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Tecnologia | 03/12/2012 | 17h50

A revolução da interface homem/carro

A instrumentação de bordo avança rápido, com tecnologia sofisticada e cada vez mais barata

PEDRO KUTNEY, AB | De Babenhausen (Alemanha)

Há 110 anos, em 7 de outubro de 1902, o engenheiro alemão Otto Schulze depositou em Berlim a patente do primeiro velocímetro automotivo. Foi o primeiro instrumento de interface homem/carro de que se tem notícia, para informar ao motorista a velocidade de veículos que, na época, mal passavam dos 30 km/h. Nas décadas seguintes, o instrumento recebeu a companhia de marcadores de nível de combustível, temperatura do motor e hodômetro. Funções foram sendo agregadas, mas na virada para o século 21 os avanços da eletrônica e da informática promoveram uma verdadeira revolução na instrumentação dos automóveis, com sistemas que permitem configurações de painéis digitais de acordo com o gosto do freguês, introdução de telas multifuncionais com mapas via satélite, conexão com a internet, sistema de som, climatização e computador de bordo. A tendência futura é a evolução ainda mais rápida, com integração de pacotes tecnológicos sofisticados e cada vez mais baratos, presentes até mesmo em modelos de entrada.

Exemplo dessa evolução pode ser vista, literalmente, no horizonte de visão do motorista, no chamado head-up display, uma tela virtual que mostra dados do velocímetro, navegação e monitoramento de radar no para-brisa do carro – quem dirige tem a sensação de ver as informações luminosas projetadas cerca de 2,5 metros adiante do veículo, com tempo de leitura 25% menor, pois não precisa desviar sua atenção para o painel. O instrumento foi inicialmente desenvolvido na metade dos anos 90 para caças ultrassônicos e custava caro. Há cerca de dez anos a alemã Continental criou o seu head-up display (HUD) para automóveis. O primeiro a usá-lo foi o luxuoso BMW Série 7, para o qual a empresa fornece atualmente 150 mil unidades/ano. A segunda geração foi lançada este ano e passou a ser adotado também no Audi A6, outro modelo de luxo. Mas a tecnologia está migrando para carros mais baratos, como o médio BMW Série 3.

Head-Up
Head-up display: informações de velocidade e navegação são projetadas no para-brisa. O motorista tem a impressão de enxergar a projeção alguns metros adiante do veículo, assim não precisa tirar os olhos da estrada.

A redução de custos é notável. O projetor embutido atrás do painel tem agora apenas 15 lâmpadas de LED, contra 128 da geração anterior, com sensível diminuição de componentes e peso (volume de 3,8 litros e peso de 1,5 quilo), ocupando assim praticamente a metade do espaço, o que permite a instalação mesmo em carros compactos. “Nossas vendas de head-up displays vão triplicar nos próximos cinco anos”, estima Hermann Haas, chefe de vendas do portfólio de instrumentação automotiva da divisão de interiores da Continental. A projeção é que o HUD represente 2% do faturamento global da unidade em 2013, passando a 6% em 2017. A sistemista prevê que até 2016 perto de 14 fabricantes de veículos vão adotar o instrumento em seus carros.

Já está em curso o desenvolvimento da terceira geração do head-up display da Continental, com mais melhorias e nova redução de custos. Antes do fim desta década, o instrumento deve agregar mais funções de assistência ao motorista, como mostrar o caminho traçado pelo navegador de bordo com grandes setas pintadas virtualmente no chão. Para isso, o campo da projeção virtual será ampliado de 2,5 metros para até 7,5 metros adiante do veículo. Dados de câmeras e radares, como placas de limite de velocidade, pedestres, distância para o carro da frente e outros alertas também serão projetados pelo HUD, o que os técnicos chamam de “realidade virtual aumentada” na interface entre homem e máquina.

EVOLUÇÃO DO PAINEL

O head-up display é a ponta mais vistosa da tecnologia que começa a ser embarcada na instrumentação veicular. “Haverá mais informação a bordo”, destaca Haas. “Hoje temos espaços separados para rádio, navegador e climatização. No futuro próximo, a tendência é que isso tudo seja uma peça única agregada ao painel”, explica.

O conjunto de instrumentos com ponteiros analógicos, em lugares fixos, como são conhecidos hoje, poderão ser substituídos por painéis inteiramente digitais e configuráveis. Hoje grande parte dos automóveis já tem painéis com telas ladeadas por mostradores analógicos, mas tudo isso pode ser digitalizado. A Continental já desenvolveu sua proposta para isso e equipou um protótipo com esse conceito, no qual o painel pode ser ajustado, ao toque de um botão, em três tipos de configuração, para condução ecológica, esportiva ou confortável. Em cada uma, funções diferentes são privilegiadas na tela.

Painel
Painel digital configurável: com o toque de um botão (esquerda) o motorista pode escolher a aparência em modo de esportivo, econômico ou conforto, com menos informações (centro). No protótipo da Continental, é possível trocar a posição do painel com a tela central e vice-versa, apenas com um gesto com a mão, sem tocar em nada (direita).

No modo esportivo, por exemplo, o conta-giros aparece maior, no centro do painel, e a velocidade ao lado em formato digital. Já no modo de conforto, as informações são reduzidas ao mínimo necessário: velocímetro grande, setas de navegação e distância para reabastecimento. Em modo ecológico os instrumentos informam ao motorista a forma mais econômica de guiar o veículo. Com isso, o consumidor compra um carro e pode ter a experiência de dirigir vários, defende a Continental.

“Claro que não teremos uma instrumentação global standard. Cada modelo de veículo continuará a ter seu design próprio, mas a base por trás do painel pode ser a mesma, o que é essencial para aumentar nossa escala de produção e reduzir custos”, explica Haas. Segundo ele, a ideia é oferecer vários designs com diferentes níveis de acabamento e preço, que funcionam sobre a mesma plataforma eletrônica. Isso será fundamental, ressalta o executivo, para garantir a meta da Continental de obter de 10% a 30% do mercado mundial de instrumentação automotiva. “Ninguém nessa área terá mais de 30% das vendas às montadoras, mas abaixo de 10% é pouco para investir e atingir escala”, diz.

TELAS CENTRAIS

No centro do painel, as telas secundárias também ganham mais importância na interface homem/máquina. “Esses displays nasceram com a função primária de mostrar dados de navegação, mas foram agregando muitas outras funções em telas de maior resolução com comandos sensíveis ao toque, que controlam ar-condicionado, sistema de som, climatização e outros equipamentos. Nossa projeção é que todos os veículos terão uma tela central no futuro”, afirma Haas. “Existe uma clara indicação dos consumidores que querem painéis cada vez mais parecidos com seus telefones celulares, mesmo em carros baratos.”

Ele lembra que, além de agregar diversos comandos, a resolução das telas também está subindo, “de 250 dpi para mais”. Com isso, será possível assistir TV e filmes armazenados em DVDs ou pen drives, bem como ter acesso à internet. No protótipo com instrumentação inteiramente digital desenvolvido pela Continental, o motorista pode até mudar as informações que estão na tela central para o painel de instrumentos e vice-versa, tudo com um simples gesto em forma de aceno de uma das mãos, sem tocar em nada – mas só funciona com o carro parado, para evitar distrações e possíveis acidentes.

Tela
Display central: cada vez mais funções agregadas em telas sensíveis ao toque e de alta resolução.

O console dos carros tende a perder o número de botões para ganhar dispositivos multifuncionais, como touchpads para interação com funções na tela central, muito parecido com um mouse de computador.

A instrumentação de bordo avança no sentido holístico, para agregar o maior número possível de necessidades da vida cotidiana: conexão com internet, navegação via satélite, sistemas de assistência ao motorista – como radares, câmeras e piloto automático que controla a velocidade para manter a distância segura para o carro da frente. Tudo isso aumenta a necessidade de controles e monitoramento – bem além do centenário velocímetro, mas sem prescindir dele.



Tags: Continental, tecnologia, interiores, instrumentos, painel, eletrônica, velocímetro.

Comentários

  • jandirlei soares

    muito bom!! gostaria de novidades atualizadas...

  • Gehy Prado de Morais

    Esse mundo é fascinante, antes não me interessava pela a área automotiva, mas hoje trabalho nesta área em uma empresa, a cada dia estou mais me apaixonando por tudo isso, só preciso aprender muito. Muito boa a matéria parabéns.

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