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Consultoria | 22/01/2013 | 20h05

Empresas estão despreparadas para o Inovar-Auto

Pesquisa da Pieracciani mostra que política industrial ainda precisa ser digerida pelo setor

GIOVANNA RIATO E PEDRO KUTNEY, AB

Apesar de o Inovar-Auto ter entrado em vigor no início deste ano, as empresas do setor automotivo ainda estão desestruturadas para atender às exigências da política industrial. A constatação é da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas, consultoria especializada em gestão de inovação.

Em novembro de 2012, um mês depois da publicação do decreto que regulamentou o Inovar-Auto e pouco tempo antes da entrada em vigor do novo regime automotivo, a consultoria realizou uma pesquisa com profissionais da área de engenharia de 63 empresas associadas à SAE Brasil (Sociedade de Engenharia Automotiva). Destas, sete eram montadoras e 56 fornecedores de sistemas, autopeças e serviços de engenharia. A intenção era verificar como o Inovar-Auto se desenvolvia na prática.

“Fiquei surpreso ao ver o resultado”, lembra Valter Pieracciani, sócio-diretor da consultoria. Segundo ele, 77% dos participantes declararam que não conheciam ou conheciam apenas superficialmente o Inovar-Auto. “É impressionante que as empresas impactadas pelo programa ainda não tivessem assimilado a política industrial”, avalia. O levantamento apontou ainda que 60% dos pesquisados afirmavam que suas empresas não estavam estruturadas para o novo regime automotivo, sem controles capazes de aferir os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) ou engenharia.

BARREIRAS

Na opinião de Pieracciani, outra barreira é a forma como as corporações se organizam para alcançar o nível de investimento necessário para atingir os objetivos propostos no Inovar-Auto. Para ele, o assunto deve ser conduzido por engenheiros capazes de ponderar a melhor maneira de cumprir as metas de eficiência energética, processos produtivos básicos e investimentos em engenharia, pesquisa e desenvolvimento. Apesar disso, muitas companhias estão delegando essa missão à área jurídica de planejamento tributário. “É preciso montar times que reúnam as competências necessárias para trabalhar o Inovar-Auto, não deixar isso nas mãos apenas de advogados”, esclarece.

Diante da dificuldade para estruturar os projetos, as empresas também evitam dar o primeiro passo antes das concorrentes. “Todo mundo está esperando o outro fazer. Não querem tomar a dianteira”, explica Pieracciani. Para o consultor, a falta de atitude resulta na perda de boas oportunidades. “As empresas vão agir rapidamente quando perceberem isso.”

A real situação das montadoras diante do Inovar-Auto só ficará clara após o fim de março, prazo que as empresas têm para comprovar todos os investimentos em P&D e engenharia e gastos com compras nacionais de componentes, para dessa forma continuar habilitadas no regime e obter incentivos tributários, como a isenção dos 30 pontos adicionais de IPI que a nova política aplicou sobre todos os veículos vendidos no País. “No primeiro momento, o governo aceitou tudo o que as fabricantes disseram para aprovar a habilitação no primeiro trimestre deste ano. Mas em março, caso não haja nenhum adiamento de prazo, esses gastos terão de ser auditados”, lembra o especialista. “Por isso há uma correria não usual neste início de ano, para atender as metas do Inovar-Auto”, diz.

IMPULSO À INOVAÇÃO

A pesquisa realizada pela Pieracciani também trouxe alguns dados animadores. A maior parte dos participantes (97%) afirmou ter projetos engavetados, com aspectos interessantes, mas que não puderam ser desenvolvidos anteriormente por falta de recursos ou interesse das matrizes no exterior. Justamente por isso, 93% dos profissionais afirmaram enxergar o novo regime automotivo como oportunidade para desengavetar esses projetos. De acordo com o consultor, isso revela que o programa é, de fato, um motor para a inovação no setor.

“Durante muito tempo ouvimos que as empresas não investiam em inovação por falta de ações do governo que estimulassem isso. Agora as desculpas estão acabarando”, determina. Segundo ele, a política industrial tem condições para mudar o cenário de estagnação tecnológica e está em linha com as praticadas em outros países. Pieracciani acredita que a inovação é agora elemento básico para as corporações que querem continuar no mercado. “Outra razão para isso é a competição muito acirrada no segmento, com consumidores mais exigentes.”

Nos últimos anos houve esvaziamento dos centros de pesquisa no Brasil. A situação foi reflexo da crise financeira internacional, que acabou desviando do País recursos para centros de pesquisa das matrizes das empresas. O Inovar-Auto reestabelece como prioridade o desenvolvimento tecnológico no País, exigindo dos fabricantes de veículos a aplicação mínima de 0,15% da receita bruta em P&D, porcentual que chegará a 0,5% em 2017. “Parece pouco, mas muitas companhias ainda sequer atingem este índice mínimo”, revela Alfonso Abrami, consultor da Pieracciani com maior vivência no setor automotivo.

Para ele, a política industrial reflete a percepção do governo brasileiro de que será difícil competir com países como a China apenas em capacidade produtiva. É preciso combinar esse aspecto com capacidade de projeto, design e conteúdo dos veículos. “Precisaremos desenvolver nossa inovação. Há potencial para criarmos um polo importante, como acontece com a indústria aeronáutica, com o ITA e a Embraer, e com noss agropecuária apoiada pela Embrapa.”

Abrami entende que a grande oportunidade da indústria automotiva local está nos automóveis compactos, que respondem por cerca de 50% das vendas do País. O consultor acredita que as empresas devem direcionar esforços para agregar tecnologia aos carros populares sem acarretar em salto expressivo nos preços.

OPORTUNIDADE PARA FORNECEDORES

Os fornecedores de sistemas, autopeças e serviços terão papel essencial para que os objetivos do Inovar-Auto sejam cumpridos. Valter Pieracciani acredita que a cadeia de suprimentos poderá oferecer tecnologias e soluções capazes de desafogar os centros de engenharia das fabricantes de veículos. “Sugiro que estas empresas peçam às montadoras um orçamento anual para financiar projetos. Dessa forma elas terão dinheiro para desenvolver novas soluções e conseguirão atender a exigência de inovação.”



Tags: Pieracciani, Inovar-Auto, regime automotivo, política industrial, inovação, pesquisa, desenvolvimento.

Comentários

  • Ronaldo Gomes Ribas

    Como todas as montadoras/fabricantes de autoveículos aqui no Brasil são multinacionais, não houve até então nenhum interesse em investir em Pesquisa e Desenvolvimento local, visto que todas as inovações e melhorias em eficiência são determinadas pelas matrizes. Resta às engenharias locais realizarem alterações minimas, tais como calibrar junto aos sistemistas oa motores "Flex" ou alterações de calibração de suspensão e caixa de direção. Além disso os cargos de executivos são preenchidos pelos compatriotas que veem para cá de suas matrizes.

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