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Inovar-Auto protege o lucro de montadoras

Opinião | 27/01/2014 | 22h00

Inovar-Auto protege o lucro de montadoras

Até agora regime automotivo não trouxe solução para falta de competitividade da indústria

PEDRO KUTNEY, AB | OBSERVATÓRIO AUTOMOTIVO

Após o primeiro ano de vigência do Inovar-Auto, programa desenhado pelo governo brasileiro (com grande ajuda das montadoras) para aumentar a inclusão tecnológica e a competitividade da indústria automotiva nacional, percebe-se que não foi atacado nenhum dos problemas que jogam para baixo a eficiência dessa indústria. Os custos de produção, por variados e bem conhecidos motivos, continuam tão altos quanto sempre foram, bem acima dos principais países concorrentes. E a produtividade continua em queda livre.

Nos últimos 10 anos, a fabricação de veículos subiu 61% no País, de 2,3 milhões de unidades em 2004 para 3,7 milhões em 2013. Ao mesmo tempo, nesse mesmo período a produção por trabalhador subiu míseros 8,5%, passou de 25,9 para 28,1 veículos produzidos por pessoa empregada nas montadoras, com salários crescentes. “Esse número dá uma boa medida da falta de produtividade da indústria automotiva nacional. O problema é que o Inovar-Auto não traz nenhuma medida para combater isso, que é o principal fator da baixa competitividade internacional”, avalia a consultora Letícia Costa, sócia-diretora da Prada Assessoria, especializada no setor automotivo.

Em um ambiente de tão baixa competitividade, o resistente interesse das montadoras estrangeiras em continuar investindo no aumento da produção no Brasil só pode ser explicado por uma palavra: o lucro. Aliás, apenas nos últimos quatro anos, os fabricantes de veículos remeteram em lucros às suas matrizes a significativa soma de US$ 15,4 bilhões, levando em conta só os registros oficiais do Banco Central, e em 2013 voltaram a ser o setor que mais enviou dividendos ao exterior (leia aqui).

Na prática, portanto, o que o Inovar-Auto fez até o momento foi proteger o lucro de montadoras ineficientes instaladas aqui, ao impor altíssima sobretaxação aos concorrentes importados, de 30 pontos porcentuais extras do IPI já calculados sobre 35% de imposto de importação.

A promessa de evolução tecnológica trazida pelo programa também não resiste a uma análise mais profunda. O mecanismo foi usado apenas como cortina de fumaça, para dar ao protecionismo adotado pelo governo uma roupagem de incentivo a pesquisa e desenvolvimento – e assim driblar as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

As obrigações de investimentos mínimos em desenvolvimento e engenharia previstos pelo regime automotivo são insuficientes para recuperar competitividade. A indústria automotiva é o terceiro setor no mundo que mais investe em pesquisa. As maiores montadoras e fabricantes de sistemas aplicam nisso de 3% a 5% de seu faturamento. Enquanto isso, o Inovar-Auto exige apenas das montadoras investimento mínimo em P&D que começou em risível 0,15% da receita bruta em 2013 e sobe para 0,5% em 2017, além de aplicação em engenharia e tecnologia industrial básica de 0,5% em 2013, chegando a 1% em 2017. Os fornecedores de sistemas, responsáveis globalmente por 60% das inovações do setor, não receberam nenhum incentivo para aumentar suas pesquisas no País. Portanto, as esperanças de evolução tecnológica são bem pequenas.

IMPORTAÇÕES CONTINUAM EM ALTA

O Inovar-Auto trouxe proteção só contra os concorrentes externos das montadoras instaladas no Brasil, porque elas mesmas continuam sendo as maiores importadoras do País. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), no ano passado as importações de automóveis de passageiros (US$ 9,08 bilhões, segunda maior pauta), autopeças (US$ 8,3 bilhões, em quarto lugar, mas aqui não estão incluídos todos os componentes importados) e caminhões (US$ 3,34 bilhões, em 11º) somam US$ 20,7 bilhões, figurando assim na primeira colocação dos principais produtos importados – à frente até das compras externas de petróleo (US$ 16,3 bilhões).

E quanto mais produzem em solo brasileiro, mais as montadoras importam: o Sindipeças, que reúne cerca de 500 fornecedores de autopeças, calcula que em 2013 a balança comercial do setor tenha alcançado o saldo negativo recorde de US$ 10,5 bilhões. Com esse número tão expressivo, não é de se estranhar que todos os fabricantes de veículos instalados no Brasil tenham déficit externo.

Das 20 empresas que mais importaram em 2013, nove são montadoras. Toyota à frente, como quarta empresa maior importadora do País, com compras externas de US$ 2,57 bilhões e exportações de US$ 864 milhões, gerando assim o maior déficit comercial do setor no ano, de US$ 1,7 bilhão. O fato ocorre justamente quando a Toyota expandiu suas vendas no Brasil com o popular Etios, o que comprova o grande volume de componentes importados do carro, incluindo o motor.

Contra esses números, Luiz Moan, presidente da associação de fabricantes, a Anfavea, vem insistentemente defendendo que o Inovar-Auto trouxe ganhos para a produção nacional, inclusive das fábricas de autopeças, que em 2013 aumentaram em cerca de 5% seu faturamento total. Letícia Costa traz à luz outro número que desmonta esse argumento: segundo os cálculos da consultora, as vendas diretas para fabricação de veículos aumentaram apenas 2% e as intrassetoriais, de fornecedor para fornecedor, recuaram 11,5% no mesmo período. Portanto, o que aumentou foram as vendas no mercado de reposição, enquanto as linhas de montagem e fabricantes de sistemas elevaram as compras de componentes no exterior. O acompanhamento do Sindipeças revela que a produção física de autopeças no País cresceu menos de 0,5% no último ano enquanto a fabricação de veículos avançou quase 10%.

Por isso as montadoras atrasaram o quanto puderam a adoção da rastreabilidade de peças, que mostraria com maior exatidão a quantidade de componentes importados em cada sistema automotivo. Esse processo deve começar agora em fevereiro, mas as empresas terão sete meses para se adaptar. Com isso, terão se passado dois anos de vigência do Inovar-Auto sem que o programa tenha cumprido de fato seu objetivo anunciado de aumentar o uso de autopeças nacionais na produção das montadoras. Muito ao contrário, até agora as importações só aumentaram.

“A questão é que o Inovar-Auto é necessário, mas insuficiente para reduzir a falta de competitividade da indústria, porque não ataca a falta de produtividade nem os custos elevados como o da falta de qualidade”, destaca Letícia Costa. Segundo cálculos do Sindipeças, o custo das peças rejeitadas deve chegar a R$ 5,6 bilhões em 2013, algo como 6,6% do faturamento total do setor. “Isso é muito. Nas melhores práticas essas perdas ficam entre 3% e 4% das receitas”, avalia. “Nada disso é endereçado pelo Inovar-Auto”, completa. De fato, a única medida que entrou em vigor logo após a publicação do regime automotivo foram os 30 pontos de IPI para sobretaxar os importados concorrentes. De resto, nada mudou.



Tags: Inovar-Auto, regime automotivo, Anfavea, Sindipeças, autopeças, montadoras.

Comentários

  • Ronaldo Gomes Ribas

    Caro Pedro Kutney, Me parece claro que com os novos players de veículos Premium como; Audi, BMW, Land Rover, Mercedes-Benz e Volkswagen (Golf VII), que anunciaram linhas de montagem por aqui a partir de 2015, teremos uma enorme quantidade de peças importadas, conjuntos (motores e câmbios), suspenção, caixa de direção e todos os componentes eletro-eletrônicos que não produzimos por aqui. Será que estas montadoras irão produzir aqui motores e transmissões de alta tecnologia ou irão trazé-los de suas fábricas europeias ou da China...??? O Inovar-Auto definiu metas porcentuais de redução de consumo até 2017, porém os fabricantes locais estão divulgando valores ao INMETRO corrigidos em até 30% pior, para posteriormente reduzir o "fator de correção" e melhorarem os valores de consumo e atingirem as metas exigidas!!! Um abraço, Ronaldo Gomes Ribas (Engenheiro de Powertrain)

  • Fabio Colla

    Pedro, adoro ler os teus textos... No setor automobilístico, com tantos jornalistas "vendidos", suas considerações imparciais e com fatos (números e dados), são uma luz de esperança.

  • Cicero

    E o que é pior...quem tem competência no governo para avaliar o nível de investimento em tecnologia? Pelo que eu sei e já presenciei,esses números são burlados,e tudo debaixo do nariz do sindicato,que sabemos com quem está de mãos dadas.Abraço.

  • Caleb Fagundes

    Montadoras nacionais? kkkkkkk. São todas multinacionais que só querem nos sugar até os ossos.

  • Cristiano Brito

    Exatamente Pedro, o Inovar-Auto surgiu na época auge dos importados e estavam incomodando as nossas carroças brasileiras, a Kia com o Cerato e Picanto, a Hyundai com o i30, Jac com J3. Vivemos em um Governo protecionista, em que não há livre comércio, há um cartel montado a décadas. A própria OMC acusa o Brasil de concorrência desleal devido ao desconto de IPI, que deveria ser temporário, mas acabou sendo introduzido no Inovar-Auto, sendo que sabemos que o Brasil não fabrica nem plásticos, muito menos Chips de circuitos impressos é tudo importado e montado aqui.

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