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Conjuntura | 18/08/2014 | 11h53

Inovar-Auto: único efeito prático é a proteção de mercado

Maior desafio da indústria ainda é alcance de competitividade

SUELI REIS, AB

Em quase dois anos após a divulgação do decreto que instituiu o Inovar-Auto, o único impacto real do novo regime automotivo tem sido a proteção do mercado interno de veículos, ainda sem efeitos reais sobre a competitividade da indústria nacional, analisou Letícia Costa, na palestra "A equação do planejamento 2015", na segunda-feira, 18, durante o Workshop Planejamento 2015, realizado em São Paulo por Automotive Business.

Com parte do programa ainda sem regulamentação, como as definições de implementação relacionados a pesquisa e desenvolvimento (P&D) e rastreabilidade, cujo decreto foi divulgado recentemente (leia aqui) e que deve começar apenas no último trimestre do ano, os reais resultados esperados pelo programa só devem surgir a partir de 2015.

“O benefício do Inovar-Auto é a abertura de uma janela de oportunidade e é essa janela que está sendo mal utilizada”, alerta Letícia. A consultora é incisiva ao afirmar que o grande desafio ainda é consolidar a competitividade, objetivo que deve passar obrigatoriamente pelas mesas de planejamento ainda este ano.

Sua avaliação contesta benefícios do Inovar-Auto para o setor de autopeças: “Apesar da proteção dada às montadoras, a cadeia de fornecimento vem sofrendo com queda de faturamento. A rastreabilidade pode mitigar essa situação, mas não está isenta de desafios”. Entre eles, Letícia destaca o tempo das homologações, que se sabe, no Brasil, não ocorrem com velocidade; a qualidade que se exigirá da cadeia a partir do impacto de uma retomada abrupta de volumes de compras de autopeças nacionais, além da capacidade em alguns segmentos.

Letícia apresenta um cenário de incertezas e insegurança macroeconômica, geradas especialmente com a baixa confiança do consumidor, fator que resulta no menor crescimento do consumo, principal fator na formação do PIB brasileiro, com participação entre 60% e 70%. A confiança dos empresários também segue em baixa: o efeito imediato é no menor volume de investimentos. A retração da economia passa ainda pela fraca recuperação da indústria e queda da balança comercial, além do agravante inflação, cujas oscilações ficam próximas ou acima do teto da meta.

“A reversão deste cenário fica mais difícil porque os consumidores relutam em pagar por preços mais altos. Alguma medida deverá ser tomada: a política de gerenciamento de preços para conter a inflação, que conduz a uma lenta atividade econômica, é insustentável”, indica.

Sobre a prática de preços para o setor de veículos, Letícia aponta que não há mais espaço para aumento significativo dos valores e que este é um momento de dificuldade de recuperação desses preços. Os números mostram que o valor real dos veículos vem caindo: no acumulado de janeiro a junho, os preços dos veículos subiram apenas 2,8% em média. No primeiro trimestre, esse aumento foi de 4%.

“Em 2015, a pressão de margem deve continuar e seu efeito será sentido em toda a cadeia.”

A consultora pondera que não há uma perspectiva ou motivos claros para uma mudança de cenário neste segundo semestre. Ela lembra que, diferente de retração global de 2009, os incentivos dados pelo governo ao setor não impactam tão positivamente agora como naquela crise. Ela acrescenta que em 2015 há possibilidade de modificações conjunturais, contudo, dependentes de mudanças atuais. “Se continuar como estão hoje, o resultado de 2015 pode ser até pior que o de 2014”. Além disso, neste contexto de alto grau de incerteza, há probabilidade de novas previsões econômicas dependentes de cenários eleitorais, no qual haverá necessidade de manter flexibilidade e rapidez na resposta às mudanças.

Para Letícia, as dificuldades geradas no caminho trilhado pelas habilitadas ao Inovar-Auto trazem preocupação não só com a execução de ações para cumprir as metas exigidas pelo programa, como provar o índice de localização e alcançar os níveis de eficiência energética, mas passa pela continuidade do programa no pós 2017, quando termina a vigência do decreto atual.

“O que temos visto até o momento é que este é um programa de proteção disfarçado de programa de inovação. Dificilmente o que já se chama de Inovar-Auto 2 terá os mesmos incentivos, então a pergunta que fica é ‘Como vou continuar protegendo o mercado sem competitividade?’. É necessário sim planejar, manter o equilíbrio entre o curto e o médio prazo, pensar em 2015 com planejamento e replanejamento, com vertente forte para a produtividade, qualidade e competitividade, que é a premissa do Inovar-Auto”, conclui.

ANFAVEA MAIS OTIMISTA

Diferente do olhar mais preocupante de Letícia, o presidente da associação dos fabricantes de veículos, a Anfavea, Luiz Moan, abriu os trabalhos do Workshop reafirmando a esperança da entidade em um segundo semestre muito melhor do que o primeiro. O dirigente admite que o mercado não conseguirá repetir os níveis de 2013, mas que os dados mostram uma franca recuperação das atividades comerciais do setor.

“Apesar de projetarmos uma queda de 5,4% das vendas este ano contra 2013, os negócios de julho acenderam 11,8% sobre junho, mostrando uma tendência de retomada. O segundo semestre deverá crescer a uma taxa de dois dígitos. Chegamos ao fundo do poço, mas daqui para frente, estamos em um ritmo de recuperação”, disse Moan.

Segundo o executivo, fatores como a sazonalidade histórica – vendas mais fortes no fim do ano -, maior número de dias úteis, normalidade nos financiamentos Finame PSI e índice de inadimplência em queda vão contribuir para desenhar um segundo semestre conforme projetado pelas fabricantes.

Moan admite também que o maior problema no momento é o ajuste nos estoques, que no fim de julho atingiu as 380 mil unidades, volume equivalente a 39 dias vendas. “Ainda teremos ações de ajustes nas linhas de produção até colocar os estoques em níveis adequados”, disse.

Para 2015, Moan afirma que ainda não há quaisquer números definidos em termos de volumes de vendas, produção ou exportação e que eles estão em avaliação. Contudo, coloca que será melhor que 2014, ainda que no primeiro quadrimestre apresente um cenário “extremamente complicado”, devido a reajustes da economia.

“Tenho a convicção de que a curva de retomada foi atingida.”



Tags: Inovar-Auto, competitividade, indústria, rastreabilidade, autopeças, Workshop Planejamento 2015.

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