A Ford vai pagar mais caro do que o previsto para sair do Brasil

Análise é da consultora Letícia Costa, sócia da Prada Assessoria

Por GIOVANNA RIATO, AB
  • 14/01/2021 - 20:33
  • | Atualizado há 2 months, 1 week
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    Os abundantes US$ 4,1 bilhões que a Ford reservou para arcar com os custos do encerramento da sua produção no Brasil podem ser pouco. Quem estima é a consultora Letícia Costa, sócia da Prada Assessoria. Ela diz ainda que os efeitos imediatos da saída da empresa tendem a ser ainda mais duros do que o estimado até aqui. “Há muita coisa que precisa ser definida, podendo gerar uma série de custos”, aponta.

    A especialista dá o exemplo das concessionárias da marca, uma rede de 282 revendas que só soube que a empresa fecharia as portas de suas fábricas no dia em que o anúncio foi feito para a imprensa, sem qualquer aviso prévio.

    “A rede foi completamente pega de surpresa e há uma briga judicial por vir: a Lei Ferrari é bastante dura ao prever indenizações com base na geração de receita, não de lucro”, diz Letícia Costa.



    Ela se refere à legislação que regula a concessão comercial dos fabricantes para a venda de carros. Além disso, a consultora cita os custos trabalhistas para demitir 5 mil trabalhadores, eventuais multas por quebra de contratos com fornecedores, possíveis custos com o governo por desonerações já recebidas e até mesmo com o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

    “Talvez este seja um dos motivos para a empresa manter atividades de engenharia no país, com o Centro de Desenvolvimento de Produto na Bahia e o Campo de Provas em Tatuí (SP)”, conjectura Letícia.

    O IMPACTO DA DECISÃO PARA A INDÚSTRIA AUTOMOTIVA



    A especialista entende que a saída da Ford da posição de fabricante de veículos do Brasil é fruto de dificuldades específicas da companhia, que precisa melhorar a sua capacidade global de responder à demanda por eletrificação, automatização e digitalização – ainda que isso tenha um custo alto imediato. Além dos US$ 4,1 bilhões que a empresa precisará tirar do bolso para fechar a conta no Brasil, Letícia entende que a interrupção vai ser um golpe duro para os fornecedores.

    “Fabricantes de autopeças de níveis mais distantes da cadeia de valor que têm porcentual importante das vendas destinadas à Ford vão ver esta receita sumir. E sabemos que fechar outros contratos de fornecimento e conseguir homologação com outras montadoras não é um processo rápido”, aponta.



    Ao colocar os fatos em perspectiva, Letícia avalia que o excesso de capacidade produtiva de veículos é um problema global que, em algum momento, precisará ser encarado. “Não veremos um grande fluxo de saída das outras fabricantes do País, mas talvez esta questão da Ford acenda a luz amarela em outras empresas para o fato de que talvez seja melhor pagar o preço do excesso agora e enxugar as operações de alguma forma para ganhar uma posição melhor no futuro”, analisa.

    Feita esta primeira lição, ela entende que os próximos passos são coletivos e demandam atenção das empresas e do governo. “Precisamos garantir a nossa inserção na indústria global. Um desafio importante é que o etanol, a nossa alternativa aos combustíveis fósseis, não é exportável. Se a ideia for contar apenas com o mercado local, então realmente não cabe tanta fábrica no Brasil”, diz.