Fabricantes premium pressionam por isenções e definições

Fábrica da BMW em Araquari (SC): produção de baixo volume precisa de incentivo para sobreviver

Por PEDRO KUTNEY, AB
  • 28/06/2018 - 18:31
  • | Atualizado há 2 months, 1 week
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    Os fabricantes de veículos premium que abriram unidades de produção no Brasil enfrentam agora as consequências negativas da decisão que tomaram. Audi, BMW, Mercedes-Benz e Jaguar Land Rover alegam estar operando com prejuízo no País. Com esse discurso, agora pressionam o governo por definições quanto ao programa de desenvolvimento industrial do setor, o empacado Rota 2030, e por redução da tributação dos componentes importados que precisam usar nos carros montados aqui.

    Na terça-feira, 26, representantes das quatro empresas foram juntos a Brasília para uma reunião com Igor Calvet, secretário de Desenvolvimento Industrial e Competitividade do Ministério da Indústria, o MDIC, que desde o ano passado está em confronto com a Fazenda pela aprovação dos incentivos do Rota 2030. A agenda oficial relata que o assunto do encontro com as fabricantes premium era “ex-tarifário para motores” – redução do imposto de importação aplicada a propulsores de 18% para 2%. Contudo, esta é uma isenção que todas estas e outras montadoras já têm desde 2016 (leia aqui), sob a alegação de que não encontram fornecimento local no País, por causa do baixo volume de produção.

    Segundo fontes consultadas por Automotive Business, o tema da reunião no MDIC foi mais amplo. Claro que todas as quatro fabricantes querem a continuação do ex-tarifário para motores, mas disseram que isso não basta para continuar operando industrialmente no País. Todas disseram precisar de mais isenções e queriam saber quando, como e se o Rota 2030 será aprovado, para definir como serão enquadrados e o que fazer nos próximos anos com base na nova política setorial. Pelo que se ouviu, todos saíram do encontro com o secretário da mesma forma que entraram: sem respostas.

    FALTA DE HORIZONTE



    Os fabricantes de veículos premium – e neste caso não só eles – alegam que estão no limite de tomar decisões sobre o futuro da operação, para escolher, por exemplo, quais modelos poderão ser fabricados localmente; e se os que estão em produção serão renovados ou não. Sem sinalização de como ficará a política setorial, continuam esperando, mas temem pelo esgotamento da paciência das matrizes. A situação é incerta, não há horizonte previsível.

    Operando abaixo da metade da já reduzida capacidade de produção, nenhum dos quatro fabricantes premium sequer atinge a barreira de 10 mil unidades/ano. Ao mesmo tempo, precisam importar a maioria dos componentes a peso de dólar caro. Por isso afirmam que perdem dinheiro ao produzir aqui.

    Para escapar da sobretaxação às importações de carros (de 30 pontos porcentuais sobre o IPI) imposta pelo Inovar-Auto entre 2013 e 2017, Audi, BMW, Mercedes-Benz e Land Rover investiram juntas cerca de € 1 bilhão para construir fábricas ineficientes, colocadas de pé para atender exigências e receber benefícios de um programa setorial que já acabou. As quatro não sabem se continuarão enquadrados no regime especial criado para elas no Inovar-Auto, de produtor de baixo volume (até 35 mil unidades/ano) com investimento mínimo de R$ 17 mil (já corrigidos pela inflação para R$ 23 mil) por carro produzido, que nessas condições podiam produzir com índices menores de conteúdo nacional.

    Em sua defesa, os fabricantes enquadrados no regime especial dizem que produzem carros com conteúdo tecnológico de ponta (o que é verdade), por isso não encontram fornecedores locais, mas em compensação exercem o papel de “puxar para cima” o nível de tecnologia do mercado brasileiro. Também admitem que, se não fosse pelo Inovar-Auto, não teriam construído fábricas nem montado times de engenharia e desenvolvimento local, que entre outros avanços permitiu a introdução da tecnologia flex (bicombustível gasolina-etanol) nos motores de carros de luxo. Sem incentivos, dizem, essa estrutura corre risco de desaparecer.