Automotive Business
  
News Mobility Now

Opinião | Valter Pieracciani | Inovação

Ver todas as opiniões
Valter Pieracciani

18/01/2021

O motor da emoção

Nem mesmo os melhores profissionais do mundo são capazes de construir algo exponencial sem objetivos coletivos

Em dezembro, quando a pandemia voltou a nos assombrar com força total, não trouxe apenas más notícias. Nós, que nos ocupamos com os desafios da mobilidade, comemoramos o histórico momento de batismo e lançamento ao mar do submarino brasileiro Humaitá (S41). O Humaitá é o segundo dos cinco projetos do ProSub, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha do Brasil. Outros três serão lançados nos próximos anos, sendo o último deles o Álvaro Alberto, com propulsão nuclear. Temos, portanto, razões para sentir orgulho e senso de realização, ingredientes que, provavelmente, fazem bem para a imunidade.

No entanto, mais uma vez, subfestejamos (sem trocadilhos) essa gloriosa conquista da engenharia e tecnologia brasileiras. Pouquíssima exposição na imprensa, menos gente ainda falando do tema. Mesmo entre os engenheiros, cujo dia foi comemorado em 11 de dezembro, pouco se manifestaram.

Pois eu me manifesto.

Todos sabemos o quanto o programa espacial americano contribuiu, na década de 1960, para o avanço da inovação. A união dos melhores cientistas americanos em torno de um objetivo comum, alcançar a Lua, desencadeou um movimento paralelo, tão ou mais importante que o principal. Uma revolução pela inovação. Desse movimento surgiram novos materiais, sistemas e, espetacularmente, os computadores, que mudariam para sempre nossas vidas.

De maneira análoga, as centenas de engenheiros, técnicos e gestores da Marinha do Brasil que compõem a força de trabalho desenvolvendo os submarinos brasileiros estão reunidos na Amazul, Amazônia Azul Tecnologias de Defesa. Guardadas as proporções e o momento, eles são a nossa NASA do mar. A eles nossos respeitos e aplausos.

A comparação entre os esforços para ir à lua e a construção do submarino brasileiro poderia ser outra. Nos dois casos, um forte propósito alavancou exponencialmente os resultados. Isso mesmo! Quando se trata de inovar, se houver um objetivo maior, ele ligará os turbocompressores da capacidade de trabalhar e criar de cada componente do grupo e, por consequência, o desempenho saltará de patamar.

Na NASA era a soberania nacional na corrida pela conquista do espaço, contra a Rússia e o comunismo. No ProSub, é a defesa das águas territoriais brasileiras, cerca de 5,2 milhões de quilômetros quadrados plenos de riquezas naturais e minerais, como o pré-sal, que apenas o Brasil pode explorar economicamente.

Tive oportunidade de entrar no submarino nuclear Álvaro Alberto (SN-10). É um trabalho impressionante, capaz de acender a autoestima de qualquer engenheiro brasileiro. No interior daquela máquina fantástica, entre tubos e motores em um espaço apertado, meu coração imediatamente disparou. Não sei se era emoção ou claustrofobia só de pensar que os submarinistas chegam a ficar quarenta dias submersos, sem sinal de celular nem qualquer outra conexão.

Quando o submarino imerge, ele se isola. Começam então a funcionar equipamentos que, com base no último sinal captado e nos deslocamentos, calculam a localização da embarcação. Intrigado, perguntei a um dos almirantes como era ficar submerso tanto tempo. Ele sorriu para mim e respondeu: “Valter, tem tantas tarefas a cumprir quando estamos lá embaixo que o tempo passa voando”. Não é uma equipe normal, concorda?

Assegurar um objetivo maior e comum a uma equipe é papel do líder, e não é nada fácil no momento em que vivemos. As pessoas estão separadas e dispersas. Não temos muitos dos instrumentos de persuasão que havia no trabalho presencial. Nesse cenário, o objetivo precisa ser ainda mais estimulante e a liderança convincente. Sem que isso tenha sido introjetado pelos inovadores, mesmo que tenham em seu time as melhores cabeças das melhores escolas, não vai sair dali nada de excepcional. O motor da emoção, que faz toda a diferença quando se trata de superar desafios e criar, estará desligado.

Quando CEOs contam suas histórias sobre gestão da inovação, não costumam exaltar a capacidade de engajar para um objetivo maior. No entanto, foi essa capacidade que transformou o mundo. Líderes visionários, de Copérnico a Elon Musk, tinham tal característica de sobra, mas foram, e ainda são, julgados pelos colegas e pela sociedade como malucos, em uma clara demonstração de inveja.

Pense nisso. E você? Está conseguindo mobilizar e guiar sua equipe rumo a uma terra prometida e fazer com que ela dê o melhor de si?

________________________________________________________________

Valter Pieracciani é sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas, consultoria especializada em inovação, e embaixador do Automotive Business Experience, o #ABX20, que acontece entre 9 e 13 de novembro.

Comentários

  • AngeloRodrigues Goldoni

    ParabénsValter pelas tuas palavras, muito bem colocadas. Viva a Engenharia Brasileira. Um feito histórico a ser realmente ressaltado. Um País com objetivos maiores e melhores ao seu Povo.

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

ABTV

Mobility Now