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Eventos | 05/08/2013 | 20h50

Crescimento menor, mas sem perder o brilho

Economista-chefe do Bradesco vê "jazida de produtividade" na economia brasileira

PEDRO KUTNEY, AB

O ciclo de crescimento acelerado da economia brasileira, vivido entre 2003 e 2010, parece ter se encerrado. O avanço do PIB deve ficar em torno de 2,3% este ano e 2,5% em 2014, para depois poder chegar a 3% ou 3,5% ao ano, segundo projeções do departamento econômico do Bradesco. Nem por isso, contudo, a economia brasileira perdeu sua importância estratégica mundial. Para Octavio de Barros, economista-chefe do banco, por sua importância como maior PIB da América Latina (US$ 2,4 trilhões, mais que o dobro do México, segundo colocado na região, e mais de cinco vezes a Argentina, a terceira maior), o Brasil segue sendo um importante polo de atração de investimentos: “Ninguém pode se dar ao luxo de não investir aqui”, destacou o economista em sua apresentação no Workshop Indústria Automobilística Planejamento 2014, realizado porAutomotive Business na segunda-feira, 5, em São Paulo.

Barros lembrou que poucos países do mundo têm indústria tão diversificada quanto a do Brasil: “Fazemos de tudo aqui, mas não somos competitivos”, destacou. Por isso mesmo, na opinião do economista existe “uma imensa jazida de produtividade no País, que agora precisa ser explorada”. Ele ressaltou, contudo, que esses ganhos de produtividade não poderão ser prospectados na massa salarial dos brasileiros, pois essa deverá seguir em alta, sem oportunidades visíveis no horizonte de retrocesso.

“O principal aumento de custo no País hoje é salário, tudo vai bater lá. O fornecedor eleva preços porque gasta mais com o trabalho”, disse Barros. Ele explica que o baixo crescimento demográfico brasileiro – de menos de 1% ao ano e com tendência de cair a 0,57% na virada desta década – criou esse cenário, com disponibilidade de mão de obra menor do que a necessidade de produção. “Por isso, mesmo com crescimento econômico menor, a taxa de desemprego não aumenta e deve se manter em torno de 6%. Isso dá maior poder de negociação aos trabalhadores, já que o medo de perder o emprego é pequeno. Por um lado, esse fator trouxe o benefício do aumento do consumo, mas elevou também o problema de competitividade da indústria.”

Barros mostrou algumas estatísticas que comprovam essa situação. Nos últimos dez anos, o preço dos bens industrializados duráveis avançou apenas 3,7% no Brasil, em média, enquanto os salários aumentaram 112% no mesmo período. “Com isso, nossa indústria, que já não era competitiva, ficou menos ainda. As exportações industriais caíram e o mercado nacional ainda foi atacado por outros países, que tinham produtos competitivos e viram uma ótima oportunidade de reduzir sua ociosidade”, analisa Barros. “Só para falar da indústria automobilística, é preciso lembrar que havia capacidade ociosa de 28 milhões de veículos no mundo. Por isso o Brasil foi invadido pelos importados”, completa.

BUSCA DE COMPETITIVIDADE

O economista-chefe do Bradesco destaca que a indústria nacional só perdeu terreno porque tinha mercado para ceder, porque é grande, completa e complexa, com o maior PIB industrial da América do Sul, de US$ 581 bilhões em 2012, contra US$ 126 bilhões da Argentina e US$ 114 bilhões da Colômbia, as duas nações melhores colocadas na região depois do Brasil. Agora, barros destaca que o problema é um só: retomar competitividade.

“Todas as empresas estão tirando leite de pedra neste momento e cortando custos. Como não dá para cortar nos salários, buscam-se outras soluções, especialmente aquelas para aumentar a eficiência produtiva. É nesse sentido que digo que existe uma enorme jazida de produtividade a ser explorada aqui.” Contudo, Barros reconhece que a situação traz perdas no curto prazo: “No futuro, após a atual experiência, deveremos ter empresas mais eficientes, mas por ora a situação é de retração até que todos consigam fazer os ajustes necessários.”

Para Barros, diversos problemas estruturais do País foram criados pelo próprio sucesso dos últimos anos. Mais de 50 milhões de pessoas ascenderam à classe C, que hoje acolhe 58% da população, contra 31% das classes D e E – quer dizer que quase 70% dos brasileiros têm razoável poder de compra. Não por acaso, a frota circulante de automóveis no País cresceu impressionantes 20 milhões de veículos na última década. “Tudo isso é sucesso. Parte dos nossos problemas atuais vem daí, como falta de estradas ou baixa capacidade de aeroportos. Crescemos além do que a infraestrutura estava preparada para aguentar, são investimentos que demoram a se concretizar”, ressaltou.

Ele lembra que nos anos da “belle époque” da economia brasileira, com a rápida ascensão de milhões de brasileiros para o mercado, o consumo cresceu acima da variação do PIB. “Agora, depois de um período de acomodação, será normal que os avanços acompanhem o PIB mais de perto”, disse, lembrando ainda que o nível de crescimento econômico não baixou só aqui, mas em todo o mundo, fazendo o Brasil crescer menos também. Por isso Barros destaca que é hora de buscar eficiência: “Precisamos de um Plano Real 2, com agenda de ganho de competitividade”, finalizou.

Assista abaixo a entrevista exclusiva de Octavio de Barros a ABTV:



Tags: Workshop Indústria Automobilística Planejamento 2014, Octavio de Barros, Bradesco, economia, projeções, previsões, cenários.

Comentários

  • alexandre akashi

    Respeito muito o economista, mas dizer que o problema de competitividade do Brasil e o aumento de custo é o salário, que nos últimos 10 ano teve aumento de 112% contra apenas 3,7% dos bens industrializado duráveis é um absurdo! Renda gera renda. Sem renda, não há consumo. Isso é básico na economia. Agora, ele foi feliz ao dizer que criamos todos os problemas estruturais com o aumento da renda. Isso se chama falta de planejamento do governo. Mas, somos o país do jeitinho e assim vamos levando (e pagando caro, claro).

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