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Indústria | 04/10/2012 | 23h30

Setor festeja política industrial com metas

Para executivos, regime traz avanços à fabricação de veículos no País

PEDRO KUTNEY, AB

“Enfim, agora temos uma política industrial.” Assim Besaliel Botelho, presidente da Robert Bosch no Brasil, definiu e elogiou a publicação do Decreto 7819, que regulamenta até 2017 o regime automotivo, com incentivos ao desenvolvimento tecnológico do setor e à compra de componentes nacionais para a fabricação de veículos. Durante sua exposição no painel de presidentes, que fechou o Congresso SAE Brasil 2012, em São Paulo, Botelho afirmou que o pacote de medidas traz avanços, pois traça uma rota com metas definidas que induzem a indústria a desenvolver e adotar tecnologias mais modernas, agregando valor aos produtos feitos no País.

O executivo exemplificou sua afirmação citando as metas de redução de consumo de combustível estabelecidas pelo novo regime. Ele deu o exemplo de um carro de 1 tonelada, que para se habilitar ao regime até 2017 deverá rodar 16,58 km com um litro de gasolina ou 11,49 km com etanol, com emissão de 131 gramas de CO2 por quilômetro, “o que já é bastante ambicioso”, disse. E para obter desconto extra de dois pontos no IPI esse mesmo veículo deverá fazer 17,96 km/l com gasolina e 12,45 km/l com álcool, emitindo 121 g/km de CO2. “Na nossa visão, para atender esses objetivos teremos necessariamente de adotar novas tecnologias até agora não aplicadas aos veículos nacionais, que têm tecnologia defasada”, avalia.

Botelho citou algumas das possíveis soluções tecnológicas a serem adotadas, como injeção direta de combustível para motores ciclo otto, turboalimentação, comando de válvulas variável e o sistema start-stop, que desliga o carro automaticamente nas paradas no trânsito e religa quando o motorista aciona o acelerador, algo que há tempos a Bosch tenta vender no Brasil, sem sucesso até agora. “Um sistema start-stop básico economiza de 10% a 15% de consumo. Já o mais avançado, o Coasting, que desliga o carro até em movimento na estradas, quando não é preciso acelerar, a economia pode ser de 20% a 25%”, explicou Botelho.

“Existem tecnologias disponíveis que podem ser aplicadas nos carros aqui. E o problema não é mercado. O consumidor aceita pagar para obter vantagens. É a carga tributária que precisa diminuir”, defendeu. “Claro que tecnologia custa, mas em outros países isso é consumido por preços acessíveis. Precisamos aprender a fazer isso aqui também.”

Em sua exposição no painel, Steven Armstrong, que há quatro meses assumiu a presidência da Ford no Brasil, avaliou que os possíveis aumentos de custos trazidos pela adoção de novas tecnologias serão acomodados por um “blend” de atores: “Vamos precisar reduzir os custos com mais escala e produtividade. Esses custos serão diluídos pelas montadoras, pelos incentivos do governo e pelo consumidor também.”

UM GRAU ACIMA

Rogelio Golfarb, vice-presidente da Ford América do Sul, que assistia ao painel, disse a Automotive Business que o novo regime colocará pressão extra em todos os níveis de desenvolvimento da indústria, aumentando o volume de compras nacionais de componentes e a obrigação de investir em desenvolvimento tecnológico e engenharia. “As medidas por certo vão acelerar processos que demorariam mais tempo a acontecer. O sarrafo foi colocado um degrau acima e portanto vai incentivar um melhor desempenho da indústria”, avalia.

“Não bastará importar tecnologias. É fundamental dominar a tecnologia para gerar desenvolvimento”, opinou em sua exposição no painel de presidentes Luiz Carlos Andrade Jr., vice-presidente comercial da Toyota Mercosul. Armstrong vai na mesma linha: “É importante para um país dominar a engenharia e desenvolver produtos globais, caso contrário só são criados produtos com baixo valor agregado”, disse.

Nesse sentido, Golfarb lembra que será bastante difícil atingir as metas de pesquisa e desenvolvimento. O governo ainda deverá baixar uma portaria para regulamentar o que pode ser considerado uma inovação. Ele acredita que a tendência adotada será o da “pesquisa pura”, com desenvolvimento de soluções completamente novas, excluindo adaptações, o que nenhuma montadora instalada no País faz no momento

COMPETITIVIDADE

Todos os presentes, contudo, avaliaram que o regime não será capaz de resolver sozinho todos os problemas de falta de competitividade da indústria. “Precisamos ser competitivos. Não adianta vir a demanda e nós não conseguirmos atender”, disse Botelho. “A verdade é que muitos têm gestão ineficiente da produção, vamos precisar melhorar isso e esperar também pela eliminação de gargalos do governo”, reconheceu.

Para Botelho, o atual governo tem sido bastante pragmático na discussão e solução dos problemas da indústria, mas ainda é preciso fazer mais. “Não é só o regime que trará competitividade, mas uma série de medidas, uma agenda positiva. É um processo. Ao menos agora temos uma linha a seguir.” O executivo alerta, contudo, que a indústria não será capaz de aproveitar os incentivos do regime automotivo se não investir em competitividade.

Botelho lamentou o fato de o novo regime não trazer nenhum estímulo direto às exportações do setor, que não param de cair. “Talvez nossa falta de competitividade seja tão grande que as exportações nem estão mais no foco. Mas somos uma indústria que precisa exportar, até para ser mais eficiente aqui mesmo.”



Tags: Regime automotivo, Inovar-Auto, Decreto 7819, política industrial, MDIC, investimento, tecnologia, nacionalização.

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