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Opinião | Paula Braga |

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Paula Braga

16/04/2021

Para momentos de crise, invista na estratégia do galinheiro

Uma metodologia ágil capaz de fazer com que equipes arregacem as mangas para correr atrás das galinhas e prosperar nos negócios






Imersa a vida toda no contexto urbano, não conheço os pormenores do comportamento de uma galinha. Na minha visão, é um bicho um tanto imprevisível, talvez arredio, que muda de rumo rápido e pode acabar nos surpreendendo. Agora, me diz, parece ou não com aqueles projetos que tiramos do papel, soltamos no mundo e dão a impressão de ganhar vida própria?

Soou descabido? Vem comigo, prometo que vai fazer sentido.

Como administradora, estratégia e gestão sempre foram temas apaixonantes para mim. Nos últimos anos, aprofundei o meu conhecimento sobre liderança ágil. Entre livros, palestras, cursos e experiência própria aprendi que, no mundo dos negócios, agilidade não é um simples sinônimo de rapidez. É agir com velocidade, mas também com flexibilidade e integração.

A agilidade é a nossa capacidade de se adaptar às mudanças. E isso tem tudo a ver com a fase que vivemos: o mundo BANI, um acrônimo que significa Brittle, Anxious, Nonlinear e Incomprehensible, ou, em português: Frágil, Ansioso, Não linear e Incompreensível - exatamente o cenário que a pandemia trouxe.

Mas como sobreviver em um contexto tão inóspito? É aqui que entra a tal da agilidade somada à liderança empática, com inteligência emocional e um espírito inabalável de equipe. Tudo para trabalhar de forma dinâmica, flexível e mais produtiva.

Esta é a estratégia do galinheiro, muito prazer.

TIRE OS PROJETOS DA GAVETA Passei grande parte da minha vida com a certeza de que muitos projetos não saíam do papel porque não traziam um planejamento robusto, com todas as respostas, risco baixo e receita garantida. Uma fórmula que, se um dia chegou a existir, hoje não habita mais o nosso mundo pandêmico.

Quantas vezes apresentei ideias que eram engavetadas logo depois da pergunta “Você tem certeza de que isso dará certo?”. Eu não tinha certeza sobre projeto nenhum.



E, adivinha só? Elon Musk, ao lançar o foguete da SpaceX também não tinha (e se permitiu errar), nem Angela Merkel, quando anunciou medidas para combater a Covid-19 na Alemanha, muito menos a Madonna, quando investiu em tratar de assuntos polêmicos, adotar um visual próprio e gravar clipes com diretores de cinema tinha ideia de que estava redefinindo a música pop.

Me dei conta de que a falta de certeza que derrubava tantos projetos é uma condição essencial. Eu nunca vou ter 100% de segurança de que algo dará certo. Ninguém tem.

E se a certeza não existe, vamos em frente sem ela.

ABRA A PORTA DO GALINHEIRO Vivi a experiência de planejar menos e fazer mais quando comecei a AB Diversidade, um projeto ambicioso para fomentar a pluralidade no setor automotivo. Ao lado das queridas Giovanna Riato, Chief Growth Officer, editora do Mobility Now e da AB Diversidade em Automotive Business, e Tânia Macriani, CEO da MHD Consultoria, desenhei uma proposta que não tinha sucesso garantido, mas estava cheia de propósito e força de realização.

Nos comprometemos a entregar o melhor de nós e tudo aquilo que o mercado demandasse. Sim, o mercado guiaria a construção do AB Diversidade. Claro que tínhamos um esboço inicial. Sabíamos que traríamos conteúdos diversos, grandes especialistas, um estudo robusto e um evento inédito, mas fomos nos adaptando rápido às necessidades do mercado.

Para a minha surpresa, todas as cotas de participação e patrocínio foram vendidas para grandes empresas do setor automotivo nas primeiras semanas. Se eu tivesse engavetado a AB Diversidade por falta de garantias, teria jogado fora uma das iniciativas mais valiosas de Automotive Business.

Não estou defendendo passos irresponsáveis, as coisas nem sempre nos surpreendem positivamente. Mas hoje vejo que a AB diversidade fez sentido porque chegamos na hora certa, acreditamos profundamente no valor da proposta e abrimos espaço para construir de forma coletiva, transparente e genuína. Tudo isso, claro, com enorme agilidade.

A ESTRATÉGIA DO GALINHEIRO Naquela época, a minha equipe brincava que eu tenho o hábito de soltar a galinha e estimular todo mundo a correr atrás. As galinhas, claro, são os projetos. Ao dar início a alguns deles eu incentivava as pessoas a dar o melhor delas e a entregar resultados que, no começo, nem elas mesmas acreditavam que poderiam alcançar.

Sim, a ideia é essa mesma: pegar o bicho imprevisível que são os novos projetos, abrir a porta do galinheiro e deixar ele fluir, indo atrás para garantir o rumo certo, buscar os aprendizados de forma ágil e, por que não, trazer a galinha de volta quando for necessário.

Na prática, a história só dá certo com muito apoio mútuo e confiança na equipe para tomar decisões rápidas e garantir que ninguém fique sozinho no desafio de correr atrás de determinada ave.

Sai de cena a pompa corporativa da gestão ágil e ganha protagonismo a estratégia do galinheiro – aquela que mobiliza até o mais altivo dos profissionais a arregaçar as mangas e trabalhar em equipe com flexibilidade, parceria, foco no mercado e muita entrega de valor.

Tudo junto ao mesmo tempo. Porque a construção de um galinheiro não se resume a erguer algumas paredes para confinar as aves e deixar que elas se virem. Um galinheiro adequado, é capaz de garantir uma boa estadia às aves.

Por isso, para dar certo, a estratégia do galinheiro traz alguns pontos chave:

- SEGURANÇA PSICOLÓGICA



Em determinado momento, o Google decidiu investir para entender porque algumas de Suas equipes entregam melhores resultados do que outras, apesar de todas estarem sob o mesmo contexto cultural dentro da companhia. Dois anos de pesquisa depois, a conclusão: o fator mais determinante para a performance é a segurança psicológica.

As pessoas da equipe só assumem riscos e são transparentes na condução de projetos se sentem que têm espaço para assumirem quem realmente são, podendo discordar, expor pontos de vista, admitir erros. Considero esse ponto fundamental para a estratégia do galinheiro.

- DIVERSIDADE



A pluralidade de bagagens, pontos de vista, gênero e cores é capaz de ampliar o nosso campo de visão, garantir mais referências. Um time homogêneo é incapaz de enxergar tão longe. Nem preciso dizer que, desde que a AB Diversidade nasceu, tenho provado e comprovado o valor que a diversidade traz a qualquer projeto.

- LIBERDADE E COLETIVIDADE



Os projetos precisam ser cocriados. Ninguém faz nada incrível sozinho. A inovação é sempre resultado do engajamento e da participação de pessoas. Isso traz benefícios para todas as partes envolvidas no processo.

Exponha as suas ideias, submeta elas à análise dos outros e cocrie respostas, insights e ferramentas. Você vai se surpreender com o quanto esta etapa pode enriquecer os seus projetos.

E você, topa tentar a estratégia do galinheiro?

Comentários

  • FabioViterite

    Bomdia! Excelente matéria para iniciar uma nova semana de trabalho. Obrigado pelo conteúdo. Abraços.

  • NewtonMasteguin

    Aparticipação ativa de todos os membros da equipe é essencial para o sucesso de qualquer projeto e isso deve ser seguido de algumas regras: todas as sugestões devem ser respeitadas, ninguém é melhor que ninguém, humildade e determinação. A formação da equipe deve conter pessoas do maior número de departamentos possível pois isso também gera a diversidade e sugestões interessantes O planejamento é muito importante para dar um direcionamento mas não pode ser engessado e deve ser flexível à medida que novas ideias surgem A analogia com o galinheiro é muito interessante assim como o texto em Irmãos Karamazov ( Dostoiévski) :" Somos assim, sonhamos o vôo mas tememos a altura .Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência das certezas. Mas é isso que tememos,: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram" Quem quer empreender tem que enfrentar o vazio, com coragem e fé em seus projetos! Sucesso para toda sua equipe!

  • LeticiaMendonca

    Gosteimuito do seu texto! Acho que um dos desafios do momento é realmente nos acostumarmos com projetos para os quais não temos todas as respostas, risco baixo e receita garantida. É uma quebra de paradigma, mas vital para evoluirmos no contexto atual. Parabéns por escrever sobre o tema de forma tão precisa e leve ao mesmo tempo. bjs

  • CristinaRensi

    Paula,muito boa a estratégia do galinheiro! “Você tem certeza de que isso dará certo?” é uma pergunta muitas vezes perversa, ainda mais neste mundo BANI em que agilidade e flexibilidade para adaptação são mais relevantes à sobrevivência do negócio do que a certeza de risco baixo e a garantia de receita. E a segurança psicológica do time para poder ousar, testar, errar, corrigir e ajustar o rumo é fundamental para permitir que as pessoas tenham motivação para "correr atrás da galinha". Muito boa analogia. E tenho muito orgulho desse projeto AB Diversidade, parabéns ao time da AB! Precisamos de mais iniciativas como esta no mercado automotivo.

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