Empresas automotivas abrem pouco espaço para pessoas negras

Esta população é sub-representada nas organizações e, ainda assim, não está na prioridade das ações de inclusão

Por NATÁLIA SCARABOTTO, PARA AB
  • 03/12/2019 - 19:04
  • | Atualizado há 2 months, 1 week
  • 2 minutos de leitura

    A força de trabalho no setor automotivo tem cor: é branca. Ainda que a maior parte da população brasileira seja formada por pessoas pardas e pretas (54,9%), de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2016 (PNAD), nem 10% do total de colaboradores do segmento são negros. Mesmo com a sub-representação, o setor não conta com programas para promover a diversidade étnica.



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    De acordo com a pesquisa Diversidade no Setor Automotivo, realizado por Automotive Business, em parceria com MHD Consultoria, a força de trabalho negra é de 9,8% dos empregados nas empresas do setor. Quando analisado o perfil étnico por cargo, os colaboradores negros se concentram nos cargos mais baixos: aprendiz, com participação de 11%, trainee ou estagiário (12%), quadro funcional (10%) e supervisão (6%).

    Na liderança, a representação é ainda menos expressiva: apenas 4% ocupam cargos de gerência, direção ou conselho. Nenhum negro ocupa a cadeira de presidência ou vice-presidência, de acordo com o levantamento.

    O inédito estudo Diversidade no Setor Automotivo foi respondido por 89 empresas de pequeno à grande porte, de diversos ramos de atividade como, indústria de autopeças, montadoras, distribuição, insumos e serviços. Foram pesquisados cinco eixos da diversidade: Gênero, Etnia, LGBT+, Pessoas com Deficiência e Gerações.

    Durante o II Fórum AB Diversidade, em novembro, Josi Cruz, especialista de vendas da 3M e membro do grupo Diversidade e Inclusão, Raça e Etnia da empresa, disse ter a percepção da desigualdade entre brancos e negros desde a faculdade e, mais tarde, na indústria. “Por que só eu [estou no cargo] se tantos são similares e buscam oportunidades? Os vieses inconscientes criam barreiras para essas pessoas entrarem”, apontou.



    MUDAR ESTE CENÁRIO NÃO É PRIORIDADE DAS EMPRESAS


    Mesmo com a desigualdade étnica do setor, as empresas não demonstram interesse em mudar esse cenário. O estudo aponta que 52% das empresas não tem qualquer ação para promover a diversidade étnica em suas equipes, enquanto apenas 13% têm programas estruturados nesta frente.

    A inclusão de mais pessoas negras no setor automotivo não é vista como prioridade na maior parte das empresas automotivas. Para as organizações que declararam ter metas de contratação para a diversidade, o eixo etnia fica em quarto lugar de prioridade, contando com 45% das organizações preocupadas em incluir pessoas negras por meio de metas definidas.



    O estudo aponta, no entanto, que algumas medidas importantes estão sendo feitas: 56% proíbem a veiculação de qualquer mensagem ou imagem discriminatória em seus materiais de divulgação e 72% das organizações contam com processos seletivos abertos a todos os cursos e universidade, sem limitação às escolas consideradas de primeira linha – o que normalmente acentua a desigualdade.

    Segundo Josi, essa medida é importante para dar mais oportunidades aos diferentes grupos. “As empresas exigem formação e nível de idiomas que muitas pessoas negras não têm e que às vezes não é necessário para o cargo. Quando restringimos a seleção pelas faculdades, já impedimos que as pessoas tenham pelo menos a oportunidade de se inscrever e de ingressar na organização.”