Navistar: fábrica chinesa com inteligência brasileira

Brigantini, Leo (à esq.) e Yang no escritório da Navistar em Hefei: produção de motores na fábrica da JAC começa em julho de 2013, mas testes já estão em andamento. Nova fábrica em construção será inaugurada no fim do ano que vem.

Por PEDRO KUTNEY, AB | De Hefei (China)
  • 17/09/2012 - 17:20
  • | Atualizado há 2 months, 1 week
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    Cerca de dois anos após celebrar um acordo com a JAC para fabricação de motores diesel na China, só em julho a Navistar obteve a aprovação do governo (o controlador do sócio chinês) para tocar adiante o projeto da joint venture, batizada Anhui Jianghuai Navistar Diesel Engine Co Ltd. A burocracia demorou mais que o esperado, mas as atividades de desenvolvimento e as fundações da nova fábrica de 93 mil metros quadrados, com capacidade inicial de 200 mil unidades/ano, começaram bem antes em Hefei, cidade sede da JAC na província de Anhui, na mesma velocidade acelerada que vem transformando a China em potência econômica na última década. Para começar o negócio, os sócios investem 1,8 bilhão de yuans (em torno de US$ 286 milhões), divididos em partes iguais para desenvolver motores e construir a nova unidade de produção.

    Os primeiros produtos a serem feitos têm grande quantidade de inteligência brasileira, pois a base do projeto é de motores desenvolvidos no Brasil, na MWM International, que agora estão sendo adaptados e localizados por uma equipe montada pelos engenheiros brasileiros Aníbal Brigantini e Maurício Cruz, que foram expatriados e estão trabalhando no país há quase um ano. Quem começou a desbravar o mercado chinês para a companhia também foi um brasileiro: Waldey Sanchez, atual presidente da Navistar South America que, em 2006, quando presidia a MWM International, fechou acordo de transferência de tecnologia com a Dongfeng Diesel para a fabricação do motor NGD 3.0 Euro 3, cujo principal cliente era justamente a Jianghuai Automotive Co, a JAC. Nos anos seguintes, Sanchez foi um dos principais articuladores da negociação para a expansão das operações no país por meio de uma joint venture.

    "Obtivemos a aprovação da joint venture em 4 de julho e desde então todos os nossos esforços estão concentrados em desenvolver motores e construir a fábrica, ao mesmo tempo em que montados a equipe junto com a JAC", explica Joe Werth, vice-presidente da joint venture de motores da Navistar/JAC. "A JAC é só o nosso primeiro cliente, mas poderemos fornecer para outros também. Existem muitas oportunidades, tanto domésticas como para exportação", completa, estimando em dezenas o número de concorrentes fabricantes de motores diesel na China. A própria JAC faz alguns de seus motores, mas compra a maioria de fornecedores independentes chineses.

    O potencial é realmente enorme: são vendidos na China por ano cerca de 3 milhões de veículos comerciais leves e pesados a diesel, e a JAC é a terceira maior marca do segmento, mas a primeira em modelos leves e chassis de ônibus. O objetivo da Navistar/JAC é conquistar 10% do fornecimento de motores no país, o que significa cerca de 300 mil unidades/ano.

    PRODUTOS

    "No último ano estivemos aprendendo e localizando fornecedores", conta Aníbal Brigantini, diretor de pesquisa e desenvolvimento de produto da Navistar China, que em janeiro mudou-se com a família para o país. Ele a equipe da Navistar que, por enquanto, não passa de 15 pessoas, tentam se adaptar às diferenças culturais para reprojetar os motores que os chineses querem. "São escalas de valores muito diferentes. Às vezes, coisas que estão no topo da importância para nós estão na base para eles e vice-versa. Outro dia, por exemplo, um fornecedor me disse que nosso motor, mais moderno, era muito mais feio que o modelo antigo. Fora daqui dificilmente alguém julga um motor pela aparência, mas na China temos de enfeitar, colocar mangueiras vermelhas se possível."

    O primeiro produto "engeinheirado" pela equipe da joint venture deve começar a ser produzido a partir de julho de 2013 em uma fábrica da JAC em Hefei, já em operação. É um motor de 2,8 litros denominado 4DA1, com versões de 91 a 118 cavalos, para uso em caminhões semileves. O projeto é da própria JAC, mas engenharia da Navistar na China comandada por Brigantini modernizou o modelo para legislação de emissões Euro 4, com a adoção da tecnologia EGR, de recirculação de gases. A Euro 4 já vigora em algumas das maiores cidades chinesas, mas será implantada em todo o país justamente em julho do ano que vem.

    Os próximos da lista, também Euro 4, são os motores MaxxForce 4.8 de 158 a 187 cavalos e o 7.2 de 222 a 270 cavalos, originados dos tradicionais Acteon projetados pela MWM no Brasil. "Estes já serão produzidos a partir de dezembro de 2013, na nova fábrica que estamos construindo", diz Bo Yang, gerente-geral de operações da joint venture. Os dois motores inicialmente vão equipar caminhões médios e semipesados da própria JAC. Ambos terão sistema SCR de pós-tratamento de gases para atingir os requisitos de emissões (no mercado brasileiro eles já são Euro 5).

    Na sequência, também na nova fábrica, está prevista a produção do novo motor 3.2 com tecnologia EGR, também projetado na MWM International no Brasil e atualmente exportado para clientes na Coreia e Turquia.

    "Depois entramos na segunda fase do plano, com a fabricação de motores pesados. A nova fábrica já tem espaço reservado para a produção de mais 30 mil unidades/ano", revela Yang. Provavelmente, a partir de 2014 serão fabricados na China os Big Bore de 11 e 13 litros desenvolvidos pela Navistar nos Estados Unidos – atualmente esses modelos usam blocos fundidos pela brasileira Tupy em liga especial de ferro-grafite, uma tecnologia dominada por poucas fundições no mundo, que depois são usinados na planta de Santo Amaro da MWM International, em São Paulo, de onde seguem para a unidade americana. Os Big Bore poderão equipar os caminhões pesados International que a Navistar também pretende fabricar em conjunto com a JAC na China – o acordo foi firmado pelas duas empresas também em 2010, mas a joint venture ainda não foi aprovada pelo governo chinês, o que se espera que aconteça até o fim deste ano (leia aqui).

    LOCALIZAÇÃO

    O principal desafio tem sido a localização de componentes, não por falta de fornecedores, mas por excesso, conforme explica Brigantini: "Existem alguns que sequer têm fábrica pronta, mas prometem que vão fazer uma para quando começarmos a produzir. É uma maneira totalmente diferente de negociar", afirma o engenheiro, que em quase 20 anos de carreira na empresa (começou como estagiário da Maxion Motores, comprada pela Navistar em 2000), já teve a experiência de localizar a produção de motores em fábricas do grupo no Brasil e na Argentina.

    Brigantini afirma que na China não é competitivo comprar só de fornecedores multinacionais. O cálculo é que o custo de um motor na Navistar seja de 20% a 25% menor com uso de componentes chineses, sem perda de qualidade. "Existem bons fornecedores locais, mas como há muitos, o trabalho para selecionar os melhores é grande", conta o engenheiro, que tem visitado de dois a três possíveis parceiros por semana. Ele cita o exemplo dos blocos: "Visitei muitas fundições e acabamos escolhendo uma que pertence à própria JAC, não porque é do sócio da joint venture, mas porque tem boa qualidade. O problema será capacidade de produção. Muitos fornecedores estão trabalhando no pico", diz.

    Outro desafio está em encontrar mão de obra qualificada de engenharia. Apesar de a China formar até 650 mil engenheiros por ano, Brigantini revela que não é exatamente fácil encontrar profissionais com fluência em inglês e experiência necessária para tocar projetos mais complexos. "No Brasil um engenheiro com quatro anos de carreira já pode ser considerado experiente, aqui esse tempo é maior porque os chineses ficam muito tempo em funções que exigem pouca habilidade. Isso em parte pode ser explicado pelo fato que muitas indústrias não fazem desenvolvimento local", explica.

    Com equipe ainda pequena na operação chinesa, muito do trabalho de desenvolvimento de engenharia vem sendo feito com o apoio da MWM International no Brasil, com quem Brigantini tem teleconferências diárias na primeira metade da noite na China, de manhã para os brasileiros. Assim, a vida tem sido de trabalho intenso, em ritmo chinês, com inteligência brasileira.