Crise abre espaço para reformas estruturantes

Octavio de Barros: “Confiança é a forma mais barata de estímulo econômico” (foto: Luis Prado)

Por PEDRO KUTNEY, AB
  • 17/08/2015 - 21:30
  • | Atualizado há 2 months, 1 week
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    Octavio de Barros afirma que fica “profundamente irritado” quando é chamado de otimista. O economista-chefe e diretor do departamento de pesquisa econômica do Bradesco afirma que tem apenas uma “visão construtiva no cenário atual dominado pelo pessimismo excessivo”. Para ele, o Brasil tem enormes chances de sair melhor da atual recessão econômica do que entrou. “O aprofundamento da crise favorece a adoção de uma agenda positiva de reformas para o País, com a adoção de medidas que jamais seriam tomadas em tempos de bonança econômica. Nesse sentido, a crise pode ser uma bênção disfarçada”, avaliou Barros em sua palestra no Workshop Planejamento 2016, promovido por Automotive Business na segunda-feira, 17, em São Paulo.

    “O Brasil está hipnotizado por uma visão policial criminal. Ninguém mais aguenta isso. É preciso seguir adiante e temos uma oportunidade única de avançar com reformas estruturantes que tornarão muito melhor o ambiente de negócios no País”, indicou Barros.

    Para ele, existem quatro grandes reformas no horizonte com boa chance de prosperar: governança orçamentária para cessar os gastos descontrolados do governo, redução da taxa de juros nacional hoje em patamares “intoleráveis”, aumento de produtividade com reforma tributária e trabalhista, e por fim a volta dos investimentos em infraestrutura.

    “Se 80% disso tudo for implementado o País ressurge como potência econômica com crescimento mínimo do PIB de 3,5% ao ano”, diz Barros, que credita boa parte de sua confiança no progresso dessas reformas à persistência do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que conhece bem da época em que trabalhou ao seu lado no mesmo departamento econômico do Bradesco. Barros disse que recentemente enviou um e-mail de incentivo a Levy recordando uma frase da ex-primeira ministra britânica Margareth Tacher: “Para vencer é preciso lutar muitas vezes a mesma batalha.”

    O economista está certo que Levy seguirá ministro “se não houver nenhuma ruptura política” e que conseguirá levar adiante a reforma tributária sempre tão sonhada por boa parte do empresariado brasileiro: “Escrevam aí, ele vai fazer”, decretou.

    Para reduzir a taxa de juros, Barros avalia que será necessário reduzir o volume de empréstimos subsidiados no País: “A política monetária aqui é capenga, precisa de um caminhão de juros para trazer a inflação para baixo. Isso porque mais da metade do crédito no Brasil não tem nada a ver com a Selic (taxa básica ajustada pelo Banco Central)”, explica.

    Nesse sentido, o economista acredita que o BNDES, principal agente financiador da economia brasileira com taxas abaixo da inflação, deixará de injetar dinheiro em capital de giro e financiamento de bens, para se tornar de fato um banco de fomento aos grandes projetos de infraestrutura que vão acontecer a partir de 2016. “O BNDES deve sair do setor privado para focar nisso”, disse, lembrando que existem R$ 180 bilhões em investimentos programados em grades concessões para o ano que vem.

    Já a governança orçamentária do governo é bem mais difícil de ser adotada. Barros destaca que 90% da despesa pública no Brasil não pode ser reduzida sem aprovação de leis para isso, amarrando orçamento.

    PROJEÇÕES

    Barros reconhece que o governo cometeu muito erros de política econômica em anos recentes e agora precisa pagar a conta. “Mas a casa não caiu como muitos dizem. Apesar da ‘sinistrose’ que tomou conta do País, existem condições para a retomada do crescimento econômico em futuro não tão distante se esse tempo for aproveitado para fazer as reformas estruturantes para sustentar esse avanço”, avalia.

    O economista divulgou as principais projeções macroeconômicas geradas pelo departamento de pesquisa do Bradesco. O dado mais positivo é que, segundo essas previsões, os juros devem iniciar trajetória de queda já no segundo trimestre de 2016 e fechar o próximo ano em 11,5%. Com isso, existe boa chance de as pessoas voltarem a tomar mais crédito para consumo, após longo período de desendividamento.

    Ainda assim, o PIB deverá continuar a recuar em 2016, algo como 0,8%, após retração de 2,5% este ano. A recuperação só viria a partir de 2017 e sua intensidade depende da conclusão das reformas defendidas pelo ministro Levy.

    Enquanto o consumo doméstico permanece deprimido, as exportações têm boa chance de voltar a crescer sustentadamente. “Este ano deveremos ver saldo da balança comercial acima de US$ 14 bilhões”, projeta Barros.

    As vendas no varejo, incluindo automóveis, devem se retrair 5% este ano, com recuperação de 1% em 2016. Isso porque o salário real, após anos seguidos de alta, deve recuar 2,5% este ano, para voltar a ganhar 1% no ano que vem.

    Já a taxa de desemprego segue aumentando, para 6,8% e 9% em 2015 e 2016, respectivamente. “Significa que 4,2 milhões de brasileiros terão perdido o emprego, formal ou informal, mas isso é algo inevitável neste momento. O emprego só deve voltar a ascender em 2017”, diz Barros. “É justamente o medo do desemprego que leva à retração.”

    Para a inflação (IPCA) a projeção do Bradesco é de 9,3% este ano e 5,2% em 2016, para voltar a convergir para a meta de 4,5% somente em 2017. Com esses níveis de inflação, a previsão de taxa de câmbio é de R$ 3,60 por dólar no fim deste ano e R$ 3,40 no próximo. “O real já passou pela maior depreciação da história recentemente, de 53% de um ano para cá e de 86% desde 2012. Isso é muita coisa. O dólar deve parar de subir”, avalia Barros.

    A depreciação, contudo, serve para incentivar exportações e reduzir importações, promovendo um ajuste natural no déficit externo brasileiro, que segundo lembrou Barros caiu de US$ 92 bilhões para US$ 37 bilhões. “O que falta agora é abrir a política brasileira de globalização, para aumentar os acordos internacionais de comércio do Brasil com outros países”, diz.

    Para a indústria automotiva, Barros calcula que cerca de 22 mil empregos ainda precisam ser cortados. A projeção de produção do Bradesco é um pouco pior do que a da associação dos fabricantes de veículos, a Anfavea. A instituição trabalha com queda de 20% na fabricação de automóveis, 21% para comerciais leves e 40% para caminhões.

    “É plausível a volta do crescimento (da indústria automotiva) a partir de 2016. Afinal o juro vai parar de subir e sair do noticiário, só voltando quando começar a cair. Isso melhora a confiança, que é a forma mais barata de estímulo econômico”, resumiu.