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Opinião | Zeca Chaves |

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Zeca Chaves

09/04/2021

O que ninguém conta sobre os carros elétricos

Mesmo os fãs da nova tecnologia reconhecem que há três desafios que o mercado ainda não sabe como resolver


A rapidez de recarga traz outro problema para os veículos elétricos: o custo do sistema de refrigeração

Os principais prós e contras dos automóveis elétricos já são bem conhecidos por quem costuma acompanhar o tema. Do lado positivo, comemora-se emissão zero de poluentes, silêncio, manutenção barata, muito torque e baixo custo de rodagem. Do lado negativo, lamenta-se o alto preço de compra, a baixa autonomia, a demora na recarga e os poucos postos de abastecimento.

Existem questões, porém, que não costumam aparecer nas análises tradicionais sobre a tecnologia que dominará a indústria automobilística nos próximos anos. São pelo menos quatro desafios para os quais ninguém ainda encontrou resposta. É como se todos estivessem empurrando o problema com a barriga, deixando para se preocupar com isso lá na frente. Vamos entender agora essa bomba-relógio.

FÁBRICAS NÃO ESTÃO PRONTAS



Todos os grandes fabricantes de automóveis estão extremamente preocupados com o ano de 2030, data em que boa parte da Europa deve suspender a venda de veículos a combustão. Até nos EUA há estados que vão aderir à proibição: Califórnia, Massachusetts e New Jersey, todos em 2035.

De fato, os fabricantes estão quase desesperados porque não sabem como isso será feito. É pouco tempo para fazer a conversão de um negócio gigantesco que trabalha com um ciclo de produto de longo prazo – são em média quatro anos para fazer um novo projeto de carro a partir do zero. Faça as contas: a Europa tem apenas nove anos para transformar 100% sua indústria em produtora de veículos elétricos, sendo que hoje eles só representam 6% do seu mercado.

Não podemos esquecer que mesmo esse crescimento tímido só ocorreu porque houve ajuda dos enormes incentivos dos governos. Só que é fácil dar benefícios fiscais de até US$ 7.500 (como nos EUA) quanto os elétricos representam uma mixaria nas vendas. Como será na próxima década quando milhões de impostos não forem para os cofres desses mesmos governos?

É por conta desse cenário tão complexo e ainda indefinido que alguns analistas do setor apostam que até 2030 a data de proibição pode ser prorrogada. Assim, só nos resta aguardar para saber como serão os próximos capítulos dessa novela.

EMPREGOS SOB AMEAÇA



Carros elétricos são mais simples de construir: demandam 30% menos de trabalho na produção e usam menos componentes – 11 mil contra 30 mil de um convencional. Além de centenas de peças que compõem um motor a combustão interna, ele ainda precisa de sistemas de lubrificação e refrigeração. E nada disso funciona se não houver a transmissão.

Pois saiba que tudo isso é inútil em um veículo elétrico. Fábricas que produzem motores a gasolina, radiadores, câmbios, velas, injeção eletrônica, todas elas vão desaparecer se não fizerem outra coisa. E mesmo que façam, existem fornecedores demais para componentes de menos. E aí temos um grande risco de desemprego pela frente.

Estudo encomendado pela Volkswagen na Alemanha para o Instituto Fraunhofer para Organização e Engenharia Industrial diz que 12% dos empregos dessa indústria devem sumir, já computando as funções que vão surgir. Alguns alertam, porém, que se trata de uma estimativa muito otimista.

O Departamento Federal de Estatísticas da Alemanha (Destatis) calcula que, das 830 mil vagas do setor no país, cerca de 410 mil (49%) serão eliminadas até 2030. Aumente esse número para 2,7 milhões funcionários europeus ligados às montadoras. E nem estamos contando os empregos indiretos em fornecedores. Depois amplie para o restante do mundo para entender a dor de cabeça que nos espera.

BATERIAS MAIS BARATAS? NÃO É BEM ASSIM



Como ditam as leis do mercado, o aumento da produção traz o ganho em escala e, portanto, a redução de preços. É nisso que apostam os fabricantes de carros elétricos, especialmente na queda do custo da bateria, o item mais caro do automóvel: ela responde por até 40% do preço final do veículo.

Mas essa redução de custo pode não acontecer como se espera. O preço da bateria despencou nos últimos anos: estudo da Bloomberg New Energy mostra que ele caiu 87% de 2010 a 2019. Porém, analistas alertam que, quando boa parte do mundo aderir aos elétricos perto de 2030, a situação vai mudar.

Com o mundo cada vez mais digitalizado, mais produtos estarão conectados à internet e mais celulares e computadores serão vendidos. E todos usam baterias de lítio que têm a mesma tecnologia do veículo elétrico. Só que a bateria do carro elétrico precisa de 100 mil vezes mais energia que no celular. Então dá para imaginar o tamanho do problema que teremos em 2030.

Mesmo que a produção das baterias cresça muito, a demanda por alguns metais usados na sua fabricação crescerá exponencialmente, como o caso do cobalto e lítio. É verdade que o preço do lítio caiu bastante devido a uma superoferta, mas especialistas explicam que isso é uma situação temporária e mudará bastante em 10 anos. E lembrando de novo: os elétricos ainda representam só 6% das vendas atuais na Europa.

Para apimentar esse cenário, as reservas desses dois metais estão concentradas nas mãos de poucos países: 50% do cobalto está na República Democrática do Congo e 75% do lítio na Bolívia, Chile e Argentina. E, ao contrário de um produto manufaturado, que você pode fabricar onde quiser, os metais só podem ser extraídos em locais que a natureza escolheu. Há também uma questão técnica que vai dificultar a redução drástica de preço do carro elétrico. Mesmo que as baterias fiquem bem mais baratas com o crescimento da produção, o mesmo não acontecerá com seu sistema de refrigeração.

Assim como num celular, a bateria gera calor quando o veículo é usado e até três vezes mais durante a recarga. Para evitar o superaquecimento, existem sistemas de arrefecimento a ar (comuns nos automóveis elétricos mais baratos) e a líquido (bem caros e que equipam as versões mais modernas). Quanto mais os fabricantes correm atrás de recargas mais rápidas, mais sofisticada (e cara) será a refrigeração da bateria.

A torcida agora é para saber quem vai conseguir desarmar essa bomba-relógio a tempo.

Comentários

  • FernandoS. Araújo

    Boaanálise. Além disso, de onde sairá a energia para alimentar todas essas baterias? As fontes atuais já estão no limite para atender a demanda presente... Adicionalmente, o balanço energético integral ainda não é favorável aos elétricos, em países que usam carvão na geração da energia elétrica, como estudo australiano apontou. Nesse estudo, aliás, os ICE's mais modernos tiveram considerável vantagem. Decisões políticas essas na Europa e estados americanos, certamente não sobreviverão à realidade.

  • CASSIOARTHUR PAGLIARINI

    ABright Consulting tem discutido essas limitações e recomendado a elaboração de um plano brasileiro de mobilidade sustentável. Percebemos, pelo grande número de artigos sobre o tema, que o assunto já encontra massa crítica. Fazendo as contas muitos descobrirão que não existe saída para o transporte livre de motores a combustão por um tempo ainda longo - tanto por disponibilidade quanto por custo. Quando mais abertas e abrangentes as discussões, melhor para todos. Parbéns pelo artigo.

  • NewtonMasteguin

    Comoqualquer mudança de paradigma, essa verdadeira revolução vai trazer impactos expressivos mas, ao mesmo tempo grandes oportunidades. Se, por uma lado vai haver desemprego em alguns setores, outros serão criados para atender às mudanças e preencher as necessidades e, mais que nunca será preciso estar preparado. Quanto às baterias, outros materiais estão sendo pesquisados e, formas de recarga mais rápida também Na geração de energia, fontes naturais: eólicas, solar e outras deverão acelerar as instalações de novos parques e mesmo nas residências e empresas isso já está em marcha! Essa meta ousada faz com que se criem elementos para resolver rapidamente os obstáculos e, lembra bastante a corrida espaciais na década de 1960 onde, num esforço gigantesco, o homem chegou à lua! Que ainda existem muitas questões em aberto, não há duvida mas, atualmente quem se utiliza de Uber e sonha com carros autônomos e até voadores não perde por esperar o que o futuro próximo nos reserva! Apertem os cintos !!!

  • Luciana

    Porisso a importância do próprio veículo gerar a sua própria energia de reabastecimento enquanto roda pelas estradas como é o caso do Prius e de outros modelos. Depender de abastecimentos em pontos externos e como mudar apenas a aparência do velho conhecido posto de combustível dos dias atuais por outro com uma carinha mais cool, mas que só reinventou um problema.

  • RobertoCamargo

    Análisebaseada no copo vazio: os empregos vão se transformar, caso contrario ainda estaríamos andando de carroças, queimando filmes para tirar fotografias e comprando fichas telêfonicas para fazer uma ligação da rua. Olhando para história da humanidade, a evolução é uma constante. Dizer que muitas pessoas vão perder seus empregos com o atual oficio é uma verdade, mas dizer que serão desempregados não. Mais de 60% das crianças que estão no ensino fundamental hoje vão trabalhar em profissões que ainda não existem, dizem estudos avançados na área da educação. As funções se transformam e o trabalho se perpetua para quem se inova e se adapta. Ninguem acreditava no poder do smartphone, mas bastaram 10 anos para ele ser essencial. Os carros elétricos estão indo no mesmo caminho; talvez marcar data para terminar seja muito radical, é verdade. Mas hoje está mais forte do que ontem. Pode acontecer até antes, depende de diversos fatores técnico-comerciais. Carregadores rápidos podem ser totalmente dispensados para o uso urbano, é uma questão cultural que consome tempo, mas está na mão do povo, e não do governo. Mas o povo muda quando têm beneficios tangíveis. Não tivesse a expectativa de tantos benefícios e a exiquibilidade técnico-produtiva, TODA a indústria automobilística não estaria investindo bilhões de dólares nessa transformação. Choram os que se identificam com "o que ninguém conta sobre carros elétricos" . Trata-se mais de um saudosismo antecipado pois não conseguem ver o futuro sendo delineado hoje e perdem a oportunidade de inovar e se adaptar desde já.

  • MatheusPera

    Como_disseo Fernando Araújo (outro comentário), tem a questão da produção de eletricidade. Além da capacidade produtiva, é preciso considerar a origem dessa eletricidade... Além disso, há o descarte das baterias, que é caro e afeta o meio ambiente, e o fato de o lítio, atualmente o principal componente das baterias modernas, não ser infinito. Muitas perguntas sem resposta.

  • JoernSchmidt

    Comoos colegas acima mencionaram, a abordagem do carro elétrico tem sido de forma superficial. Normalmente, se esquece do impacto ambiental que a própria fabricação dos componentes de carros elétricos tem, que é muito superior ao carro convencional. Desde o lítio para as baterias, mas uma série de elementos de terras raras, cujo custo ambiental é elevado. Mas são esquecidos por conveniência! Certamente a disponibilidade de energia é um problema. Veja a Alemanha que tem sérios problemas para novos parques eólicos devido a leis restritivas quanto ao posicionamento. Vejo que o artigo olha de forma superficial. Existem enormes problemas. O próprio instituto Frauenhofer fez comparações elétrico x carro atual (com todas as tecnologias). Dependendo do modelo do carro (tamanho da bateria), por exemplo, o balanço se iguala com 60.000 km. Há várias reportagens na televisão alemã demonstrando o impacto geral. Vejam o link (alemão): https://www1.wdr.de/mediathek/video-sind-elektroautos-umweltfreundlicher-als-benziner-100.html

  • JeanMarcelo Moreira da Silva.

    Admiroe são muito importantes todos os comentários de nossos amigos acima. Um ponto que até hoje fico preocupado, é sobre o descarte das baterias de Lítio. Não adianta termos uma forma limpa de energia e geração quase zero de emissões de poluentes com os veículos elétricos, sendo que teremos um problema ambiental com o descarte que acontecerá de baterias. Precisamos ter uma harmonia na utilização e destino final desse item. Como exemplo Usina de Angra, já temos um acumulo enorme de lixo de Uranio, onde e como será descartado , quais serão as consequências para no futuro ?

  • Cássio

    Naminha opinião, eu acredito que os motores de combustão serão difíceis para serem extintos do mundo. Eu já acho que os carros elétricos serão a opção ótima pra manter o planeta e a atmosfera limpa porque o peso desses gases poluentes no mundo está exageradamente grandioso. O planeta não aguenta tanta poluição assim saindo de escapamentos. Mas também acredito numa *tecnologia em catalisadores* pra poder reduzir ainda mais nessa luta de redução de poluentes e um planeta limpo.

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