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Indústria | 23/09/2013 | 19h40

Falta de qualidade custa R$ 5,6 bi por ano

Problemas consomem 6,6% do faturamento do setor de autopeças

PEDRO KUTNEY, AB

Chega a impressionantes R$ 5,6 bilhões por ano o custo da falta de qualidade da cadeia de autopeças no Brasil, o equivalente a 6,6% do faturamento do setor, segundo pesquisa realizada este ano pelo Sindipeças com uma amostra de 63 associados. O número perturbador foi mostrado pela consultora Letícia Costa, sócia-diretora da Prada Assessoria, durante sua apresentação no I Fórum da Qualidade Automotiva, realizado pelo Instituto da Qualidade Automotiva, (IQA) na segunda-feira, 23, em São Paulo.

“Curiosamente, apesar de a qualidade ser um tema de grande importância estratégica para a indústria automotiva, isso não é discutido como se deveria, não está na agenda”, avalia Letícia. “A qualidade é encarada só pelo lado do custo, enquanto a Toyota já há muito tempo ensinou que quanto maior a qualidade, menor o custo”, complementou. Ela destaca que a perda média do setor de 6,6% do faturamento anual com problemas é mais do que a margem de muitos participantes desse mercado. “Isso indica que há muitas empresas, principalmente as menores, que sacrificam todo o lucro ou boa parte dele por falta de qualidade de seus produtos”, pontua.

As perdas geradas pela falta de qualidade são ainda maiores nas empresas menores. As que têm faturamento entre R$ 50 milhões e R$ 200 milhões estão no topo da lista, com 9,1% das receitas perdidas com problemas de qualidade, como retrabalhos e trocas em garantia. As que faturam acima de R$ 500 milhões perdem bem menos com isso, 1,7% das vendas.

Essa diferença fica patente no controle de grandes sistemistas, que fornecem conjuntos prontos às montadoras e por isso represam os problemas de seus fornecedores antes da chegada às linhas de montagem final dos veículos. O Grupo Shaeffler, por exemplo, mostrou que entrega componentes às montadoras com 2,5 ppm (defeitos para cada milhão de peças), enquanto mede em seus fornecedores inacreditáveis 1.613 ppm. “Isso é um esforço enorme de filtragem. Meu custo vai para o espaço”, resumiu Flávio Mateus, gerente de qualidade da sistemista.

“Não vivemos sem os nossos subfornecedores e precisamos estar atentos, pois quanto mais se aprofunda na cadeia de suprimentos, mais problemas são encontrados”, contou Flávio Teixeira, gerente de qualidade da Delphi. Para ele, a obrigatoriedade de nacionalização rápida de componentes trazida pela política industrial do setor automotivo, o Inovar-Auto, também traz riscos importantes. “Existe uma corrida pela nacionalização de componentes e sistemas para atender ao Inovar-Auto, mas precisamos avaliar se estamos preparados para isso. Se atropelarmos a fase de avaliação das qualificações necessárias para fazer o que for preciso, poderemos aumentar os problemas de qualidade”, avalia.

SEGUNDA DIVISÃO

O resultado da falta de qualidade é refletido no produto final também. Segundo pesquisa conduzida pela consultoria JD Power, um consumidor brasileiro registra em média 3,5 problemas em seu carro feito no Brasil com um a três anos de uso, contra 3,33 defeitos em um modelo similar na Argentina, 3,1 no México, 2,3 na Alemanha e 2 no Reino Unido. Só a China fica à frente do Brasil nesse quesito, com 3,9 problemas por veículo (leia mais aqui e aqui).

“Estamos em uma divisão inferior”, definiu no mesmo evento Edgardo Manriquez, gerente de qualidade da Mercedes-Benz do Brasil. Para ele, as fraquezas estruturais do País puxam para baixo a qualidade. “Os fornecedores não compensaram com produtividade os aumentos de custos e temos déficit de mão de obra qualificada”, disse.

Letícia destacou também outros números da pesquisa do Sindipeças que comprovam a falta de atenção com a qualidade no País: enquanto a carga tributária é considerada a primeira causa para a falta de competitividade industrial do Brasil, na opinião de 23% dos pesquisados, e o custo trabalhista para 12% dos fornecedores de peças entrevistados, a qualidade está em 18º lugar, com apenas 0,45% das respostas, entre 23 problemas listados. “Isso ocorre porque o País carece de reformas de múltipla natureza para se tornar competitivo, mas são questões macro que funcionam como uma cortina de fumaça que encobre problemas micro, que estão dentro das empresas”, avalia Letícia.

“Está na hora de tratarmos dos problemas macro, mas também dos micro. É preciso olhar a cadeia não só pela avaliação de custo, mas da qualidade e produtividade, que são os principais problemas do setor industrial brasileiro”, defendeu a consultora, acrescentando um exemplo incômodo: “A Alemanha não é um país barato, lá os salários não são baixos, mas é muito competitivo, um dos maiores países exportadores do mundo, porque cuida de sua produtividade, que compensa o custo alto.”

Para Letícia Costa, o atual regime industrial do setor automotivo, o Inovar-Auto, deveria destinar verbas para aumento de qualidade e produtividade do setor automotivo como um todo, pois como está o programa não será capaz de recuperar a competitividade brasileira. “Se em 2017 (ano final do Inovar-Auto) tivermos atingido somente os níveis de eficiência energética exigidos, sem melhorar a produtividade e a qualidade do setor, o Brasil continuará a ser um país não competitivo”, analisa. Ela enfatiza que é necessário resolver os gargalos em toda a cadeia, pois as montadoras dependem em grande parte dos fornecedores, responsáveis por cerca de 45% do custo da qualidade, contra 28% das fábricas de veículos e 27% dos concessionários nos serviços de pós-venda.

“Muito se fala na cadeia de fornecedores, mas não se investe nela”, diz Letícia, apontando novamente a pesquisa do Sindipeças, em que apenas 40% dos fornecedores recebem algum apoio das montadoras e só 28% são programas de melhoria da qualidade. Com os sistemistas a situação é pior: somente 20% dos fornecedores de segundo nível recebem apoio e 21% são políticas de qualidade. “Não existe país relevante na indústria automotiva sem uma base forte de fornecedores de autopeças”, finalizou Letícia.



Tags: Qualidade, autopeças, IQA, Sindipeças, Anfavea, montadoras, concessionárias, Fórum Qualidade Automotiva, Inovar-Auto.

Comentários

  • Jorge Pimentel de Morais

    Prezados, Como se não bastasse a falta de QUALIFICAÇÃO e COMPROMETIMENTO dos gestores públicos, que criam POLÍTICAS PÚBLICAS sem que sejam criadas as condições de sua IMPLEMENTAÇÃO, considero a questão da QUALIDADE ainda mais crítica tendo em vista que PRECISAMOS MUDAR A CULTURA VIGENTE. Não existe ainda A CONSCIÊNCIA sobre qualidade. É uma etapa anterior à EDUCAÇÃO, pois não adianta INFORMAÇÃO para quem NÃO SABE PARA QUÊ SERVE. É lamentável, mas LEVA MUITO TEMPO para que estas condições sejam criadas. A Toyota não se transformou em referência da noite para o dia. Foi UMA OPÇÃO CULTURAL! Att. Jorge Morais.

  • Ibrahim

    A verdade tem que ser dita, a indústria nacional automobilística não existe. O que na verdade existe é o monopólio de multinacionais que abastece nosso mercado com lixo tecnológico que não é comercializado nos países cedes dessas multinacionais há pelo menos 30 anos. A CHINA já está décadas a frente de Brasil, e enquanto a China cresce sem nenhuma restrição no seu mercado o Brasil afunda no seu protecionismo alimentado pelas Multinacionais que exploram o terceiro mundo. INFELIZMENTE ESTAMOS DESPERDIÇANDO A ÚNICA CHANCE QUE O BRASIL TEM PARA TEM LUGAR NUM MUNDO AVANÇADO! INCOMPETÊNCIA É MARCA REGISTRADA DA INDÚSTRIA BRASILEIRA POR CULPA DOS GOVERNOS QUE NÃO TEM COMPROMISSO ALGUM COM SEU POVO.

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