Latin NCAP completa 10 anos com protocolo mais rigoroso

Alejandro Furas, secretário geral da Latin NCAP, ao lado do Onix Plus batido e avaliado com nota máxima: elevação das exigências dos testes aumentam segurança dos carros na América Latina

Por PEDRO KUTNEY, AB
  • 29/01/2020 - 18:20
  • | Atualizado há 2 months, 1 week
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    A Latin NCAP completa 10 anos de atividades em 2020. Após avaliar em seus testes de impacto a segurança de 132 carros de 22 marcas vendidos na América Latina (importados e fabricados localmente), a entidade adota a partir deste ano um novo protocolo mais rigoroso nos ensaios que realiza em Landsberg, na Alemanha, em um centro da ADAC, clube de motoristas que presta serviços de socorro mecânico e faz avaliações veiculares independentes.

    Esta será a quarta mudança do protocolo de testes da Latin NCAP, que desde 2010 vem aumentando gradativamente o rigor de suas avaliações, que começaram com um teste simples de impacto frontal de 40% a 64 km/h em barreira deformável; em 2013 foi adicionada a batida lateral a 50 km/h; em 2016 foi incluída a colisão lateral em poste a 29 km/h, além da verificação do ESC (controle eletrônico de estabilidade) como equipamento de série na versão mais vendida do carro testado.

    Há três anos também passou a ser concedido um “prêmio extra”, espécie de menção honrosa, aos veículos que ganharam cinco estrelas para proteção de adultos e crianças e também apresentaram design dianteiro protetivo a pedestres em caso de atropelamento.

    De agora até 2023, será cada vez mais difícil para um carro testado ganhar cinco estrelas, a nota máxima possível da Latin NCAP, pois foram adotados critérios mais rigorosos de pontuação nos crash tests e será dado maior valor a veículos equipados com sistemas de segurança passiva e ativa, os chamados ADAS (Advanced Driver Assistance Systems), capazes de evitar os acidentes, incluindo frenagem automática de emergência, alerta e assistente de permanência em faixa de rodagem, limitador de velocidade e monitoramento de ponto cego.

    Para obter a nota máxima, a partir deste ano o veículo avaliado pela Latin NCAP deve ter boa parte dos ADAS, tanto oferecidos como opcionais em todas as versões vendidas, como porcentuais mínimos e crescentes de produção devem ser incorporados entre 2020 e 2023.

    Além disso, desde o fim do ano passado, só atingem pontuação máxima os carros que trazem de série, em 100% das opções, seis airbags (dois frontais, dois laterais para tórax e duas cortinas para cabeça), cintos de segurança com pré-tensionador e limitador de carga, design dianteiro protetivo para pedestres, limitador eletrônico de velocidade e fixação de cadeiras infantis Isofix.



    BARRA MAIS ELEVADA



    Alejandro Furas, secretário geral da Latin NCAP, explica que o novo protocolo segue algumas das recomendações e regulamentações globais da Organização da Nações Unidas (ONU) para a redução de mortes em acidentes de trânsito, mas está cinco anos atrás dos critérios de avaliação que foram adotados na Europa nos testes da Euro NCAP em 2015.

    “Nossa missão é elevar a barra para acelerar a adoção de mais equipamentos de segurança em mais carros na América Latina, como já acontece em países desenvolvidos. Não é obrigatório a nenhum carro ter cinco estrelas da Latin NCAP para ser vendido, mas nossos testes alertam os consumidores e aumentam a pressão social sobre os fabricantes para elevar os níveis de proteção dos veículos – e eles estão fazendo isso mesmo sem a obrigação da legislação”, destaca Alejandro Furas.



    Segundo Furas estima, sob o novo protocolo, um carro sem seis airbags nem frenagem automática de emergência (AEB) até poderá conquistar cinco estrelas nos ensaios da Latin NCAP, mas só neste primeiro ano de vigência das regras, a partir de 2021 será impossível. “Sem esses equipamentos [a partir do próximo ano] não vão levar nem três estrelas”, afirma. “A adoção gradual é a forma que encontramos de estimular os fabricantes a adotar mais sistemas de segurança ativa antes mesmo de qualquer legislação obrigatória.”

    NOVOS CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO





    A maior e mais perceptível mudança nos critérios de avaliação da Latin NCAP está na apresentação dos resultados de cada carro. Até 2019, os veículos ganhavam estrelas em duas categorias: proteção de adultos e crianças, em pontuação calculada separadamente após a realização dos vários crash tests. A partir deste ano só haverá uma nota, também expressada de zero a cinco estrelas, mas baseada no atendimento de porcentuais mínimos de quatro avaliações diferentes: proteção a adultos, crianças, pedestres e sistemas de segurança ativa e passiva.

    No caso da proteção aos adultos do veículo, na avaliação que envolve 40 pontos possíveis, só ganham cinco estrelas os carros que atingirem porcentual mínimo dessa pontuação, de 75% em 2020 e 80% de 2021 a 2023. Os protocolos dos crash tests frontal, lateral e poste estão mantidos, mas foram incluídas penalidades por vazamento de combustível e carga excessiva nos cintos de segurança maior que 6 kN (ou 600 kgf). No impacto em poste, mesmo que a estrutura passe no teste, agora levam zero os modelos sem airbags cortina para proteger a cabeça dos ocupantes. Também passa a ser avaliado o “efeito chicote” no pescoço do motorista e passageiros em ensaio de colisão traseira. E podem ganhar três pontos carros equipados com frenagem automática.

    Para avaliação de proteção às crianças, os testes de impacto são os mesmos frontal e lateral, também conta a instalação de sistema de retenção de cadeiras infantis Isofix. Para obter cinco estrelas nesta categoria é necessário atingir 75% do máximo 49 pontos.

    A proteção ao pedestre passa a valer 48 pontos e de 2020 a 2021 o carro precisa completar até 40% desta nota para obter cinco estrelas nesta categoria de avaliação. O porcentual mínimo sobre para 50% da pontuação a partir de 2022. No ensaio de atropelamento, são avaliados a cabeça e as partes inferior e superior das pernas do atropelado. A frenagem automática de emergência com detecção de pedestre disponível no veículo vale 12 pontos, com validação do sistema em três velocidades de 20 a 40 km/h, e de 2022 em diante também passa a ser pontuado o tempo de reação do dispositivo.

    Por fim, a Latin NCAP incluiu este ano a avaliação de diversos sistemas de segurança ativa – além do ESC que já é avaliado desde 2016. “Temos de valorizar mais esses equipamentos e incentivar sua adoção mais rápida. Mesmo em um carro que tenha boa estrutura para absorver os efeitos de uma colisão, é melhor se o acidente puder ser evitado”, justifica Furas.

    Além de verificar seu funcionamento, como já acontecia, o ESC agora vai passar pelo “teste do alce” (desvios repentinos de direção com puxadas no volante) para averiguar a eficiência do sistema de estabilidade. Foram adicionados na nova lista de inspeção o alerta de uso do cinto de segurança para todos os ocupantes (até agora só era exigido do motorista e passageiro), limitador eletrônico de velocidade, detecção de veículos no ponto-cego (BSD), frenagem automática de emergência (AEB) para cidade e estrada com detecção de pedestres e ciclistas, sensor traseiro (RED), bem como alerta (LDW) e assistência eletrônica (LKA) de permanência na faixa de rodagem.

    Carros com todos esses equipamentos podem somar até 43 pontos. Para ganhar cinco estrelas na categoria de ADAS, já este ano precisam atingir 75% desta pontuação, e 80% de 2021 em diante. ESC e limitador de velocidade de série serão exigidos em 100% dos veículos para concessão de nota máxima. Para a frenagem de emergência existe um porcentual progressivo de adoção: o sistema deve equipar no mínimo 10% dos carros produzidos em 2020 e 2021 e 30% em 2022 e 2023. Já para os dispositivos de alerta e correção LDW, LKA, BSD (ponto-cego) e RED (traseiro) o índice de adoção mínimo exigido pelo Latin NCAP de 2020 a 2023 é de 25%, 35%, 45% e 55%, respectivamente.

    De acordo com um recente estudo liderado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), um dos principais financiadores da Latin NCAP, tecnologias de segurança veicular – incluindo ABS, ESC, AEB, cintos de segurança, airbags frontais e laterais, barras de proteção nas portas, encostos de cabeça para todos os assentos e design dianteiro protetivo a pedestres –, se fossem incorporadas em todos os carros de seis países (Argentina, Brasil, México, Colômbia, Equador e Uruguai), poderiam evitar 33 mil mortes por ano em acidentes de trânsito, uma redução de 28% em relação ao número atual de vítimas.