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Rota 2030 está mais para Rota 2020
Letícia Costa critica duramente as propostas do Rota 2030 (Foto: Luis Prado)

Indústria | 23/08/2017 | 19h19

Rota 2030 está mais para Rota 2020

Letícia Costa vê pouco avanço na configuração da nova política industrial

SUELI REIS, AB

A maneira como está configurada a nova política industrial Rota 2030, que substituirá o Inovar-Auto a partir de 2018, apresenta falhas e limita a indústria brasileira com uma visão apenas de manufatura, pouco voltada para as novas tendências globais. A dura crítica foi feita por Letícia Costa, sócia-diretora da Prada Assessoria, durante o Workshop Planejamento Automotivo 2018, realizado por Automotive Business na terça-feira, 22, no Sheraton WTC, em São Paulo.

“Está mais para Rota 2020. O Rota 2030 é insuficiente para que o Brasil possa de fato almejar ser relevante e alavancar a indústria. O Brasil está piorando em competitividade e há uma dificuldade de enxergar como o Rota 2030 é algo que vai de fato auxiliar para o País ter um posicionamento mais destacado e compatível com seu potencial.”

Letícia defende que os assuntos relacionados ao Rota 2030 têm objetivos potencialmente conflitantes e ao mesmo tempo impactos pouco abrangentes. Para ela, a indústria necessita de empresas novas porque ainda está baseada em companhias que não têm capacidade competitiva, o que atrasa o processo de avanço da indústria como um todo. Atividades básicas ainda fomentadas por incentivos fiscais e tratar de forma incorreta questões importantes como segurança veicular e eficiência energética também são apontados como fatores conflitantes na nova política.

“Não faz sentido conceder incentivos para pontos em que apenas cumprir a legislação já seria suficiente”, afirma, referindo-se a obrigatoriedades de novos equipamentos de segurança, por exemplo."Para isso bastaria formular a lei e que ela fosse cumprida", aponta.

FALTA VISÃO DE TENDÊNCIAS

Outro capítulo não muito claro no Rota 2030 na visão de Letícia é o rumo que se vai dar para carro híbrido e elétrico. Em sua colocação, afirma que o etanol é importante como matriz energética, mas apenas no Brasil, é um produto que não se pode exportar, salvo se for para célula de combustível, o que ainda está distante. “Há pouco entendimento e legislação de como se vai incentivar o híbrido e o elétrico; o Brasil não tem visão clara do que fazer com powertrain alternativo.”

Além de eletrificação, outras grandes tendências da indústria – que não estão tão distantes, como carro autônomo e digitalização – parecem não ter espaço no Rota 2030. “Há países que já estão se posicionando, como a Alemanha, que está tirando os combustíveis fósseis da jogada. O Brasil está perdendo a oportunidade de se posicionar neste momento de disrupção”, afirma. “É um impacto limitado, muito restrito e local que não trará a competitividade tão esperada.”

Nesse âmbito, trazer os novos players de um mercado totalmente diferente, que trata de digitalização, conectividade, software, big data também é um desafio. Ela cita uma pesquisa que indica que há US$ 670 bilhões de valor em jogo para os players automotivos e mais US$ 3,1 trilhões de benefícios sociais como resultado da transformação digital da indústria até 2025. A mesma pesquisa aponta que o Brasil só vem piorando seu índice competitivo diante dos países menos competitivos no mundo.

Segundo Letícia, o ideal é debater o posicionamento que o País quer ter e pensar em como será o aftermarket nesta nova era. “O Brasil não escolheu ainda onde vai fazer suas apostas; o papel que quer ter não transparece. Dessa forma, sem competitividade, seremos completamente defasados e limitados ao mercado interno. Não é vendendo mais carros para a Argentina que se torna global, com todo respeito ao país vizinho. Precisa mirar mercados grandes. O Mercosul tem que mirar a comunidade europeia.”

Por fim, ela alerta as empresas que, embora 2018 possa ser um ano mais previsível, vale ressaltar que alguns fatores como a volatilidade cambial, eleições e um crescimento moderado ainda vão ditar o curto prazo. Possivelmente só em 2019 é que o mercado brasileiro deve apresentar crescimento mais sustentável em termos macroeconômicos. Contudo, a melhora desses fatores não garantem a competitividade esperada para o longo prazo, que está chegando.

“Se não parar para analisar, será tarde, porque muitas decisões já terão sido tomadas. Espero que 2018 seja realmente mais tranquilo, mas que não fique só olhando para o longo prazo. Não que o Rota 2030 não deva ser feito, mas não devemos parar neste formato. Precisa de programas mais sensatos que tenham mais impactos. Para o longo prazo, precisa eleger prioridades para se tornar mais competitivo, permitindo a competição interna em toda a cadeia”, finaliza.



Tags: Rota 2030, Letícia Costa, política industrial, Workshop Planejamento 2018.

Comentários

  • Christopher Prazeres

    Muito Interessante os pontos levantados, acredito também que estamos longe dos países desenvolvidos, tanto em produtos quanto em manufatura dos mesmos, e simplesmente novas "rodadas" de incentivos serão somente de fato uma extensão do Inovar e não trarão benefícios competitivos ao Brasil, sem uma mudança grande no nosso paradigma de modelo de mercado automotivo, nunca seremos fortes o bastante para competir com veículos Europeus, Chineses e Americanos. Me parece uma lei bastante preguiçosa por assim dizer...

  • Dado

    É uma lei que tenta garantir que, ainda que pouco eficientes, as montadoras estabelecidas aqui (que não são nacionais) possam explorar o mercado mantendo a ineficiência e as remessas as matrizes Eles não querem competidores por lá, certo!? Falar em exportação e etanol no mesmo texto é inconcebível tamanha incoerência. Por isso é claro tentativa das ineficientes se protegerem nesse nicho. Mas em termos de nação, só nos isola do mercado global.

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