Automotive Business
  
ABLive

Notícias

Ver todas as notícias
Mercedes-Benz encerra de novo produção de automóveis no Brasil
A fábrica de automóveis da Mercedes-Benz de 140 mil m2 em Iracemápolis: produção encerrada

Indústria | 17/12/2020 | 17h00

Mercedes-Benz encerra de novo produção de automóveis no Brasil

Operação na fábrica de Iracemápolis foi interrompida; empresa busca solução para 370 empregados

PEDRO KUTNEY, AB

| Texto atualizado e retificado em 18/12/2020 às 12h00 quanto às informações do novo campo de provas que será construído por Mercedes-Benz e Bosch em Iracemápolis até o fim de 2021

Lançando mão do eufemismo que “pretende otimizar sua rede global de produção”, a Mercedes-Benz comunicou na quinta-feira, 17, o encerramento da produção de automóveis na fábrica de Iracemápolis, inaugurada em 2016 no interior paulista com investimentos informados de R$ 600 milhões. É a segunda vez que fabricante desiste de produzir carros no País, dez anos depois de converter a planta de Juiz de Fora (MG) para fazer caminhões.

Ao contrário do que aconteceu na unidade mineira, as instalações no interior paulista ainda não têm seu destino definido. “A Mercedes-Benz analisa diferentes possibilidades para o futuro da fábrica de automóveis de Iracemápolis”, diz a empresa em comunicado. A montadora afirma que por enquanto não vai demitir nenhum dos 370 empregados diretos da planta, e que irá “buscar alternativas”, incluindo um programa de demissão voluntária (PDV) e outras soluções que promete avaliar em breve.

A fábrica também empregava trabalhadores terceirizados. Era o caso da ZF, que desde o início da operação fornecia componentes e mão-de-obra com 15 funcionários dedicados à montagem do powertrain (motor, transmissão e eixos) dos Mercedes produzidos em Iracemápolis. A ZF informou que irá tentar reabsorver esses empregados em outras plantas da empresa, conforme a conveniência dos colaboradores e as necessidades de cada unidade.

A Mercedes informou ainda que a decisão de fechar a linha de produção de automóveis em nada afeta a operação paralela do campo de provas para desenvolvimento de veículos pesados, que a Mercedes inaugurou em 2018 no mesmo terreno da fábrica, com investimentos de R$ 90 milhões. No fim de 2019 a empresa anunciou novo investimento de R$ 70 milhões em conjunto com a Bosch para construir no mesmo local um dos maiores centros de testes veiculares do Hemisfério Sul. As obras das novas pistas estavam previstas para começar este ano, mas por causa da pandemia foram reagendadas e estão previstas para iniciar em março próximo. Segundo as equipes de engenharia de ambas as empresas que seguem trabalhando no projeto, o objetivo é concluir as instalações até o fim de 2021, ainda dentro do cronograma proposto.

BAIXA PRODUTIVIDADE



Na quarta-feira, 16, a fábrica de Iracemápolis produziu seu último carro, um sedã Classe C. O outro modelo também fabricado na unidade, o SUV compacto GLA, teve a produção encerrada em setembro passado, já em antecipação dos planos de interromper a operação. A Mercedes não informa quantos automóveis foram montados na planta desde a inauguração em 2016, mas no fim de 2018 divulgou o marco de 20 mil veículos fabricados, número que somado aos cerca de 10 mil GLA e Classe C vendidos nos últimos dois anos totaliza 30 mil em quatro anos de atividades – volume que diluído ao longo do período não chega sequer à metade da capacidade técnica instalada de 20 mil/ano.

A fabricante credita ao baixo desempenho, sem horizonte visível de melhora, a decisão de encerrar a produção, segundo explica no comunicado Jörg Burzer, membro da diretoria global da Mercedes-Benz AG responsável por produção e cadeia de suprimentos: “A situação econômica no Brasil tem sido difícil por muitos anos e se agravou devido à pandemia de Covid-19, causando queda significativa nas vendas de automóveis premium. Ao longo do nosso processo de transformação, continuamos a reestruturar a nossa rede de produção global. Aumentar nossa eficiência, otimizando a nossa capacidade de utilização, é um facilitador importante. Por isso, decidimos encerrar a produção de automóveis no Brasil”, afirma. “Nosso primeiro objetivo agora é encontrar uma solução sustentável para os colaboradores dessa unidade”, acrescentou.

Apesar de sempre dizerem que focam suas decisões e aportes de capital no horizonte de longo prazo, os investimentos da Mercedes e outras montadoras que anunciaram a construção de fábricas parecidas na mesma época foram motivados por contingências de curto prazo, baseados na expansão momentânea do mercado de veículos premium no País diante da decretação das regras do Inovar-Auto, que vigoraram de 2012 a 2017 com a sobretaxação em 30 pontos porcentuais sobre o IPI de carros importados, para incentivar (ou forçar) a produção nacional.

Assim, aproveitando um regime especial do Inovar-Auto dedicado à fabricação de modelos premium em baixos volumes, a Mercedes anunciou em 2013 que retomaria a fabricação de automóveis no País – após a fracassada empreitada iniciada em 1999 em Juiz de Fora, onde ergueu fábrica para produzir até 60 mil unidades/ano e mal chegou a um terço dessa capacidade com a produção do compacto Classe A (1999-2005) e somente para exportação dos sedãs Classe C (2001-2007) e CLC (2007-2010), até converter a planta para produzir caminhões a partir de 2012.

OUTRAS FÁBRICAS EM SITUAÇÃO ARRISCADA



Na mesma época e com quantias aplicadas muito parecidas, assim como a Mercedes, BMW, Audi e Jaguar Land Rover também aproveitaram o regime especial do Inovar-Auto para investir em fábricas de veículos premium no Brasil, com baixos volumes de produção que pareciam insustentáveis para qualquer unidade industrial, mas que pareciam não incomodar a direção global das empresas como agora, no momento em que a pandemia encurtou o caixa e as corporações saíram à procura de desperdícios para cortar.

Outro fator que está pesando contra a produção nacional de veículos premium é a dívida calculada em R$ 289 milhões em créditos tributários que o governo deve às três fabricantes alemãs (Audi, BMW e Mercedes-Benz) que se habilitaram ao Inovar-Auto e investiram em fábricas no Brasil. O montante é equivalente à sobretaxação de IPI recolhido pelas empresas na importação de veículos durante a vigência do Inovar-Auto, que o governo havia prometido devolver após o início da produção nacional dessas marcas, mas nunca devolveu.

A Audi é outra que também paralisou este mês e pela segunda vez a produção nacional em São José dos Pinhais (PR), onde desde 2015 montava o sedã A3, e declarou que receber os créditos que tem com o governo irá pesar significativamente para voltar a fazer carros no Brasil (leia aqui). Neste caso, a paralisação é suavizada pelo fato de a fábrica ser compartilhada com a Volkswagen, empresa do mesmo grupo, e assim a planta segue produzindo modelos VW.

A Jaguar Land Rover não comunicou se também pretende encerrar atividades em Itatiaia (RJ), onde em 2016 iniciou a montagem do Evoque e do Discovery Sport logo na sequência, mas desde o ano passado os volumes, que sempre foram muito baixos, definharam ainda mais. A fabricante vem reduzindo a produção na unidade, que este ano de janeiro a novembro caiu quase 40% com apenas 1,5 mil Discovery Sport montados na unidade, bem distante da capacidade de 24 mil/ano.

A BMW parece melhor estabelecida na fábrica de Araquari (SC), apesar de nunca ter chegado nem à metade de sua capacidade técnica de 36 mil unidades/ano. Hoje são montados na planta os sedãs da Série 3 e os SUVs X1, X3 e X4 e de janeiro a novembro os 7,7 mil carros produzidos representaram até crescimento de 6,3% em relação ao volume dos mesmos meses de 2019. Recentemente, a empresa divulgou que estuda novos projetos para a fábrica, incluindo a montagem de modelos híbridos (leia aqui).



Tags: Mercedes-Benz, carros, produção, fábrica, Iracemápolis, investimento, trabalho, emprego.

Comentários

  • AntonioEustaquio

    Algoestá profundamente errado com a política passada e atual em relação ao setor automotivo brasileiro! De longe me parece haver um vazio de competência para equacionar o segmento e de perto isso se confirma! Falta um mae$tro para gerir adequadamente esse segmento da economia preponderante para o sucesso do país! O Brasil ocupa uma posição destacada no top 10 mundial no setor automotivo! Pessoalmente creio que com apoio do governo, justo, poderia-se ir para um nível de produção nacional de 5.000.000 de unidades, para atender mercado interno e externo!! Estratégia e Táticas deveriam ser estudadas, planejadas e implementadas, evitando soluções de “soluços”, inconsistentes e sem pilares fiáveis de sustentação perene!

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

ABTV

AB Inteligência