Projeções apontam para estabilidade do mercado

Fabiana D'Atri, coordenadora do departamento de pesquisas do Bradesco (foto: Ruy Hizatugu)

Por SUELI REIS, AB
  • 28/04/2014 - 12:03
  • | Atualizado há 2 months
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    O ano de 2014 consolidará um novo período para a indústria automotiva: o de acomodação. Este é o cenário previsto para o setor diante da conjuntura macroeconômica apresentada por Fabiana D’Atri, coordenadora do departamento de pesquisas e estudos econômicos do Brasdesco, durante o painel "Os novos cenários para a economia" no V Fórum da Indústria Automobilística realizado na segunda-feira, 28, no Golden Hall do Sheraton WTC, em São Paulo.

    “A economia não está tão fraca quanto parece”, inicia Fabiana, baseando-se nos dados colhidos pela instituição. A partir desses elementos, que misturam euforia quanto à geração de emprego e expectativa de PIB mais baixo, a indústria automobilística nacional mostrará um resultado diferente da média dos últimos anos. Será mais ponderado e contido, tendência que deve permanecer entre os próximos três a cinco anos.

    “Será um momento de equacionar todos os efeitos da macroeconomia e ‘arrumar a casa’: observar e gerenciar custos industriais ao mesmo tempo em que se depara com o aumento da capacidade produtiva total do País que se dará ao longo desses anos; isso fará com que a indústria seja um setor mais voltado para o mercado doméstico, visto que a recuperação de mercados externos não será da noite para o dia. Também será a oportunidade de se inovar e se adequar a esse cenário que apresenta muitos desafios.”

    Fabiana mostra que as vendas do setor automotivo devem se elevar em tímido 0,5% com relação a 2013, mas considera a possibilidade de 0,5 ponto a mais ou a menos como margem de erro. Para o segmento de leves, a economista aposta no forte trabalho das marcas, com aumento de campanhas de marketing de varejo, além da revisão de portfólio. Segundo as estimativas, o segmento é o que puxará o resultado final para todo o setor de veículos, já que prevê estabilidade para o mercado de veículos pesados.

    A maior preocupação, segundo a economista, está na inflação: segundo estimativas da instituição, o índice deve encerrar o ano em 6,3%, muito próximo do teto, de 6,5%. A arma do governo tem sido a adoção da política econômica de aumentar a taxa de juros para conter a alta inflacionária, índice que subiu 3,75 pontos porcentuais em um ano: “Em abril de 2013, tínhamos uma taxa de 7,25% e na última reunião, o Copom aumentou para 11%, sinalizando que esse pode ter sido o último aumento do ano, o que acrescenta mais um fator para sustentar a acomodação esperada para 2014. Contudo, pode não ser o suficiente para conter a elevação da inflação. Portanto, projetamos uma alta de até 12% da Selic para 2015”, pontua.

    Outro fator é o PIB, cujo crescimento esperado é de 2,1% este ano, condicionado à política econômica: “Quanto maior o ajuste (da Selic), menor o crescimento”, alerta.

    Fabiana também destacou o mercado de trabalho: segundo pesquisa do próprio Bradesco, os reajustes de salários chegaram a 7,5%, índice que está abaixo do aumento real de salário no País, de 8,2%, considerando o dado mais atualizado disponível, de março deste ano. “Isso significa que há mais espaço para negociações, o que é bom para o empregador – nem tanto para o empregado –, mas que está mais compatível com os ganhos de competitividade da indústria”, explica.

    Fabiana denominou 2014 como “o ano que não começa”, pelo grande número de eventos mais festivos, que anulam a roda da economia: “Teremos um carnaval que vai durar um mês: neste período ninguém vai comprar carro, ninguém vai entrar em financiamento imobiliário. Veremos grandes movimentos do varejo, mas outros setores ficarão muito estáveis”, disse, referindo-se à Copa do Mundo, que será realizada entre junho e julho.

    Sobre eleições, ela avalia que serão determinantes para desenhar os primeiros traços de 2015. “Um dos grandes desafios que elencamos para este ano é a reversão da confiança: houve uma perda bastante significativa e a agenda eleitoral de 2014 tem esse papel de torná-la positiva, não só corretiva nos próximos quatro anos.”

    Entre os principais desafios escalados, o que mais pesará para a indústria automotiva é a dificuldade das exportações, tão dependentes da Argentina. Para a economista, o Brasil não poderá contar com o país vizinho de forma contundente, o que pede a busca por outros caminhos, e considera Estados Unidos, que sinaliza recuperação, e Europa, que começa a respirar, mostrando que deixará de ser um problema global.

    Neste cenário, o câmbio projetado pelo Bradesco deve fechar 2014 em R$ 2,40 e R$ 2,45 em 2015, com tendência de alta nos próximos anos. A desaceleração do crescimento na China também pode influenciar, pois reforça a tendência de depreciação do real, a partir da mudança da percepção e confiança das empresas multinacionais nos mercados emergentes.

    Assista às entrevistas exclusivas da Automotive Business durante o V Fórum da Indústria Automobilística aqui .