Automotive Business
Siga-nos em:
AB Inteligência

Notícias

Ver todas as notícias

Legislação | 25/07/2012 | 17h45

Montadoras querem atrasar limites de emissões de CO2

Lobby da Anfavea pode prejudicar desenvolvimento de carros eficientes

PEDRO KUTNEY, AB

Enquanto está sendo redigido em Brasília (DF) o decreto que vai regulamentar uma série de políticas do novo Regime Automotivo, crescem as pressões das montadoras contra a adoção de metas mais apertadas de emissões de CO2, principal gás de efeito estufa emitido por veículos automotores.

Segundo informações obtidas com exclusividade por Automotive Business, os fabricantes representados pela Anfavea tentam no momento empurrar de 2016 para 2017 o início da regulamentação de limites para emissões de CO2 – o Brasil atualmente não estabelece nenhuma meta para o CO2 veicular, ao contrário do que já acontece na Europa, nos Estados Unidos, no Japão e até na China. Mais: o lobby também quer aumentar a meta inicial, proposta em um estudo encomendado pelo governo, de 135 gramas por quilômetro para 155 g/km, aplicada sobre a média da frota fabricada por cada montadora, de acordo com uma fonte.

Este número iria aumentando suavemente até 2020, mas de forma tão lenta que, daqui a oito anos, o Brasil teria metas de emissão de CO2 veicular ainda maiores do que a Europa hoje. A União Europeia (EU) estabeleceu, a partir deste ano, a média por fabricante de 130 g/km para 65% da frota fabricada, que passa a 75% em 2013, 80% em 2014 e 100% em 2015. Para 2020 a UE propõe apenas 95 g/km para carros de passageiros. Lá, os fabricantes que não atingem esses limites médios são punidos com a sobretaxação de seus carros, em valores que chegam a € 95 por veículo vendido que exceder em mais de 4 gramas a meta.

CONTRIBUIÇÃO PARA O ATRASO

Se o governo aceitar o lobby das montadoras instaladas no Brasil, vai contribuir para atrasar o desenvolvimento tecnológico de carros mais eficientes no País, que consomem menos combustível e, por consequência, emitem menos CO2. Na Europa e Estados Unidos, muitos motores estão passando por processo de “downsizing”, com redução de tamanho e peso, por meio da adoção de blocos e cabeçotes de alumínio, turbocompressores que garantem potência maior a propulsores pequenos e injeção direta de combustível, entre outras soluções.

Um exemplo: o motor Sigma 1.6 com bloco e cabeçote de alumínio produzido pela Ford em Taubaté (SP), que equipa o New Fiesta, no Brasil emite 168 gramas de CO2 por quilômetro rodado quando abastecido com gasolina, ou 153,5 g/km com etanol; e na Inglaterra o mesmo carro emite 133 g/km usando só gasolina, porque conta com injeção direta de combustível e comando de válvulas de admissão variável. Sem a força da lei, ninguém estará disposto a promover essa evolução, simplesmente porque os custos aumentam e os lucros caem. Pode-se alegar que no Brasil toda a frota com motores ciclo Otto consome etanol, puro ou misturado à gasolina em proporções mínimas de 20% a 25%. O agrocombustível tem a vantagem de anular quase toda a emissão de CO2, que é absorvida pela própria plantação de cana-de-açúcar. Contudo, o País já não consegue produzir todo o etanol que consome e seu preço relativo só compensa em poucos Estados, o que faz aumentar a opção pela gasolina. Portanto, o uso de biocombustíveis não deveria isentar o País de buscar a maior eficiência energética de seus veículos.

Grande parte dos avanços tecnológicos da indústria automotiva foi promovida pelo aperto das legislações de emissões e segurança. Sem esse aperto, a indústria perde muito de sua motivação e tende sempre a buscar o menor custo e o maior lucro possível. É a lei de mercado, que só pode ser regulada pelo governo. No caso das emissões de CO2, essa regulamentação é esperada no decreto a ser publicado até o fim de agosto, depois da sanção presidencial da lei que cria o plano Brasil Maior, que já passou pela Câmara dos Deputados e agora aguarda votação no Senado, prevista para acontecer logo após o recesso parlamentar de julho. Na ocasião, dependendo das metas adotadas, ficará demonstrado o quanto o lobby de pressão das montadoras é eficaz em Brasília.



Tags: Regime Automotivo, Anfavea, CO2, emissões, Brasil Maior.

Comentários

  • Haroldo

    É uma pouca vergonha. Vivemos num mundo onde o poder econômico é dominante sobre qualquer coisa. Somos sempre sujeitos aos atrasos tecnológicos.

  • Valmir

    As montadoras não vão querer reduzir os lucros, reduz a PLR dos colaboradores, problema com sindicato. Se repassarem para os preços reduz momentaneamente as vendas, como sabemos o brasileiro vive de ansiedade e acabaria adquirindo assim mesmo. Mas como vamos controlar essa emissão ? Quem e como vão fiscalizar ? Para renovar o licenciamento do veículo será necessário um laudo de empresa especializada ? Laudos falsos ou adulterados serão emitidos com muita facilidade. Quem vai homologar e fiscalizar estas empresas e seus equipamentos ? Quem vai determinar o valor destes laudos. A fiscalização é praticamente inexistente e falha em todos os setores, departamentos e poderes.

  • Juliano Soares

    E um absurdo essa Anfavea, vive as custas dos beneficios do governo federal e ainda quer prejudicar a saude dos Brasileiros. Espero que o governo nao se dobre mais uma vez a essa mafia que produz carrocas poluidoras que matam milhares de brasileiros a cada ano. Acho melhor que Sra. Presidente Dilma abra as portas aos importados em especialmente aos carros coreanos que sao muito superiores do que essas porcarias que essa ANFAVEA produz. E fora que ela vem despedindo cada vez mais funcionarios. Acorda SINDICATO DOS METALURGICOS... Cade vcs que nao lutam pela melhora da qualidade? Ou ja se corromperam tambem como fez o resto desse pais?

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

AB Inteligência