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Conjuntura | 19/08/2014 | 17h24

Crescimento acanhado da economia é global

Projeções apontam 2014 e 2015 difíceis, mas com chances reais de retomada

SUELI REIS, AB

O crescimento mais acanhado da economia previsto para este e o próximo ano não é exclusividade do Brasil. Esta é a conclusão dos economistas Fabiana D’Atri e Leonardo Fonseca, representantes dos bancos Bradesco e Credit Suisse, que apresentaram suas análises macroeconômicas mundiais e as perspectivas para a conjuntura nacional durante o Workshop Planejamento Automotivo 2015, realizado por Automotive Business na segunda-feira, 18, em São Paulo.

“O PIB brasileiro deve beirar a estabilidade em 2014, mas não cai; enquanto isso as outras economias emergentes apresentam crescimento maior, exceto pela Rússia, cuja previsão é de queda”, aponta Fonseca.

De acordo com os números do Credit Suisse, o Brasil deve encerrar 2014 com leve alta de 0,6% sobre o ano passado, quando o País apurou avanço de 2,5%. China deve reportar crescimento de 7,3% - em 2013 a alta foi de 7,7% - e Índia cresce 6%, resultado 1,3 ponto porcentual acima do índice do ano passado. Na América Latina, o PIB deve ultrapassar o de 2013 em 1,4% contra crescimento de 2,5% do ano anterior, devido ao menor ritmo do Brasil e retração da Argentina.

“Não adianta colocar o Brasil no campo dos ‘não competitivos’. Cada um se recupera ao seu ritmo, à sua realidade. Não tem mercado fácil. Avaliamos que hoje, no Brasil, não há nenhum problema insolúvel”, crava Fabiana.

Os dois especialistas concordam que em 2015, o PIB nacional atinja alta de 1,5%, abaixo do crescimento de 4% projetado pelo FMI. Segundo a representante do Bradesco, 2015 tende a ser semelhante a 2003, ano não tão recente, mas com características marcantes: um primeiro semestre de ajustes e reformas com um segundo semestre de recuperação da confiança.

No contexto global, os Estados Unidos deve acumular em 2014 um crescimento de 2%, resultado 0,2 ponto porcentual abaixo do índice do ano anterior, esperando alcance de 3% para 2015. Para a economista, a visão positiva sobre a economia norte-americana esbarra em um crescimento global muito fraco. “Mas em algum momento, não sabemos qual, chegará a normalidade monetária dos Estados Unidos”, estima Fabiana.

Já a Argentina, que ora se apresentava como uma garantia de exportações para o Brasil, deve enfrentar retração de 3,5% este ano e de 1% em 2015. Apesar disso, o país vizinho continuará com maior peso das exportações de automóveis brasileiros, cuja participação fechou em 88% em 2013, e de autopeças, com 56%.

BALANÇO CONJUNTURAL

A palavra de ordem das duas apresentações é ‘desafio’, que resume a grande tarefa que o Brasil tem pela frente, a de encontrar caminhos para retomar taxas maiores de crescimento. Dados mostram que o PIB anual brasileiro dos últimos 13 anos ficou na média de 3,3%, com a maioria dos picos entre 2004 e 2010.

Para Fonseca, a política monetária aponta continuação dos ajustes da taxa Selic para 2015, facilitando a dinâmica da inflação, apesar disso, suas projeções indicam que o índice permanecerá acima da meta nos próximos anos, incluindo 2014, que deve fechar em 6,4%, e em 2015, cuja estimativa é de 6%. “A meta da inflação brasileira é das mais altas do mundo, mas redefinir esta meta é uma das alternativas para 2015, elevando para o índice real, de 6,5% e reduzindo nos próximos anos, com intervalos de tolerância para mais ou para menos que não ultrapassem os 2 pontos porcentuais”, registra.

Por sua vez, Fabiana lembra que os efeitos da política fiscal leva tempo: “É um canal muito lento, mas a estabilidade da Selic é a melhor opção neste momento”.

Os registros anuais mostram ainda que o crescimento dos investimentos acompanhou o do PIB, com oscilações e maior volatilidade. Entre 2014 e 2015, as estimativas do Bradesco mostram uma clara complicação, com queda de 5% neste ano e uma elevação de 3% ano que vem. O PIB do consumo deve registrar aumento de 1,5% nos dois períodos, enquanto as vendas no varejo ampliado (incluindo veículos e material de construção) fecha em 3,2% e 3,5%, respectivamente.

“A renda real segue firme, com 2% e 1,5% neste e no próximo ano, enquanto o reajuste do salário mínimo tende a apresentar taxas de crescimento mais baixo, mais lento, de 0,5% e 2,6%. Sobre a média da taxa de desemprego, observamos ajustes das folhas, nos quais os cargos são perdidos, mas não repostos. Entretanto, a taxa de demissão deve continuar estável”, estima Fabiana.

Nos setores econômicos, enquanto o agronegócio anda em paralelo, com crescimento previsto em 2% e 3% para 2014 e 2015, respectivamente, o PIB industrial deve recuar 1% este ano, voltando a subir em 2015, com 1,3%. A produção industrial acompanha a lógica, com queda de 1,5% em 2014 e retomada de 2,5% no próximo ano.

“Nossa pesquisa mensal com mais de 400 empresas aponta que o pior já ficou para trás. O porcentual de empresas que estão otimistas com as condições de seu negócio para os próximos seis meses voltou a subir, atingindo mais da metade dos pesquisados, apesar de a confiança do empresário ter caído no trimestre que encerrou em julho. O índice de confiança do consumidor também voltou a subir”, disse Fabiana.

A economista do Bradesco destacou o uso de energia elétrica, indicador utilizado para medir o ritmo das principais atividades econômicas. Segundo seus dados, houve um aumento de 7,2% no segmento comercial, enquanto o residencial subiu 6,7%, fechando o total em 3,8%, considerando os últimos doze meses encerrados em junho de 2014. O uso na indústria não variou no período verificado.

“Isso mostra o aumento do consumo das famílias, resultado da melhora da renda. O indicador mostra que o Brasil roda em velocidades diferentes.”

CENÁRIO PARA O SETOR AUTOMOTIVO

Apenas o segmento de comerciais leves deve apresentar crescimento nas vendas deste ano, asseguram as projeções do Bradesco. Enquanto suas entregas devem emergir 2% contra as do ano passado, ônibus apresentará a maior retração, de 12,5%, seguido pela de 11,5% dos caminhões e 9% dos automóveis, perfazendo um total de 6,8% de queda, para 3,51 milhões de unidades.

Contudo, a estimativa é mais animadora para os próximos anos, com elevação gradativa dos volumes e variação positiva de 2,6% ao ano. O mercado brasileiro só deve ultrapassar os 4 milhões de veículos em 2020.

“Vale lembrar que os investimentos anunciados no setor deverão acrescentar 1,5 milhão de unidades à capacidade instalada até 2016, sendo 530 mil unidades já este ano”, alerta.



Tags: Economia, PIB, inflação, vendas, Bradesco, Credit Suisse, Fabiana D’Atri, Leonardo Fonseca.

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