado de 6 milhões de veículos a partir de 2020, com a consolidação do Brasil como produtor de classe mundial, crescimento das exportações e atração de investimentos para desenvolvimento de tecnologia e produção local. “Queremos um mercado de 6 milhões com a produção de 7 milhões”, finalizou Belini.

Assista à entrevista exclusiva com Cledorvino Belini, presidente da Anfavea



Tags: Anfavea, Belini, PricewaterhouseCoopers, competitividade, custos.

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