Ranger e EcoSport decepcionam no mercado de usados após o fim das fábricas da Ford

EcoSport chegou a ter desvalorização de 20,85% no preço de troca, contra 7% do Tracker

Por ZECA CHAVES, AB
  • 24/05/2021 - 17:05
  • | Atualizado há 2 months, 1 week
  • 3 minutos de leitura

    Quando um modelo deixa de ser fabricado, é comum que sua desvalorização seja bem maior do que antes. Mas o que acontece quando o fabricante inteiro deixar de produzir? Foi para responder a essa pergunta que Automotive Business encomendou à KBB Brasil, empresa especializada em cotações, uma pesquisa exclusiva para determinar o quanto os modelos da Ford foram afetados pelo fechamento das suas três fábricas no Brasil, em janeiro.

    Para isso, a KBB fez um levantamento dos preços dos quatro modelos mais vendidos da marca, tanto os que eram fabricados no Brasil, caso de Ka, Ka Sedan e EcoSport, quanto a picape Ranger, importada da Argentina. Esses modelos representaram no ano passado 98% das vendas da Ford no mercado nacional.

    Os números revelam que o EcoSport teve o pior desempenho nos números, perdendo até o triplo do valor em relação a um dos concorrentes. A Ranger ficou um pouco atrás, apresentando até valorização em alguns cenários, mas sempre abaixo das outras picapes. A surpresa ficou por conta do Ka, que em algumas simulações valorizou mais que Chevrolet Onix e Hyundai HB20.

    COMO FOI FEITA A PESQUISA



    Antes de conferir os números em detalhe, vamos entender como foi feito esse cálculo. A KBB comparou o preço do carro zero km em janeiro de 2021 com o preço do mesmo carro revendido em abril, em dois cenários: quando o dono repassa o veículo ao lojista (é chamado de Preço de Troca KBB) e quando o dono ou lojista revende para um particular (é o Preço de Revendedor KBB).

    As duas simulações são importantes porque carros que têm má fama no mercado podem se tornar um problema para os lojistas, que tendem a desvalorizá-los ainda mais na hora da troca, como ficou comprovado no caso da Ford (veja tabelas abaixo). Além disso, mais de 50% dos proprietários costumam revender seu seminovo para lojistas, segundo estimativa da KBB.

    “Vários fatores afetam o desempenho de um carro no mercado de usados, incluindo subjetivos – como reputação e percepção dos consumidores – que devem ser levados em conta na hora de estabelecer correlações a respeito da taxa de desvalorização”, explica Ana Renata Navas, diretora geral da Cox Automotive Brasil, empresa que é proprietária da KBB Brasil.

    A fim de avaliar se as desvalorizações da Ford estão na média do mercado, a KBB fez os mesmos cálculos com seus concorrentes diretos: HB20 e Onix para o Ka; Chevrolet Tracker e Jeep Renegade para EcoSport; Toyota Hilux e Chevrolet S10 para Ranger.

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    ECOSPORT FOI MAL



    Quem revendeu um EcoSport novo este ano perdeu um bom dinheiro. O SUV desvalorizou 6,17% no preço de revendedor (é uma diferença de 9 pontos porcentuais para o Tracker, que até se valorizou nesse quesito) e surpreendentes 20,85% na hora da troca, o que é quase o triplo da perda do SUV da GM.

    Comparado ao Renegade (que teve uma desvalorização de 17,07% no preço de troca), o EcoSport conseguiu ser ainda pior: 3,7 pontos porcentuais a mais que o modelo da Jeep. No preço de revendedor, o Eco perdeu 3,8 pontos a mais que o concorrente direto.

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    RANGER: PODERIA TER SIDO MELHOR



    Dois fatores fizeram o preço de muitos modelos usados subirem neste ano: o reajuste das tabelas de fábrica do zero km e a baixa produção de alguns modelos por falta de peças para a linha de montagem. Portanto, não é de surpreender que alguns seminovos apresentaram uma valorização, como foi o caso das três picapes pesquisadas na simulação do preço de revendedor.

    Porém, a valorização da Ranger foi quase metade da S10 e menos de 1/3 da Hilux, mesmo sendo o único modelo da Ford do levantamento que continua sendo vendido, já que ela vem da Argentina. A situação foi semelhante na análise do preço de troca, no qual a Ranger teve uma desvalorização de 11,05%, contra 2,56% da Toyota Hilux e 6,47% da S10.

    “Os segmentos do EcoSport e Ranger são mais sensíveis aos fatores subjetivos de percepção do mercado e especificidades – como fidelidade à marca – que podem influenciar a desvalorização do SUV e da picape”, explica Ana Renata Navas. “Quanto maior for o valor agregado do veículo, a tendência é a de que estes quesitos cumpram papéis mais determinantes no comportamento de preço de um carro, podendo acentuar a desvalorização.”

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    KA SURPREENDEU NO FINAL



    Depois de verificar o mau desempenho de EcoSport e Ranger frente aos concorrentes, seria natural esperar o mesmo para o Ka. Mas não foi bem isso o que aconteceu. O hatch chegou a ter não apenas uma valorização como a maior do grupo, no preço ao revendedor. Subiu 5,08%, um pouco mais que o Onix (valorizou 5,05%) e muito mais que o HB20 (o Hyundai perdeu 1,26% do valor).

    Já o Ka Sedan não se deu tão bem assim. Foi pior que os dois sedãs na análise do preço de revendedor: desvalorizou 1,89% enquanto o HB20S valorizou 0,44% e o Onix subiu 6,45%. No entanto, o Ford conseguiu ser melhor do que o HB20S no preço de troca: queda de 13,61% contra 15,94%.

    "No caso do Ford Ka, apesar do anúncio de sua aposentadoria ter causado grande repercussão, o momento atípico de valorização dos preços de modelos seminovos pode ter ajudado o hatch a manter a sua boa aceitação perante lojistas e consumidores, uma vez que o modelo possuía grande volume de vendas antes de sair de linha”, analisa Ana Renata Navas. “O Ka hatch encerrou 2019 como o segundo carro mais vendido do País e mesmo em 2020 conseguiu se manter entre os cinco com maior demanda, o que certamente contribuiu para que o modelo se beneficiasse deste período de valorização de usados, fator que é ainda mais relevante para automóveis de menor valor agregado”, conclui.