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Trabalho | 08/05/2013 | 13h00

Escritório do UAW no Brasil pode ajudar trabalhador dos EUA

Sindicato americano busca parceria com centrais sindicais para troca de informações e cooperação

CAMILA FRANCO E PEDRO KUTNEY, AB

O UAW (United Auto Workers), o sindicato dos trabalhadores da indústria automotiva dos Estados Unidos, vê no Brasil um parceiro indispensável para relacionamento e troca de informações, incluindo denúncias sobre a falta de direitos básicos vivenciada hoje por significativa parte dos trabalhadores da indústria automobilística norte-americana. A entidade está buscando parcerias com representações sindicais locais, como Força Sindical, CUT, UGT e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, berço da indústria automotiva brasileira, para tentar mudar a realidade adversa no país do Tio Sam.

Como quarto maior mercado automotivo do mundo, que abriga 19 diferentes fabricantes globais de veículos, com cerca de 370 mil empregados em toda a cadeia (montadoras e fornecedores), o Brasil tornou-se um interessante exemplo para o UAW, de como empregar mais gente no setor sem eliminar direitos trabalhistas, como acontece hoje com os trabalhadores não-sindicalizados de plantas dos estados sulistas americanos, onde os salários são baixos e a legislação não assegura benefícios amplamente conhecidos aqui, como férias remuneradas ou licença-maternidade.

A aposta do UAW na aliança com o Brasil é grande, tanto que a instituição já procura um escritório para alugar no centro de São Paulo, onde poderá estabelecer canal efetivo de comunicação com sindicatos e entidades de classe ligadas ao setor, para troca de informações e apoio.

A americana Ginny Coughlin desembarcou no Brasil em 2012 para representar o UAW. Em entrevista à Automotive Business, ela contou que o objetivo é formar parcerias em vários lugares do mundo, como Japão, Índia, Austrália, África do Sul. O Brasil, por ter grande tradição sindical no setor, não ficaria fora dessa estratégia. "As empresas são cada vez mais globais. Precisamos que os trabalhadores também sigam essa tendência, que tenham os mesmos direitos em qualquer lugar do mundo.”

SEM DIREITOS NOS EUA

Segundo Ginny, nos Estados Unidos não há uma legislação de proteção ao trabalhador, como a nossa CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Ela revela que na região Sudeste do país a situação é a mais grave. No Estado de Mississippi, segundo Ginny, estaria o pior dos exemplos, onde a japonesa Nissan fabrica diversos veículos, como Versa, Frontier, Altima, Pathfinder, Xterra e o elétrico Leaf. A empresa emprega lá 6 mil pessoas, mas quase 50% têm contratos temporários sem qualquer garantia ou estabilidade de emprego, apesar de estarem há anos na fábrica.

“Os profissionais na fábrica da Nissan não têm direito a férias remuneradas, plano de saúde nem salário definido, pois isso é alterado a qualquer momento, o funcionário só sabe no dia quantas horas terá de trabalhar, dependendo da demanda da produção. As mulheres têm apenas 10 dias de licença à maternidade não remunerada, e se não voltam no prazo estabelecido podem ser demitidas. Não é permitida nenhuma forma de negociação coletiva na região, pois a Nissan ameaça o fechamento da fábrica caso alguém faça sua filiação ao sindicato”, detalha Rafael Guerra, brasileiro que trabalha para o UAW e que desenvolveu diversas pesquisas com profissionais de Mississipi.

A crise trabalhista nos Estados Unidos, de acordo com os representantes do UAW, teve início na década de 1980. Nos anos 70, quase 68% dos profissionais americanos tinham representação sindical. Atualmente, apenas 8%. O próprio UAW já chegou a representar mais de 1 milhão de trabalhadores ativos. Hoje, são 400 mil e 600 mil aposentados pelo plano de pensão sindical.

“O nosso grande erro foi ter negociado vários benefícios trabalhistas até os anos 80 sem torná-los obrigatórios por lei, sem ter formado legislação e organizado um sindicato mais forte”, comenta Ginny.

Enquanto a média salarial em uma montadora no norte dos EUA, na região de Detroit, é de US$ 70 por hora, incluindo todos os benefícios como plano de saúde e férias remuneradas, nos estados sulistas do país há funcionários temporários ganhando US$ 8 por hora trabalhada. “Muito pobres, se submetem a essas condições porque para eles ainda assim é bem melhor do que ficar desempregado”, comenta Guerra.

COOPERAÇÃO NO BRASIL

A primeira alternativa que o UAW propõe é a criação de um plebicito para os trabalhadores da Nissan. “Eles é que deveriam escolher se querem ou não um sindicato para a região e não a empresa”, afirma Ginny. O Brasil já tem contribuído com a missão.

O UAW, em conjunto com representantes da UGT (União Geral dos Trabalhadores), da Força Sindical e da CUT (Central Única dos Trabalhadores do Brasil), encaminhou uma carta em março ao CEO da Aliança Renault Nissan, o brasileiro Carlos Ghosn, contando a situação dos funcionários da fábrica do Mississippi, pedindo que a empresa abstenha-se das práticas anti-sindicais. Até agora, aponta Ginny, nenhuma resposta foi obtida.

No último Salão do Automóvel de São Paulo, em outubro de 2012, o UAW montou um pequeno estande e fez uma pesquisa com os visitantes. A conclusão, segundo Ginny, é que os brasileiros levam em consideração as condições trabalhistas sob as quais os carros são fabricados no País. "Nos Estados Unidos não há essa preocupação", avalia. Com a instalação do escritório em São Paulo, o UAW quer levar essa conscientização e bons exemplos da legislação para o país mais rico do mundo, onde estranhamente os trabalhadores não têm direitos trabalhistas garantidos por lei.



Tags: United Auto Workers, UAW, Ginny Coughlin, Rafael Guerra, Nissan.

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