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Opinião | Valter Pieracciani | Inovação

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Valter Pieracciani

16/03/2021

Tempo de aprender ambidestria

Devemos planejar desde já o futuro de longo prazo e começar a construí-lo? Ou o melhor é se concentrar na sobrevivência neste momento jamais visto?

Foi maravilhoso ter participado no início de março do AB Plan , evento de planejamento da Automotive Business que reúne especialistas e dirigentes de empresas para compartilhar visões e discutir estratégias. Me conectei à plataforma de reuniões certo de que seria superinteressante ouvir esses profissionais falando de planos em um momento tão desafiador, com a saída de uma empresa do calibre da Ford, a GM parada por falta de componentes, o dólar a R$ 6 e um novo lockdown, anunciado na véspera. Tinha certeza de que viveria emoções fortes. Essa expectativa foi amplamente superada.

Me preparei para relatar ações de curto prazo que nossos clientes vêm tomando e que têm lhes proporcionado sucesso. Mais do que isso: crescimento em plena pandemia. Separei algumas experiências emblemáticas para compartilhar e aguardei a minha vez – eu seria o último convidado a falar.

Durante os debates iniciais, a âncora do evento, Giovanna Riato, perguntou logo de cara quais seriam as características essenciais para os profissionais do setor neste momento. No gráfico gerado a partir das respostas da maioria, apareceram três muito afinadas com a mensagem que eu havia preparado: coragem, agilidade e flexibilidade. Obviamente, adorei!

A FORÇA DA ENGENHARIA LOCAL



Camilo Adas, presidente da SAE, destacou a importância de pensarmos no longo prazo. De construirmos nosso futuro para o Brasil, lançando mão de nossas competências, vocações energéticas e da força da competente engenharia local. Opinião com a qual compactuo totalmente e que tenho inclusive defendido em várias circunstâncias.

É uma visão estimulante, que nos impulsiona e nos convida a trabalhar com cenários, projeções, roadmaps tecnológicos. Que nos faz pensar nas nossas capacidades centrais e no mercado gigante adormecido que o Brasil, desde que me conheço como gente, sempre foi.

Todos concordamos com o que ouvimos, e nossas mentes e corações viajaram para um futuro promissor, daqui a uns dez anos. Os debates seguiram com ricas contribuições. Falou-se de veículos pesados, de eletrificação, de custos etc. Nessa hora, olhei por um segundo para a janela e vi que um forte temporal, desses que desabam todo final de dia, se aproximava rapidamente. Trazia consigo, como sempre, uma sensação de temor e incerteza.

Coincidentemente, naquele exato momento outro participante, desta vez um empresário, pediu a palavra. Breve e cirúrgico, provocou em todos nós uma guinada mental de 180 graus. Com o pragmatismo dos empresários, apresentou-se rapidamente e, em seguida, disse mais ou menos o seguinte:

“Informação e planejamento são valiosíssimos para nós. No entanto, eu queria saber dos senhores o que acham que seria melhor eu fazer amanhã: colocar todos os nossos funcionários em férias outra vez ou demitir de imediato mais da metade deles. Preciso decidir!”

Lá fora, as nuvens tinham encostado e uma chuva densa, cinza e barulhenta começou a cair. A fala do empresário soou como um despertador. Um tremendo choque causado pela dura realidade pandêmica na qual tentamos sobreviver.

É claro que, entre as duas visões alternativas, não há uma adequada e outra inadequada. O que temos que enxergar é apenas a dura realidade. Não se pode escolher uma ou outra: o curtíssimo e o longo prazos têm que guiar nossas decisões simultaneamente. Não haverá futuro a planejar se o negócio não sobreviver. Assim como não existirá prosperidade sem uma estratégia. Será preciso pensar com a direita e a canhota. Aprender a usar estes dois chapéus: o do gladiador na arena do dia a dia e a do visionário estrategista capaz de desenhar o futuro.

ASSOBIAR E CHUPAR CANA



Em busca dessa ambidestria, líderes e suas equipes talvez possam dividir o dia em dois períodos, dedicando um deles ao presente complexo e outro ao futuro desejado, ou então separar equipes em função dos prazos que cada tipo de decisões envolve. Enfim, encontrar imediatamente arranjos que permitam assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, como se diz no popular.

A realidade exige ações no curto prazo. O momento requer velocidade e movimentos dramáticos – alianças com concorrentes, por exemplo. Há que se cuidar da energização das equipes, de abrir-se e de criar conexões, dentro (ideias internas) e fora da empresa (conexões com startups). Serão atitudes de sobrevivência. No restante do tempo, não se deve abrir mão de planejar o futuro um pouco mais distante.

Muitas vezes no Brasil fomos considerados bons improvisadores, maleáveis e capazes de criar com pouco; e fomos criticados por isso. Agora, em tempos nos quais ninguém sabe absolutamente nada, é hora de investir nessas características como positivas e salvadoras.

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