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Análise especial
COMPRAS AUTOMOTIVAS 2008
Prepare seu coração
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Com as linhas de produção aceleradas, montadoras e empresas de autopeças tentam se acertar para manter um ritmo quase frenético. Há falta de componentes, preços em alta, carros incompletos, trabalho no final de semana, falta de tempo para manutenção e, afinal, riscos e muitas oportunidades. Tudo como o setor nunca viu. Leia o artigo de capa do guia impresso Automotive Busines, preparado pelo editor Paulo Ricardo Braga (foto).
Paulo Ricardo Braga

Maurício Martins,
diretor de compras da PSA Peugeot Citroën |

Vagner Galeote,
diretor de compras da Ford |

Letícia Costa,
presidente da
Booz & Company |

Osias Galantine,
diretor de compras do Grupo Fiat na América Latina |
Se você é um profissional ligado à área de suprimentos automotivos, já descobriu que 2008 pode ser um ano dramático. “Teremos muito stress pela frente nas relações do supply chain” – define Maurício Martins (foto), diretor de compras da PSA Peugeot Citroën, interpretando uma expectativa comum na indústria automobilística. Como ele, a maioria das empresas está se preparando para uma verdadeira batalha no abastecimento das linhas de montagem.
“Há fornecedores fazendo loucura para manter de pé produção de autopeças e até negligenciando a manutenção. O trabalho no final de semana se tornou rotina” – adverte Vagner Galeote (foto), diretor de compras da Ford. Para ele, não há falta crônica de componentes, mas persiste um equilíbrio precário, no fio da navalha. “Não perdemos produção, mas estamos no limite” – diz, apontando como sinal preocupante o acúmulo de veículos incompletos nos pátios das montadoras. “De quase todas” – garante.
A situação pode ficar crítica se o comprador da montadora ou da empresa de autopeças não tiver volume de produção significativo e poder de fogo. E não é preciso faltar muita coisa na prateleira para a linha de montagem parar. Apenas um componente ou uma falha logística pode por tudo a perder – como os pneus, que começavam a escassear no final de março.
Ninguém se esquece do trauma de 2003 e 2004, quando faltaram pneus e parte dos carros saiu da fábrica sem estepe – quando saiu. Com o mercado aquecido, o varejo voltar a concorrer com as montadoras no abastecimento e há sabidas restrições de capacidade no mercado.
Junto com pneus e artigos de borracha, o aço estará em posição de destaque nas negociações de todos os players da cadeia automotiva ao longo do ano. Se não houver surpresa, até o final do semestre as usinas de aço cravarão um novo aumento, equivalente ao praticado no primeiro trimestre. Os dois devem somar cerca de 19%.
Embora fosse previsível uma nova cotação do aço, com o avanço nos preços do minério, o setor já antecipa dificuldade nos repasses e queda de competitividade nas vendas externas. Mais: já se prevê restrições no fornecimento de algumas especificações de aço. Há carência à vista também em alumínio, fundidos, ferramentas, estampados e sistemas mecânicos.
Enquanto montadoras e seus principais fornecedores têm recursos para alterar a matriz de suprimentos, o problema se agrava mais abaixo na cadeia, com o Tier 2 e 3. “Montadoras e sistemistas vão ter de retomar o trabalho iniciado há cerca de três anos para fortalecer esses elos frágeis” – assegura Galeote.
UMA MONTANHA DE DINHEIRO
O total de compras produtivas das montadoras estará ao redor de R$ 60 bilhões este ano, pelas estimativas de Letícia Costa (foto), presidente da Booz & Company.
O diretor de compras do Grupo Fiat na América Latina, Osias Galantine (foto), concorda com essa projeção. Sua equipe, que faz compras consolidadas para automóveis, motores, caminhões e máquinas agrícolas e de construção, vai adquirir nada menos que R$ 12,5 bilhões em materiais e componentes este ano.
A Ford também exibe números expressivos. Depois de comprar US$ 3 bilhões em componentes brasileiros e argentinos em 2007, elevou o budget para US$ 3,9 bilhões neste exercício, aos quais soma outros US$ 400 milhões em importações. Parte das aquisições no Exterior vem de países de baixo custo. A montadora tem estimulado os próprios parceiros sistemistas a buscarem alternativas de suprimento no estrangeiro. “É uma forma de preservar nossas parcerias” – explica Galeote.
O setor calcula que 75% da base de fornecedores é comum para todas as montadoras. Assim, quando a coisa aperta, todos batem nas mesmas portas para resolver os problemas de suprimento. Se a pressão sobre os fabricantes de autopeças é grande, o mesmo vale para empresas de serviços, ferramentaria e logística.
Embora a Anfavea antecipe um crescimento da produção na casa dos 8,9% este ano, o setor já está escaldado com os erros nas estimativas do ano passado e vive uma situação parecida: os indicadores quentíssimos sinalizam novos recordes. A PSA fala em avanço de 40% na produção no Brasil e Argentina, chegando a 300 mil unidades em 2008. O ritmo é seguido por muitos fabricantes.
Para equilibrar o jogo da oferta e demanda, montadoras e empresas de autopeças vêm negociando elevações de capacidade das instalações produtivas desde meados do ano passado. Boa parte dos novos investimentos acertados deve amadurecer até julho, eliminando alguns pontos fracos do supply chain.
A Anfavea anuncia que o setor tem capacidade para montar 3,85 milhões de unidades/ano, mas é preciso descontar cerca de 15% desse total por questões logísticas e desajustes nas linhas. Assim, a indústria automobilística estaria pronta para fazer até 3,6 milhões de unidades este ano. “Se houver falta de capacidade, o problema maior estará do lado das autopeças” – diz Letícia.
AS COMPRAS DOS MINEIROS
Em Betim, MG, está o quartel general das compras do Grupo Fiat na América do Sul. A iniciativa de somar esforços para abastecer as empresas do grupo foi inspirada no Fiat Group Purchasing, a unidade global de compras da corporação comandada por Gianni Coda. O responsável por essa sinergia na região é Osias Galantine.
“Estamos trabalhando 7x24” – comenta Galantine, referindo-se ao fato da unidade de Betim estar a todo vapor e com dificuldade para organizar a manutenção sem atrasar os objetivos. Com a corda esticada, há uma corrida total aos suprimentos. Galantine entende que se a demanda não explodir, haverá um alívio mais adiante quando os investimentos dos fornecedores também fizerem efeito, como a instalação de prensas de 600 a 1000 toneladas.
Como as demais montadoras, a Fiat usa todos os artifícios para abastecer as linhas de montagem, desde trabalhar em produtividade e qualidade até buscar sobras em operações globais, como na Turquia, Polônia ou China, onde 110 pessoas trabalham no escritório de global sourcing. Há outro centro de compras em instalação também na Índia.
Dos R$ 12,5 bilhões que serão adquiridos pelo Grupo Fiat, R$ 8,5 bilhões caberão a automóveis, R$ 1 bilhão para a operação de caminhões da Iveco e R$ 2 bilhões para as máquinas agrícolas e de construção da CNH. A FPT Powertrain Technologies, responsável pelos motores flex e diesel, aplicará R$ 1 bilhão. Outros R$ 300 milhões serão reservados para importações. As compras da Ásia ainda são pequenas, mas componentes de menor custo logístico começam a ficar atrativos, como rodas de liga leve e pneus (‘de alta qualidade’ – garante Osias). Há ainda outro R$ 1,5 bilhão destinado a serviços logísticos e materiais não produtivos.
O budget do Grupo Fiat para compras locais em 2007 foi 20% menor do que o deste ano, atendendo a produção de 717,55 mil unidades no Brasil. Este ano os suprimentos devem permitir a elevação de capacidade na Argentina para 150 mil unidades/ano. Em conjunto, as fábricas dos dois países devem chegar a 1 milhão de unidades/ano, meta prevista para 2010 que provavelmente será alcançada em 2009.
Repetindo o trabalho de ‘mineirização’ feito pela Fiat Automóveis para reunir os fornecedores próximo a suas instalações em Betim, a Iveco procura construir também seu pólo ao redor da fábrica de Sete Lagoas, MG. “A idéia é obter ganhos logísticos e maior agilidade” – diz o diretor de compras da montadora, Lúcio Bicalho. A marca promove também um programa de nacionalização que avançará até o final de 2009, centrado em componentes metal-mecânicos, powertrain, eixos, produtos químicos, borrachas e plásticos.
COMPRAS DA PSA CRESCEM 70%
O grupo PSA Peugeot Citroën deve comprar este ano no Mercosul € 1,35 bilhão em materiais e componentes para suas linhas de montagem no Brasil e na Argentina. O valor representa quase 70% de aumento em relação às aquisições do ano passado, que foram de € 800 milhões na região. Outros € 500 milhões vão ser adquiridos no supply chain europeu para atender a produção. Cerca de 150 mil unidades serão montadas em cada fábrica, no Brasil e na Argentina (o total foi de 212 mil unidades em 2007).
“O crescimento é extraordinário e estamos empenhados em motivar os fornecedores” – diz Martins, que tem trabalhando na avaliação de capacidades e definição de investimentos.
“O mercado precisa acreditar para avançarmos juntos” – afirma. Para ele há uma escassez de muitas commodities, aqui e lá fora – aço, alumínio, plástico, borracha, enquanto diversas montadoras disputam a preferência dos mesmos fornecedores. A preocupação com a cadeia estende-se também a ganhar produtividade e manter a qualidade – o que nem sempre é fácil em épocas de grande crescimento.
O desafio das máquinas agrícolas e de construção
Na CNH, que fabrica máquinas agrícolas e de construção, as compras estão pulverizadas por mais de 60 mil itens ativos, adquiridos junto a 700 fornecedores, dos quais metade são estrangeiros e representam 20% das compras. As compras para abastecer as fábricas de Curitiba (tratores e colheitadeiras agrícolas), Contagem (máquinas de construção) e Piracicaba (colhedoras de cana-de-açúcar e de café, plantadeiras e pulverizadores) devem crescer cerca de 80% este ano, chegando próximo de R$ 2 bilhões. No que toca aos gargalos de materiais diretos, as principais restrições encontram-se em pneus, rolamentos, fundidos e engrenagens. O motivo principal para a falta de materiais nos quatro segmentos, segundo o diretor de compras Ricardo Ribeiro, é a capacidade de produção esgotada. “A crise de oferta é mundial. Não adianta apelar para a importação. Os investimentos são de longo prazo e alguns segmentos são mais reticentes quanto à decisão de investir em expansão de capacidade para atendimento de mercados instáveis como o agrícola” - garante. É o caso da indústria de pneus, cujos investimentos são tímidos e muito aquém da necessidade dos fabricantes nacionais.
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Sindipeças avalia as capacidades
“Não há sinais de gargalos significativos na cadeia de produção automotiva” – assegurou o presidente do Sindipeças, Paulo Butori (foto), no final de março. Ele admite, no entanto, que a produção está no limite. A entidade acompanha de perto o supply chain, recolhendo informações freqüentes dos trezes sindicatos do segmento, que incluem fundidos, forjados, borracha, vidro, plásticos e outros materiais. O Sindipeças mantém uma linha direta também com as montadoras para checar os novos investimentos e levar as informações consolidadas às bases de fornecedores.
Se não há falta de componentes, por que há filas de espera nas concessionárias? Para ele, isso se deve a limitações das linhas de produção dos veículos mais procurados. “Além disso, aumentos de capacidade não acontecem imediatamente” – afirma.
A elevação expressiva das importações tem acendido sinais de alerta no sindicato de autopeças, já que a relação cambial abriu as portas às compras externas. “A limitação natural para a invasão estrangeira são os fatores logísticos” – explica. Ele garante que os problemas na infra-estrutura são preocupantes e que o setor não tem como repassar o novo preço do aço. |
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