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Sem reciclagem, Brasil perderá exportações
Paulo Cardamone: Brasil age como uma ilha e perde competitividade. (Foto: Ruy Hiza)

Legislação | 08/09/2014 | 18h15

Sem reciclagem, Brasil perderá exportações

União Europeia exige veículos que tenham o mínimo de substâncias nocivas

CAMILA FRANCO, AB

O Brasil perderá exportações caso continue a desviar de políticas de inspeção e reciclagem veicular. A análise é de Paulo Cardamone, chief strategy officer da Bright Consultoria e Gestão e consultor executivo da IHS Automotive, que participou do II Workshop Os Novos Desafios da Legislação Automotiva, promovido por Automotive Business na segunda-feira, 8, em São Paulo.

Cardamone explica que países da União Europeia já pensam na reciclagem desde a concepção dos veículos. “Eles exigem que os automóveis produzidos a partir de 2016 tenham o mínimo de substâncias nocivas à saúde e meio ambiente justamente para que se enquadrem nos padrões de reciclagem. Os nossos veículos, ainda distantes desta realidade, podem ser barrados se não estiverem adequados às necessidades destes mercados”, alerta o executivo.

Os prejuízos de não se ter inspeção e nem reciclagem já são sentidos por aqui, no mercado nacional. “O Brasil carece de programas que o igualem aos padrões mundiais. Vivendo como uma ilha, o País tem dificuldade para evoluir. Sofre por não ter desenvolvido transportes de massas e também porque não conseguir dar fim a veículos em más condições de uso. Perde-se oportunidade de crescimento e eficiência”, aponta.

Segundo o executivo, enquanto países como Alemanha, França, Reino Unido e Espanha inspecionam a cada ano cerca de 22 milhões de veículos de frotas de 45 milhões, o Brasil fiscaliza apenas 1 milhão de seus 37 milhões de carros em circulação.

Na Europa, há duas etapas de reciclagem, conta Paulo Cardamone. A primeira retira os líquidos dos veículos e outra sucateia o automóvel por inteiro. “A estrutura é muito avançada. Na França, há até linhas de desmontagem, com sistemas que retiram componentes dos carros automaticamente. O país tem tentado proibir o repasse de peças de veículos acidentados e que possam representar risco de segurança. Por lá, evita-se o mercado de interesse. Quem desmancha não tem a função de vender os componentes, o que assegura a legalidade.”

Também ajuda todo o processo de reciclagem um sistema virtual de rastreabilidade. Desenvolvido pelas montadoras em parceria com fabricantes de autopeças e a HP, ele funciona como um banco de dados. Todos os fornecedores, cerca de 130 mil empresas do mundo (a maioria instaladas na Europa), reportam a configuração de cada autopeça e os materiais que foram usados para produzi-la. Seu grande objetivo é determinar o fluxo de materiais usados em cada componente veicular para, então, saber se ele poderá ser reciclado.

Não há grandes mistérios para começar um programa de reciclagem do tipo no Brasil, avalia Cardamone. “Não precisamos reinventar a roda. Basta se inspirar nas melhores práticas adotadas lá fora. Além disso, já temos a lei de destinação de resíduos sólidos, mas que precisa ser melhorada e atualizada, seguindo padrões europeus, e de forma a enquadrar os automóveis.” Mas Cardamone ressalta que antes de reciclar é preciso ter um programa de inspeção veicular. “É a base para conseguir identificar os carros com más condições de uso.”

A atual Lei dos Desmanches, de âmbito federal, é vista pelo consultor como inadequada. “É errada do ponto de vista técnico porque não leva em conta as peças de carros acidentados que já existem no Brasil. Há milhares de oficinas com peças usadas. Se uma delas é credenciada para participar do programa de reciclagem, pela lei, significa que todo o seu estoque estará disponível para o reuso. Na verdade, cada peça deveria ser analisada, uma a uma, por questões de segurança.”

Cardamone também é contra legislações isoladas por estados. “Este é um problema de ordem federal. Um veículo dificilmente circula apenas em um Estado.” Ele salienta que é preciso pensar também na localização dos postos de desmontagem e reciclagem. “Não adianta concentrá-los em grandes centros, pois a maioria dos carros em má condição de uso circula em cidades do interior. Isso deve ser levado em conta por causa dos custos com logística.”

Cardamone resume sua visão sobre o atraso do Brasil em relação à inspeção e reciclagem: “Não faltam exemplos mundo, mas coragem para implementar a lei e de fato inspecionar. Do jeito que está não dá para ficar. Qualquer governo que assumir o País deve colocar estes temas em prioridade com o intuito de viabilizar a mobilidade urbana. Tudo isso já existe lá fora há bastante tempo e deveria ter sido adotado desde ontem por aqui.”



Tags: Inspeção veicular, reciclagem, renovação, veículos, Paulo Cardamone, legislação.

Comentários

  • Daniel Bassoli Campos

    Parabenizo o Cardamone pela análise sobre esta fase tão incipiente do ciclo de vida dos veículos automotores brasileiros: o período pós-vencimento da garantia de fábrica. Infelizmente o nosso país vive um contrasenso entre os graves problemas de mobilidade e falta de políticas para redução de acidentes e impactos ambientais. E nada é feito concretamente relativo à infraestrutura e educação no trânsito, nem quanto à fiscalização. A cultura da manutenção pode ser fomentada pela ferramenta "Inspeção veicular", consagrada mundialmente. Sequer conhecemos estado da nossa frota. A grande questão é: se a inspeção veicular (segurança e ambiental) e um programa robusto de reciclagem veicular só nos trazem benefícios, porque não acontecem? Falta liderança para a discutirmos definitivamente os assuntos, ou as medidas são tão antipopulares de modo a impedir a sua implementação?

  • João Timotheo

    Enquanto existirem interesses políticos desenfreados como assistimos a gestão Haddad na cidade de São Paulo que jogou no lixo um programa de saúde pública, seguiremos na contramão dos fatos.

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